A última crônica




 Hoje quis compartilhar "A última crônica", de Fernando Sabino. Nela, encontrei poesia na simplicidade...
 É isso que desejo para o novo ano: que possamos nos encantar com o momento presente e que haja sensibilidade para nos contentarmos com o possível_ feito sorriso de pai comemorando aniversário de filha...
 Feliz ano novo!!!


 A ÚLTIMA CRÔNICA - FERNANDO SABINO
 A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade, estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem nada mais para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
 Ao fundo do botequim, um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
 Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás da cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sobre a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando, imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
 A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola e o pratinho que o garçom deixou na sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
 São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a coca-cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, catando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…”. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça baixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
 Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Feliz Natal!


 Feliz Natal a todos que estiveram por esse cantinho de idéias, pensamentos e desabafos.
 Que Deus_ não importa a sua fé_ esteja com você nesse dia e em todos os que nos aguardam em 2013.
 Que papai noel_ não importa se já passou dos sete_ realize todos os seus sonhos... e que, principalmente, nunca pare de sonhar!
 Que Jesus menino _ não importa sua crença_ possa lhe ensinar a começar de novo, todos os dias...
 Muita saúde, paz, amor e alegrias!!!





O que passou, passou...




 Ainda é dezembro e enquanto o ano novo não vem, chega o tempo dos balanços, de rever o que passou e esperar com fé os 365 dias limpinhos que se anunciam, prontos para serem usufruídos...

 Certamente haverão boas surpresas, alegrias passageiras e permanentes, realizações. Também virão decepções _ parte do processo de viver_, novas dores e algumas esperas.

 Talvez o maior desafio seja esperar. Pois esperamos que as coisas caminhem conforme nossa vontade e isso nem sempre acontece. Nos apegamos a nossos desejos e firmamos pactos silenciosos com nossos anseios, mas pouco nos preparamos para os desvios de rota, compassos que retardam ou determinam nossos passos.

 Que haja paciência. Paciência com as contrariedades, paciência com as demoras. Que possamos suportar o gosto amargo para saborearmos com prazer aquilo que de doce nos aguarda. Que sejamos tolerantes com aquilo que nos falta_ pois algo sempre nos falta_ e isso é perfeitamente normal.

 Que 2013 não traga apenas remédio. Que ensine a moderação exata para nos contentarmos com o possível. Que nos apresente o desapego necessário para seguir em frente descobrindo que a felicidade está nas pequenas coisas, até naquilo que passa desapercebido e só vai ter valor lá na frente...

 Mas ainda é dezembro e desenho na areia da praia. Sei que logo chegará outra onda e apagará tudo. O mar é como o tempo... Traz significado ou torna irrelevante qualquer ensaio.
 Por isso é necessário entender que tornamos eterno aquilo que guardamos na alma. E você pode guardar o que quiser_ o bom ou o ruim da vida.

 Lembre-se que aquela dor já passou... Ela trouxe significados, modelou seu espírito e hoje são só rascunhos apagados na areia.

 Se vale algum conselho, não adie seus planos. Não deixe sua vida ser inundada por suposições_"se" eu tivesse tentado, "se" eu tivesse ido, "se" eu tivesse a ousadia _ porque, no final das contas, é necessário dar um desfecho aos ciclos; só assim é possível recomeçar, e recomeçando, ser novamente semente.

 Que sua lei seja_ apesar de tudo_ ser feliz!

 FELIZ 2013!!!






   

Relicário





 De férias, o roteiro começou por Minas, visitando minha terra natal. Ficamos hospedados na casa de um tio querido, na vizinhança da casa de meus pais_ há um ano alugada.

 Chegando, fui surpreendida com "nossa" casa _ ex residência_ aberta a visitação pública, com decoração e venda de artigos natalinos feitos à mão. A senhora na porta convidava todos que passavam para subirem as escadas e conhecerem a casa centenária, tombada pelo patrimônio histórico_ a casa que morei.

 Aceitamos o convite e entramos, meu filho e eu, enquanto o marido descarregava as malas.
 Éramos visitantes comuns, mas dentro de mim um filme se desenrolava.

 Seria possível os locais guardarem memórias? Em cada parede um pedaço de história? Haveria alma na casa? Seria ela um relicário de lembranças?

 Não sei; só sei que através de panos de prato bordados à mão e papais noéis artesanais voltei ao passado_ meu passado que se tornava presente naqueles breves instantes de visitação.

 Na cozinha vi minha mãe preparando o almoço enquanto me pedia para ajudar com os pratos. Vi meu filho correndo com meu sobrinho pela ampla sala e descendo para andar de velotrol no quintal; visualizei meus irmãos sentados à mesa em longas discussões sobre o passado e meu pai descansando na rede da varanda.

 Não era assim tão perfeito ou bonito, mas é assim que gosto de lembrar...

 E então haviam senhoras bordando, pessoas apresentando a casa, outras pessoas conhecendo cada cantinho. Olhavam com admiração, enquanto eu olhava com saudade.

 Saudade de um pedaço de mim chamado "filha"...

 Incógnita, passei despercebida e fui só mais uma na multidão, mas sei que aquelas paredes de alguma forma me reconheceram, e saí de lá com o peito apertado e os olhos marejados.

 Não por não mais fazer parte, mas pela noção avassaladora de que a vida se renova, dentro e fora de nós. Irreversivelmente.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

A partícula de Deus

(Texto também publicado no jornal "A Folha de São Carlos", edição no 13.770. , pág 02, do dia 07/12/2012)




 Domingo passado Marília Gabriela entrevistou Marcelo Gleiser, físico e astrônomo, entre outras atribuições. Ele falou de física, filosofia e fé. Explicou sobre a "partícula de deus"_ assim, em minúsculo_ e me encantou ao falar de uma disciplina que frequenta nos EUA: "física para poetas".
 Virei fã. Pois não é todo dia que a gente se depara com um grande cientista que _ a despeito de ser conhecedor de matemática, física, matéria, massa, partículas, teoria da relatividade, "átomo primordial", "vácuo quântico", etc _ admite que algumas coisas só se explicam à luz da fé.

 A fé que nos faz crer no invisível _ e nem por isso inexistente. A fé que nos conduz a um estado de paz mesmo quando tudo desmorona e explica a coragem de seguir em frente quando toda explicação falha. A fé que justifica e valida o inexplicável, que traduz o intraduzível.

 Infelizmente não é possível obter em pesquisas científicas a partícula fé.

 Fé é não saber, e mesmo assim crer.

 Crer na imprevisibilidade da vida, que tece um ponto aqui e arremata lá na frente;
 Crer no encontro, na inexplicável certeza de que alguns caminhos tinham que se cruzar _ para o bem ou para nosso crescimento;
 Crer mesmo não enxergando... confiar e acreditar na estrada mesmo quando a neblina encobre todo o caminho.
 Crer que o fato de estar no lugar certo na hora exata pode ser chamado "sorte", mas não deixa de ser providência;
 Acreditar que coincidências podem ser eventos aleatórios que te conduzem a um propósito.

 Não entendo nada de física mas a ciência me maravilha com suas certezas, dando nome aos fenômenos naturais, amparando dúvidas com comprovações, ensinando que a matéria não é tão sólida, que somos feitos de átomos_ prótons, nêutrons e elétrons em vibração. Somos energia, estamos em constante movimento e irradiamos calor, sensações. Captamos fluxos, agitamos outras matérias, organizamos e desorganizamos nosso equilíbrio.

 E isso nos dá a certeza de que podemos sentir uns aos outros. E sentir pode ser muitas outras coisas além do que só é visto e tocado.
 É estar em harmonia com o que acontece, deixando a maré conduzir nosso barquinho em vez de tentar remar para o lado contrário;
 É aceitar os revezes como parte do fluxo natural, não como acidentes de percurso;
 É entender as pessoas além do que elas dizem, agem ou omitem; permanecendo"no fundo de cada vontade encoberta", como cantou Caetano em "Força Estranha";
 É conectar-se consigo mesmo_ independente de dogmas, julgamentos, egos e leis _ buscando em si as respostas, descobrindo que você é e abriga a partícula divina.

 A ciência nos coloca de volta às origens, ao que é natural, onde tudo começou.
 E nos reconhecemos pequenos, partículas de Deus_ assim, com letra maiúscula.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES







  

"Vesti azul... Minha sorte então mudou..."


 Esses dias fui surpreendida no trânsito. Enquanto dirigia, liguei o rádio e tocava: "Passei a ser olhado com atenção/ E fui agradecer pela opinião/Então senti que o broto estava toda mudada/ Parecia até que estava apaixonada... Vesti azul! Minha sorte então mudou..."

 Me diverti demais com a letra da música que _ pasmem! _ não conhecia, e segui em frente pensando no brotinho, no rapaz que de repente teve sorte... e na vida da gente, que poderia mudar assim, num piscar de olhos, bastando um amuleto que nos desse confiança para seguir em frente.

 Lembrei do Dumbo, o personagem de Walt Disney que acreditava que voava só por causa de uma pena mágica. Um amuleto oferecido por Timóteo, o ratinho, para lhe dar confiança. Sem saber que realmente voava, Dumbo quase colocou tudo a perder quando a pena se soltou de sua tromba. Prestes a se espatifar no chão, foi alertado por Timóteo, que aos berros disse: "Você voa!!!!" e assim o fez recuperar as forças e planar.

 O tempo nos permite desmistificar certas neuras que insistem em habitar nosso espírito; vamos adquirindo ginga, fortalecendo nossa alma e perdendo o medo de arriscar.
 Arriscar leveza, sorrisos, audácia. Aprendemos a olhar nos olhos, a assumir nosso lado mais humano e nem por isso pior.

 Outro dia fui abordada com uma pergunta capciosa no meio de um almoço de família. Da cabeceira da mesa surgiu a dúvida: "E você, não cozinha nem no fim de semana?" Fui pega de surpresa, e me senti na obrigação de dar explicações_ já que cozinhar nunca foi meu forte. Gaguejando, perdendo a ginga e deixando a "pena"escapar, fui justificando minha pouca habilidade culinária. Só depois me dei conta da cilada.
 Fui soberba. Quis mostrar que dava conta do recado, quando na verdade não dou. Poderia ter respondido apenas "Não".
... um "não" suave, sincero, simples. Um não redentor, olhos nos olhos, sem culpa.

 É difícil aceitarmos nossas incompletudes. E nos habituamos a escondê-las, como se fossem defeitos. Não são.

 Tem gente que não dirige, mas faz um risoto de sonho. Outros, tratam o computador como alien, mas operam lâminas e bisturis com a precisão de deuses. Tem gente que não cozinha, mas toca Bach ao piano divinamente. Algumas mães sentam no chão e passam horas brincando. Outras, inventam histórias e buscam na escola... cada um do seu jeito_ certos e incompletos_ porque perfeito, só Deus.

 Vestir azul é reconhecer-se apto para o que você tem de melhor e não se martirizar por aquilo que ainda não é capaz, não gosta ou não quer.
 Passamos muito tempo flertando com a perfeição e pecamos por excesso de soberba.

 Temos dons, mas somos falíveis.
 Temos que reconhecer nossos limites, aquilo que não nos cai bem, o que não é do nosso feitio. Por que essa pretensão de querer dar conta de tudo?

 Se sua "pena" escapar ou a "camisa azul" não estiver disponível, alivie seu peso. Deixe espaço para aqueles que também lutam por seu lugar no mundo.

 Sigamos em frente com humildade, reconhecendo que um simples "não consigo" não é sinal de fraqueza, e sim maturidade.

 Você não deixará de ser quem é só porque faz café fraco ou coloca água demais no feijão...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES


Vida é prova



 Vem chegando o natal e as crianças, por volta dos seis anos, começam a questionar suas crenças: "Papai Noel existe mesmo?" "Não é só fantasia e barba de algodão?", e por aí vai, até que na noite de natal finalmente a ficha cai e percebem, com uma ponta de decepção, que suas suspeitas se confirmaram: ele nunca existiu...

 A dor do crescimento começa aí...

 Então você cresce, amadurece, e aprende_ a duras penas_ que o mundo não é feito de açúcar, que os adultos nem sempre detêm a verdade_ quase nunca detêm..._ que algumas coisas não saem do jeito que a gente quer.

 Mas a dor do crescimento aparece mesmo quando você descobre que algo em que você acreditava deixou de existir.
 É assustador ter que reformular tudo aquilo que te constituía e não constitui mais.
 Temos que estar dispostos a abrir mão de nossas crenças, de nossos planos tão reais, palpáveis, terrenos... para acreditar numa nova realidade.
 E vamos descobrindo que nada é tão real, palpável ou terreno. Que tudo pode mudar num piscar de olhos, enquanto nos apegamos ao que é conhecido.
 Percebemos que vivemos, mas não pertencemos. Amamos, mas não controlamos. Temos fé no invisível, mas nunca estamos prontos.

 Quanto mais aceitarmos o que é_no lugar do que pensávamos que era_ mais fácil superamos, e descobrimos nosso lugar.

 A vida é prova. E as questões são específicas para seu aprimoramento.
 Suas dores e decepções, os revezes, desvios e sustos fazem parte do pacote.
 Errar faz parte; deixar em branco anula quem você pode vir a ser...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES


A felicidade na vitrine

(Texto também publicado no jornal "A Folha de São Carlos, S. Carlos_SP, edição 13.763, 29/11/2012, página 02)

 Não sei dizer do que mais gostei no livro "O Arroz de Palma", de Francisco Azevedo. O livro é delicado e simples; seus personagens são repletos de defeitos e virtudes, com abundância daquilo que existe de mais humano em nós.
 Tia Palma e Antonio, os personagens centrais, parecem nossos chegados, e tia Palma não peca pelo excesso de palpitações. Um dia, a pitoresca senhorinha vai passear na casa de Antonio.  Chegando lá, se depara com o arroz_ que tem uma história linda_ exposto dentro de um pote de cristal no restaurante do sobrinho. Sábia, pega o rapaz pelo braço e aconselha baixinho:

" O arroz é tua felicidade. Não deves fazer alarde dela. A felicidade desperta mais inveja que a riqueza."

 Tia Palma tinha razão. Expôr a felicidade é vaidade. 
 Não basta ser feliz, ter afetos à sua volta, comida à mesa, teto, paz? É preciso expôr para validar?

 Com o tempo a gente aprende: A alegria incomoda.
 E desperta desejos. Sempre haverá alguém querendo experimentar um pouquinho do seu arroz_ esse, que você valoriza tanto.

 Não é pecado ser feliz. Não há nada de errado em irradiar alegria. 
 O perigo é usar isso para alimentar o ego.
 Felicidade e ego não combinam, e é aí que muita gente se dá mal.
 Felicidade é benção.
 O arroz é benção. Mas quando você se engana colocando-o num pedestal e se infla por possuí-lo, ele deixa de ser dádiva. Passa a ser instrumento de sua vaidade, e atiça a cobiça. 

 Não precisamos ser publicitários de nosso bem estar. Não é preciso estardalhaço para mostrar ao mundo nossa vitória_ contra a solidão, contra a baixa estima, contra o tédio.
 Ninguém é cem por cento feliz ou tem a vida perfeita, feito comercial de margarina.
 É fácil vestir um personagem e mostrar a perfeição, mas aprendi que quem tem certeza de que é possuidor de riquezas não fica mostrando por aí. Não precisa postar no facebook nem viver de aparências. 

 Se você não deseja inveja à sua volta, permita-me um conselho:
 Cuide de seus canteiros com humildade. Exercite o encantamento do agricultor que se maravilha com o desabrochar da roseira mas não tenta esconder os espinhos nem as pragas.

 Toquinho, em "À sombra de um Jatobá", cantou lindamente : "Poucas coisas valem a pena, o importante é ter prazer... longe do amor de quem nos finge amar..."
 Preste atenção à sua volta. Você não precisa de bajuladores, de um milhão de amigos que reafirmem quem você é.
 O importante é ter poucos e bons afetos, aquela turminha que sabe do seu sabor, de suas lutas diárias e vitórias merecidas.

 Gosto de gente sem agrotóxico. Que não tem vergonha de sua casca "mais ou menos" e se perdoa pelas pragas. Que não tem medo de expôr suas fragilidades do mesmo modo que se vangloria de suas virtudes.

 Gente que não se infla para parecer maior do que é.
 Gente que se humaniza e se aproxima de mim.

 Que não faz alarde de sua felicidade, mas valoriza o que vale a pena _ como a sombra de um Jatobá...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES





   

  

  

No olho do furacão


 No final de outubro o furacão Sandy devastou NY.
 Aqui no Brasil, o PCC ameaça, fere, mata. Vive-se o caos do medo, da insegurança, do descrédito na justiça.
 Enquanto as vítimas correm, protegem suas crias e criam muros para se proteger_ enquanto estão no "olho do furacão"_ não há dor que chegue, não há medo que paralise. De repente temos forças para correr na velocidade de uma maratona, aguentamos nocautes de pugilistas, somos feridos na pele, carne e alma e não sentimos.

 A dor só vem depois.

 Vem no dia seguinte, na outra semana, meses, anos mais tarde. É aí que a ficha cai e as feridas começam a acusar o trauma.
 Vem na hora que olhamos o que sobrou _ de nós, dos nossos _ e percebemos as ruínas e os destroços.

 Enquanto o furacão te cerca, não tente ser maior que ele. Não levante, não lute... pois ele vai te derrubar ainda mais. Apenas respire... Não insista, não fale, fique imóvel. Aquiete-se, diminua de tamanho, abrace seu corpo com todas suas forças e deixe a poeira baixar.

 Você só tem clareza de tudo quando sai do olho do furacão.

 É aí que o raciocínio retorna e você respira. Uma respiração dolorosa e curativa, mas ainda assim dilacerante.

 Quando o susto vira realidade _ palpável, quer você queira ou não _ você tem que agarrar a dor e reciclar os cacos, transformando os fragmentos em algo absolutamente novo: mosaico, caleidoscópio ou obra de arte.

 Você já não é mais o mesmo. Olha pra trás e enxerga que esteve em chamas, no olho do furacão, e saiu de lá outro. Seu espírito é outro. Aquele anterior não existe mais.

 Então é hora de levantar do chão e recomeçar.


As melhores fotos não vão para o álbum de retratos

(Texto também publicado no jornal "A Folha de São Carlos", edição 13753, 17/11/2012, pág 02)

 Outro dia estava na praia com meu menino. Era fim de tarde e fui sem bolsa, toalha, protetor solar ou máquina fotográfica. Nem celular levei, tamanha a leveza do meu dia.

 Sentada na areia, imersa no desprendimento daquela tarde, aproveitava a ocasião enquanto a batidinha de "What can I do" do The Corrs completava a paisagem.

 Meu filho corria atrás das pombinhas e de vez em quando arriscava um malabarismo na areia. Habituada ao registro de cada suspiro, lamentei não estar com a máquina em punho para fotografar o momento que se descortinava à minha frente.

 Então, num insight redentor, aliviei meu peso e permiti ser parte do enquadramento, sem zoom ou ajuste automático, armazenando aquele arquivo somente na memória afetiva.

 Não sei vocês, mas de uns tempos pra cá, com as facilidades das câmeras digitais, postagens simultâneas nas redes sociais e avanço tecnológico, passei a enxergar os melhores momentos da vida sob a ótica do display LCD, e no desejo de eternizar o momento presente, perco-o enquanto ajusto o foco, a luz, o posicionamento e o sorriso "X".

 As melhores fotos não vão para o álbum de retratos...

 Como aquela noite em que o primeiro beijo foi roubado dentro do carro... ele jura que foi ela; ela insiste que foi ele. Os olhos fechados, a música rolando no "toca fitas"... quantas vezes ele voltou a visualizar aquele instante, dando brilho ao interior e desfocando todo o resto?

 Na tarde daquela chuva_ uma chuva torrencial de verão_ela seguiu despretensiosa, o cabelo molhado, a blusa branca revelando o colo... nunca esteve tão linda, sexy, natural_simples_sem as poses costumeiras, sorrisos manipulados e olhar fatal;

 Novembro_ você e as crianças montando a árvore de natal. Um momento mágico, as luzes piscando, os dedinhos ajudantes dando os primeiros nós, a alegria estampada no olhar dos pequenos... E você ousou acreditar que a foto no colo do papai noel do shopping carregava eternidade maior?

 Sala de parto. A enfermeira registra o nascimento com a câmera. O que ela não capta são seus olhos marejados atrás do tecido verde. As mãos que apertam as suas_ geladas, molhadas de suor. Você encara o marido e pela primeira vez em tantos anos, percebe que ele chora... As fotos do bebê são compartilhadas no facebook, mas dentro de você a resolução do momento ultrapassa os 16 megapixels.

 Na despedida ela chorou enquanto o carro se afastava e ainda teve forças para correr, tentando evitar o inevitável... Hoje segue transformando a dor em sépia, aumentando e diminuindo o zoom...

 Minutos decisivos no banheiro. A alegria latente ao descobrir os dois tracinhos vermelhos na tira de papel_grávida!_ e o momento arquivado por toda a vida;

 Seu casamento. O fotógrafo, especialista em fotos jornalísticas, conseguiu captar beleza, descontração e espontaneidade. Mas aqueles minutos no carro, enquanto o motorista dava voltas no quarteirão e você conversava com seu pai; aquele último momento antes de entrar na igreja é o momento que será revisitado por tantas noites em claro, de ausências e saudades...

 Você está onde sua mente está. Da próxima vez, experimente substituir as lentes por sua presença. Que se divirta feito criança e permita ser levado pela emoção do momento, com a alma nua. Esqueça o protocolo e deixe de lado as regras sobre "como obter boas fotos".

 Entenda que o mantra "tudo passará" serve tanto para os maus quanto bons momentos, e se você perder o instante perfeito procurando uma estampa pro porta retrato da sala, ele também passará_tendo você registrado ou não...

                                                                                                                      FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Reprodução





 


Devaneios e quimeras


 Eu quis entender o inexplicável, sentir o que não faz sentido, dando nomes ao que é inominável em mim...
 Descobri que sou feita de ausências, procura, encontros e incertezas.
 Sou as palavras não ditas, a voz que cala quando quer gritar, as alegrias que permanecem além do tempo.
 A despedida não assimilada, a dispensa que me fez forte. Sou a dor do abandono e a paz do encontro. Tudo o que eu quis dizer mas se calou em mim, por medo, prudência ou falta de oportunidade.
 Sou a noite escura quando descobri seu segredo mais velado, a escolha que fiz a partir desse momento; sou a aceitação, a renúncia, a vocação.
 Sou a decisão, nem sempre certa, nem sempre justa, mas que me define enfim.
 Sou aquilo que renunciei, desprezei, omiti. Sou a falta que sinto daquilo que deixei, do que é vivo ainda que esquecido. A última chance, a hora desperdiçada,
 Sou a inconstância, o querer e não querer, o grito contido, o ventre encarcerado pela vida inexplicável que me habita.
 Sou a ferida que causei e que me despedaçou também.
 Sou esperança, fé, sacralidade. Liberdade e cárcere, espírito e carne.
 Desafio o amor, duvido de sua força mas desejo ardentemente que me prove o contrário; que seja, além de tudo, o que me afasta do medo.
 Desafio a morte desejando ser forte. Sou dura quando me sinto frágil e se sondasse meu interior saberia que minha rispidez denuncia minha dor.
 Crio muros intransponíveis para me proteger do amor que sinto porque meu afeto é tanto que te afastaria de mim.
 Sou sensível, doce, delicada; mas pouquíssimas vezes permito revelar-me assim.
 Anseio por amor, alegrias, completude, mas quando obtenho, nunca me basta. Sou mais completa na dor, no caos, na ferida aberta.
 Sou o corte profundo que sangra e dá prazer, a dor aguda que fere e anestesia ao ser lembrada, as noites em claro, a ausência de sentido.
 O olhar adocicado para o passado, o caminho percorrido na distração dos dias, o projeto pessoal realizado.
 O descuido com meus desejos, a vida concretizada através do espelho. O medo de não pertencer; a inquietude de ser ímpar quando desejo ser par; a satisfação de ser sua.
 O choro abafado no travesseiro; a felicidade palpável que não vai para o álbum de retratos...
 O gosto salgado e agridoce, a pele úmida e o olhar de contemplação, feita de silêncio e sombras, fugaz, intensa e dúbia.
 Sem argumentos nem defesas, indecifrável.
 Feliz, completa e inteira no meu mistério
 Feita de perguntas, nunca respostas...




A solidão de cada um


 Vinícius de Moraes era um apaixonado compulsivo. Necessitava da paixão para sentir-se vivo, à flor da pele, completo. Porém, além das aparências, era bastante sozinho. Certa vez deu uma entrevista à Clarice Lispector falando desse sentimento.

 "Clarice : Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?
Vinícius: Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.
- Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius."

 A gente entende o amor romântico de uma forma muito errada.
 Colecionamos frustrações porque fomos programados para acreditar numa fórmula de amor que não existe: o amor como solução de todas as nossas dúvidas e problemas; o amor como o encontro perfeito entre duas pessoas; o amor como a concretização da felicidade; o amor como doador daquilo que nos falta.

 Quando nos apaixonamos, é assim que funciona. A sensação é que finalmente seremos felizes para sempre, como nos contos de fadas. O problema é que desconhecemos a verdade.

 A verdade é que ninguém completa ninguém _ somos criaturas intrinsecamente solitárias.
 E faz parte da nossa natureza jamais nos sentirmos completos. Isso sempre será fonte de angústia, estejamos acompanhados ou não.

 Costumamos ser injustos com quem amamos cobrando o preenchimento de nossos vazios interiores, como se isso fosse possível. Não é.
 O amor traz consolo, mas não garante o fim de nossas inquietações.
 Quando buscamos nas coisas ou em alguém o fim de nossas precariedades, exigimos que essa pessoa _ coitada!_ seja para nós remédio, remendo e cura. Depositamos nela todas nossas esperanças e passada a euforia inicial, nos frustramos. Cobramos, controlamos, exigimos. Concluímos que a pessoa mudou, não nos satisfaz mais. Queremos nos sentir novamente nas nuvens, eufóricos, perdidamente apaixonados _ como um vício.

 É que a solidão não vai embora.
 Ela permanece; e só é camuflada por instantes, por momentos de absoluta distração de nós mesmos.

 Nos distraímos com um amor, um esporte, uma oração, nossos filhos, amigos, trabalho, prazeres. Mas quando acaba o expediente, as luzes se apagam e a música cessa, voltamos a ser só nós.

 Nós, e aquilo do que somos feitos: bem e mal, dúvida e fé, prudência e impulsividade, saudade e intolerância, paixão e comodismo, sagrado e profano. Nossas solidões são compostas de nuances, nem sempre íntegras, nem sempre belas; simplesmente composições de nossa essência...

 Schopenhauer, em "Aforismos para sabedoria de vida", diz que é na solidão que revelamos e sentimos quem realmente somos. Assim diz ele: "na solidão o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é".

 Muitas vezes nos apegamos a um amor que não existe mais ou à uma dor antiga porque de certa forma essa dor nos completa também. São emoções que mantém nossa cabeça, corpo e coração preenchidos, ainda que de forma torta. Nos apegamos àquele sentimento e cuidamos para que não morra dentro de nós. Alimentamos o caso que não deu certo, a mágoa que já expirou, a lembrança com validade vencida.

 Assim como Vinícius, temos sentimentos muito agudos de solidão.

 Podemos lidar com os nossos, colecionando romances como ele ou_ a exemplo de Clarice e da maioria das mulheres que conheço_ nos conectando com o que há de invisível e sagrado em nós...

"Que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar. 
 Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo"(Clarice Lispector)





Ordem na casa


 Você é uma pessoa boa. Do tipo que se esforça para agradar todo mundo, releva deslizes alheios, se culpa quando comete seus próprios deslizes, elogia, consola, dá conselhos. Tem autocontrole e engole sapos. Como boa menina, aprendeu que não é legítimo sentir raiva e de tanto reprimi-la vive com a barriga estufada e o intestino preso.

 Você não percebe, mas quem lhe comanda é um gigante, um "super"gigante.
 Um tirano que lhe olha de cima, aponta o dedo, não aceita notas baixas.
 Ele lhe faz refém, lhe mantém em cativeiro, e você se submete. Permite que ele lhe dê as cartas porque tem medo. Medo de ser excluída, ser alvo de críticas e desamor.

 Mas chega uma hora que tem que pôr ordem na casa.
 Porque por trás de toda docilidade e condescendência também existe uma fera.

 Uma fera que não quer acatar às ordens do gigante e deseja mostrar sua autenticidade, seus gostos...seus acertos e desacertos.
 Uma fera que deseja revelar que você não é perfeita, que não tem que provar nada pra ninguém, que quer ser amada mesmo que fuja do combinado; que é capaz de falar alto, de impôr limites, de se proteger.
 A fera é seu lado mais irreverente, transgressor, autêntico. E ás vezes você tem que escutá-la. Ás vezes tem que abrir sua jaula e deixá-la sair.

 Porque ninguém é de ferro.
 E você tem que aprender a se aceitar.

 A entender que a culpa te paralisa e não permite que você seja quem é. Simplesmente quem é...

 Mas quem faz sentir-se culpada? Quem aponta o dedo pra você? Seus fantasmas, seu passado, sua educação rígida?

 Ou você mesma? O "super" que há em você?

 Coloque ordem na casa .

 Não seja a primeira a se esconder por trás de um véu de justificativas quando o que você quer é assumir que não sabe cozinhar, que se apavora quando tem que dirigir, que está cansada pra balada, estressada com as visitas em casa, que prefere recusar um convite "irrecusável", que não dá pra quebrar um galho pro seu irmão hoje, que não pode emprestar uma grana, que não consegue gostar do perfume que ganhou do namorado, que tem medo de expôr um deslize do passado...

 Nem tudo são imperfeições. E se for, faz parte também.

 Você também erra, também se atrasa, também se irrita, também tem vontade de mandar tudo pra'quele lugar. E nem por isso será menos digna. Nem por isso terá menos amor.

 Só por isso será mais feliz.
 Só por isso será mais leve_ por dentro e por fora...

O Terceiro Ato e as garotas do chapéu violeta


 Essa semana uma colega de trabalho recebeu a notícia pela qual esperou meses: Pode se aposentar.
 Porém, para surpresa de todos que convivem com ela, está em pânico. Hoje, três dias depois da grande novidade, está depressiva e tenta desesperadamente reverter a situação.

 Ainda não sei qual será o desfecho dessa história mas de repente me lembrei de um vídeo que assisti há algum tempo, a respeito da revolução da longevidade_ uma palestra ministrada pela atriz Jane Fonda (http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/jane_fonda_life_s_third_act.html) _ que começa dizendo que hoje vivemos em média 34 anos mais que nossas bisavós.

 Fica então a dúvida: O que fazer com essa nova etapa da vida que de repente se descortina à nossa frente?
 Como lidar com nossos pais, amigos e familiares que hoje entram na maturidade ou o que quer que se denomine esse novo tempo?
 De que forma conduzir esse "completo segundo período de vida adulta que foi adicionado à nossa expectativa de vida"?

 Em julho viajei com minha família. No hotel que nos hospedamos havia outras famílias com filhos pequenos, principalmente bebês. A surpresa é que na maioria dos casos cruzávamos com senhores na faixa dos 65 ou mais, conduzindo carrinhos ou equilibrando bolsas gigantescas com pertences de bebês rosados e sorridentes. O interessante é que não se tratava do vovô, e sim do papai _ e isso ajudou a enxergar essa nova realidade:
 O terceiro ato como mais uma etapa que começa; não um desfecho dos anos vividos.

 Mas e aqueles que não desejam nem podem aumentar a família nesse período?
 Como reinventar a vida e a si mesmo e ainda assim ser feliz, completo e assertivo no período determinado pelas três últimas décadas da vida?

 A resposta pode estar no "Chapéu Violeta".
 Pra quem não se recorda, o conselho é de Mário Quintana _ seguido à risca por uma turma conhecida que acaba de entrar no terceiro ato.

 Perto delas, ainda sou menina e me divirto só de olhar. Mas sigo acreditando na fórmula e desejando a mesma disposição, desprendimento e alegria quando chegar minha vez.
 A gente se inspira nessas garotas. Porque a vida se encarregou de lhes mostrar dores, sacrifícios, angústias e solidão.

 Mas elas entenderam algo fundamental: O que importa não são os tombos que você leva, e sim como você reage a eles.

 Jane Fonda cita em sua palestra Viktor Frankl_ um psiquiatra austríaco que passou 5 anos num campo de concentração nazista e autor do livro "Em busca de sentido"_ Ele escreveu que enquanto estava no campo de concentração, poderia dizer, se eles fossem libertados, quais pessoas estariam OK e quais não estariam. E a resposta não estava no físico. A resposta estava na forma como cada um reagia ao que estava acontecendo.
 E ele escreveu isso:

"Tudo o que você tem na vida pode ser tirado de você exceto uma coisa: sua liberdade de escolher como você responderá à situação."

 É isso que determina sua qualidade de vida.

 É isso que significa ser livre.

 E essas garotas do chapéu violeta _ um grupo charmoso do qual minha mãe faz parte_ resolveram juntar suas dores e transformá-las em alegria. Em cor, riso e parceria.
 Seguem literalmente com seus chapéus violeta e ensinam _ a mim que inicio o segundo ato_ a viver, a encerrar um ciclo, a recomeçar.

 A reagir com delicadeza, fé e esperança.
 A sugar da vida o que ela ainda pode proporcionar, mais ou menos como aquela misturinha gostosa que a gente vai deixando no prato só pra saborear com vontade no final... entende?

 Quanto à minha amiga, acredito que o que a assusta nesse momento é a introdução ao terceiro ato, como se a aposentadoria fosse um rito de passagem_ algo como as formaturas, o casamento, os diplomas_ mas que seja leve, que encontre motivos para se divertir mais, que reformule as combinações neurais e encontre rotinas menos desgastantes e mais amorosas consigo mesma.

 Que compre uma bicicleta, cultive um jardim, se arrisque na dança de salão ou assista a "Mamma mia" e se delicie com "Dancing Queen"...

 Enfim, que "ponha um chapéu violeta e vá se divertir com o mundo!!!"
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES




O Tempo da Delicadeza

 (Texto também publicado no jornal "A Folha de São Carlos",edição no. 13.736, 26/10/2012, pág 02) 

                "Pretendo descobrir no último momento um tempo que refaz o que desfez..."




_"Você acredita que nosso amor é capaz de fazer milagres?"
_"Claro, é ele que traz você de volta pra mim todos os dias..."

(Do filme "O Diário de uma Paixão")








 Gosto muito de livros e filmes que retratam recomeços. Deve ser porque lá no fundo a gente esteja sempre recomeçando, mesmo que não perceba.
 Todos os dias estamos fazendo escolhas, decidindo voltar para casa, para os braços de quem amamos, para a vida que vivemos.

 Escolher o mesmo amor todos os dias é um milagre.
 Porque todo afeto é feito de pessoas. E pessoas são incompletas e imperfeitas _ o amor também.
 Tem gente que imagina o amor como solução. Não entendeu que amor é construção.

 Existe um tempo em que o amor amadurece. Chico Buarque chamou esse tempo de "Tempo da Delicadeza", e definiu lindamente como o "tempo que refaz o que desfez".

 Não importa de que matéria é feito seu amor. Você nunca poderá controlar ou evitar que algumas lascas ou rachaduras aconteçam durante o percurso. E quando isso ocorrer, você terá duas opções: partir ou permanecer.

 E é nessa hora, no instante em que você decide ficar, que o amor cria raízes. É nessa hora que você entende que entrou no "Tempo da Delicadeza" e terá que refazer o que foi desfeito_ de que forma for.

 Ter que escolher talvez diga mais sobre você do que não ter que fazer escolha alguma.

 Quando você descobre a razão que te faz permanecer, você começa a decifrar os motivos que te ligam àquela pessoa. Aquilo que faz o amor ser suficiente para você querer voltar para casa todos os dias.

 E são essas novas razões que justificam e validam aquelas outras, antigas... pelas quais seu coração se apaixonou. Pois agora você já não enxerga apenas beleza; você percebe os defeitos e tem consciência das lascas.

 Então você entende de fato o que são "promessas matrimoniais", muito além de "na alegria e na tristeza até que a morte nos separe".

 Permanecer na estabilidade diante das provações do tempo é aceitar o amor como um emaranhado de angústias, intimidade e gentilezas. É compreender a contradição que existe no que gera prazer e dor. É ser paciente com o tempo de esperas, em que o amor atravessa o deserto do tédio e da rotina. É acreditar que ainda há o que se esperar mesmo quando esgotaram-se todas as possibilidades.

 É entender que ninguém completa ninguém. O copo que está pela metade permanecerá meio vazio. O amor vem dar sabor, mas não tem vocação de plenitude.

 O amor moldado pelo tempo ensina. Mas você tem que se permitir vivenciá-lo.

 Tem que serenizar a alma e renovar os votos_ acreditando no tempo que refaz o que desfez...
                                                                                                                               
                                                                                                                              FABÍOLA SIMÕES









A poesia das crianças


 Hoje no carro, enquanto dirigia, meu pequeno palpitava acerca dos presentes que meu marido e eu iríamos trocar no nosso aniversário de casamento. Perguntei o que ele achava que o papai deveria dar à mamãe e a resposta veio prontamente, como se fosse óbvio:
_"Um vestido, mamãe"
_ "Um vestido?"_ perguntei _ "De que cor?"
_"Hum... um vestido laranja... com bolinhas vermelhas!"_ disse sem hesitar.

 Não pude deixar de sorrir, e de repente meu coração inflou, tamanha a poesia contida na inocência do meu garotinho.

 Se você já experimentou conviver de perto com uma alma de 6 anos_ou menos_ deve entender o que estou dizendo. Essas pequenas criaturas carregam o céu dentro delas. Dão trabalho, tudo bem... Necessitam de cuidados, rotina e ás vezes fazem mãnha por nada... Mas faça um teste. Experimente agachar numa altura suficiente para que seus olhos fiquem no mesmo nível (pode ser que a criaturinha agache também, então vocês terão que se sentar). E com calma, conduza um papo de igual pra igual.
 Você terá uma grata surpresa.

 Crianças, quando ouvidas, entendidas e valorizadas, carregam uma sabedoria ímpar, uma sensibilidade única e uma poesia desconcertante. São capazes de tirar sorrisos de onde aparentemente só existem cansaço e dor. Não desconfiam do tempo, das tristezas, do caos diário. Vivem num mundo à parte e por isso nos iluminam com sua espontaneidade surpreendente e habilidosa.

 Vivo correndo e muitas vezes sou alertada por meu baixinho que chega com suas mãozinhas subindo e descendo à frente do corpo dizendo num sussurro: "Se acaaaalma, se acaaaalma......"
 Ser mãe me trouxe esse privilégio. E há que se sugar esses momentos até à última gota, pois antes de nos darmos conta, a vida se encarregará de moldá-los com excesso de civilização e domínio de pensamento.

 A poesia escorrerá através do tempo, indo embora na velocidade com que chegará o amadurecimento.

 Vamos comemorar a independência, o sucesso e o fim das desobediências, mas nada substituirá a alegria latente de ter um garotinho em casa, um ser movido por sonhos e fantasias que povoava nossos dias de alegria _ feito vestido laranja com bolinhas vermelhas...



Lar é onde o coração está



 Duas coisas são essenciais na vida: Teto e afeto.

 Teto com afeto é lar.

 Casa só se torna lar quando comporta marcas na parede registrando o crescimento do menino, xícara com asinha lascada de tanta prosa e chá, panela queimada no clássico de domingo, saudade estampada no porta retrato da sala.

 Não importa quão longe você queira ir, não importa de quem você deseja fugir, seu lar é onde seu coração está.

 Ele segue com você e não é preciso ser como Carl, personagem do desenho "Up Altas Aventuras"_ viúvo de 78 anos que para manter uma promessa feita à falecida esposa, sai com a casa pelos ares amarrada a balões de gás_ para entender que nos livramos de telhas e tijolos, mas ficamos atados àquilo que um dia transformou toda essa arquitetura num lar de verdade.

 É difícil fechar a porta quando as lembranças criaram raízes e a poeira é relíquia de tempos bons. A gente recomeça e sem querer está repetindo a mesma organização, tentando eternizar aquilo que é familiar.

 "Lar" pode ser alguém _ geralmente é.

É pra lá que nosso coração se dirige quando encontra-se perdido, exilado, estafado.
Não importa a mobília, a decoração, a sofisticação _ O coração não tem memória palpável mas reconhece o que é verdadeiramente humano.

No fundo, queremos apenas nos sentir seguros_ simplesmente "em casa".

























 .













Encontro de turma

(Texto também publicado no jornal "A Folha de São Carlos", edição 13.730, 19/10/2012, página 02)

 No feriado de 12 de outubro minha saudosa turma de faculdade reuniu-se para comemorar nossos quase 17 anos de formados. Muita gente, como é de praxe, não foi. Mas a maioria de "nós" estava lá, revendo os grandes parceiros da juventude, apresentando as famílias, relembrando histórias e diluindo as saudades.

 Saudade dos amigos, de tudo o que vivemos, mas principalmente de quem fomos. De nossa versão mais simples, ingênua e até "demodê". Saudade mesmo do que nem lembrávamos mais_ pequenos incidentes que viraram anedotas_ mas que os amigos lembram por nós. Daquilo que fazíamos, dos papéis que interpretávamos, dos apelidos e manias tão singulares.

 Revimos álbuns, contamos casos, relembramos festas memoráveis. Testemunhamos a passagem do tempo no rosto e no relato de experiências de cada um. Por algumas horas esquecemos nossos dramas, a vida lá fora, as dificuldades cotidianas. A vida trouxe cicatrizes _visíveis ou não_ mas ali tivemos a sensação de que o tempo não passou. De que naquele hiato de 17 anos permanecemos os mesmos, independente dos rumos e feições adquiridos.

 Naqueles dois dias ficou remoto o tempo presente e voltamos a ser os "caras pintadas" que em 1992 _ nosso primeiro ano de faculdade_ depuseram o então presidente Collor, ainda que tudo acabasse em samba e cerveja. Naquela época éramos pretensiosos, debochados e unidos, e é claro que tudo funcionava perfeitamente _ pelo menos é assim que me lembro.

 Alguns dirão: "Ahh...isso é nostalgia sua..." Pode ser. Mas o fato é que estar ali de alguma forma me conectou à menina que fui, numa época de incertezas e indefinições em relação ao futuro_ ao hoje. E ver todos nós, vencedores aos quase quarenta, me encheu de alegria.

 Mesmo que não tenha sido unânime a disposição para o encontro, cabe entender que para um encontro de turma funcionar de verdade é necessário deixar a razão de molho, ignorar os custos, as distâncias, o cansaço. Não contabilizar afinidades, tempo transcorrido ou divergência de mundos. Não pesar opções mais confortáveis e menos onerosas. Tudo isso só faria sentido se não houvessem memórias.
Mas hoje percebo que o tempo pessoal_ medido em sua relação com a memória_ deveria ser o verdadeiro tempo.

 Reencontrar amigos significa localizar a nós mesmos, é estar alinhado com uma porção de nós que existiu e se diluiu, mas necessita ser ativada de tempos em tempos. É reencontrar nosso referencial, o pedaço de nossa história a partir do qual tudo o mais virou mera comparação e entender que, se algum dia fomos tocados, essa relíquia permanece conosco. Requer coragem, pois implica deixar o instinto de autopreservação em casa e se arriscar.

 A gente se reabastece. A sensação é mais ou menos como voltar à terra natal, rever a casa que morou na infância, esbarrar num grande amor ou provar uma receita de família.

 Existe poesia no reencontro... Um encantamento sentido por aqueles que se deixaram cativar. Como um amigo querido que viajou 1600 km só para passar algumas horas conosco. Acredito que apesar do cansaço, voltou leve e certamente pôde agregar partes de si mesmo, sob o olhar generoso e cúmplice de cada um dos presentes.

             Pois como dizia o poeta: "As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão..."



O medo é uma casa aonde ninguém vai


 Tem gente que faz de conta, ri para não chorar.Tem também quem toma as rédeas, controla, interfere. Tem gente que agride, tiraniza, ataca por precaução. Outros satirizam, disfarçam, tiram onda... como se tudo não passasse de piada de mau gosto. Tem aquele que se irrita, enfurece, adoece. Há quem fuja, despiste, gaste a energia de uma maratona para se ver livre. Enfim, há quem se vicie em correr riscos, como se a adrenalina do perigo camuflasse o verdadeiro risco.

 Não importa. Qualquer que seja a atitude, certamente são só disfarces. Acordos que permitem seguir em frente.
 Senão você não ia.
 Certamente não enfrentaria a noite escura.

 Semana passada começou a série "Sessão de Terapia" no canal GNT. Na chamada da série foi vinculada uma vinheta dizendo: "O que se esconde por trás dos medos?"
 Pensando no assunto achei que a pergunta talvez devesse ser outra:

 O que usamos para disfarçar nossos medos?

 Porque medo todo mundo tem. O que muda é a forma com que cada um lida com ele.

 No filme "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", de Woody Allen, o personagem vivido por Anthony Hopkins deixa a esposa após um casamento de 40 anos. Ele a troca por prostitutas jovens e num momento do filme há o comentário de que ele não suportou ver a esposa envelhecer diante de si, pois isso lhe remetia ao próprio envelhecimento.
 Então teve que deixá-la porque era insuportável conviver com um espelho que o lembrava a todo instante a aproximação da morte. O roteiro é irônico, pois quando o sessentão imagina-se cheio de vigor, percebe que já não tem energia nem dinheiro para acompanhar o pique da mocinha por quem se apaixona.

 Mas o "X" da questão está na forma como ele tentou despistar o medo: Fugindo.
 Deixando a esposa driblou o medo que tinha de envelhecer.

 Por mais que tentemos disfarçar, é complicado aceitar o ciclo da vida. A gente reluta em entender que pessoas entram e saem de nossas vidas e que em algum momento o equilíbrio dessa demanda vai mudar. Haverão mais saídas que entradas.

 Acionamos nossos mecanismos de defesa quando percebemos que nossos heróis, pais, mães, cônjuges... e nós mesmos não somos eternos e aos poucos perdemos o vigor.
 Temos medo. Medo de envelhecer, de não sermos amados, de perder quem amamos, de perder a nós mesmos. Medo da solidão, de ficarmos órfãos, de perdermos o juízo.

 Podemos fugir. Ou reagir... Controlar_ para que tudo corra bem debaixo de nossas asas.
 Domamos a situação_ como comandantes de um barco à deriva na tempestade_  e ficamos valentes, insistentes, intolerantes. Checamos o celular do namorado, cobramos amor, interferimos na vida de nossos filhos adultos, nos rebelamos contra o marido que não enxerga direito, ao pai que come espalhando migalhas pelo chão, à mãe que fala demais...

 Mas a verdade é que mesmo acompanhados estamos sozinhos. E conviver com essa verdade assusta.  Driblamos nosso abandono e desconhecemos nosso interior.

 No fundo, no fundo, somos crianças brincando de faz de conta. Sorrimos para o espelho e temos medo de chorar. Medo que o choro dissolva nossa maquiagem e revele toda a dor.

                                            A dor que vem do desejo de não sentirmos dor...






 







Bons frutos

 Sabe quando você começa algo por um motivo qualquer, e de repente aquilo torna-se muito especial? Pois é. O blog começou assim, devagarinho, sem nenhuma pretensão, quase como um desabafo diário, uma organização de idéias dentro de mim numa hora difícil.

 Mas tudo o que a gente faz com amor gera bons frutos, não é? O blog foi cativando leitores, recebendo mensagens de incentivo, crescendo na proporção do carinho. Virou quase um filho.

 Semana passada o "Soma de todos os afetos" recebeu um convite especial: Ter suas crônicas publicadas no jornal "A Folha de São Carlos"(S. Carlos-SP). Esse convite foi muito bem recebido e comemorado, pois percebemos que o "limão" virou uma deliciosa "limonada"!!!

 Domingo (30/09/2012) foi publicada a primeira crônica_ "Vivemos esperando"_ postada aqui em 10 de setembro. Assim como diz a crônica, estava apenas aproveitando a viagem e me deparei com essa doce surpresa...

 Posto a seguir fotos de nossa primeira publicação (na coluna direita). Obrigada a todos que me visitam e deixam aqui seu carinho.






"SE"...

Por Fabíola Simões
(Crônica também publicada no Jornal "A Folha de São Carlos"- São Carlos - SP - Edição do dia 05/10/2012)

 Teria acontecido. Se não fosse por sua insegurança, pela mania de duvidar de si mesmo, daria certo.

 Bastava ter pedido. Simplesmente ter arriscado. Um "não" seria o pior que te ocorreria. Mas o "sim" mudaria sua vida.

 Por que não tentou? Por que deixou o medo ser maior que sua vocação para a felicidade?

 Quantas vezes deixamos oportunidades passarem, amores atravessarem a porta de saída, sonhos serem arquivados... só porque não fomos capazes de dominar o medo.

 O medo que paralisa, limita, congela as suspeitas, eterniza as dúvidas. O medo que nos diminui, desmerece, encarcera... torna pessoas comuns "muita areia para nosso caminhão".

 E um dia _ tarde demais _ descobrimos que tínhamos as chaves. Que muitas portas estariam abertas se tivéssemos tentado.

 Bastava coragem _  e não haveria um "se"...

 Gosto muito do filme "Divã", de Martha Medeiros; especialmente da parte em que a personagem Mercedes pergunta ao seu analista: "E se eu lhe disser que estou com medo de ser feliz para sempre?" Porque no final das contas é assim que vivemos: constantemente boicotando a felicidade com preconceitos e suposições.

 Cheios de "mania de perfeição", colecionamos fragilidades e distorcemos nossas possibilidades com autocrítica, remorso e culpa.

 Muitas vezes preferimos prestar tributo ao sofrimento a acreditar nos dons que carregamos, na alegria que existe _ ainda que camuflada _ dentro de nós.

 Num mundo legitimado por egos inflados e distorções da verdadeira auto estima, reconhecer-se merecedor, capaz e digno é admitir-se irrestrito.

 É  aceitar a igualdade _ a irrefutável verdade que ninguém é tão especial ou tão banal.

 É entender que ninguém é "muita areia pro caminhão" de ninguém; compreender que com esforço, empenho e fé somos igualmente capazes de cruzar a linha de chegada.
 E então relaxar, porque finalmente aprendemos a confiar no "nosso taco".

 Não precisaríamos perder tanto tempo se soubéssemos que temos as chaves _ tanto quanto aquele nosso vizinho importante e sortudo. Porém, muitas vezes preferimos deixá-las esquecidas, negligenciadas dentro de uma gaveta, abandonadas à própria sorte.

 Porque no fundo há o medo: De avançar e cair. De chegar e arrepender. De evoluir e não estar pronto. De querer e não obter.

 Então nem ousamos o primeiro passo _  como se o erro fosse o fim.

 Mas nos esquecemos que o erro é o começo. O início.

 É o que nos faz ir mais longe, além da dúvida, além de nossas fragilidades... Além de nós mesmos.





INCLASSIFICÁVEL








"A vida é em parte um baile de máscaras com as quais nos seduzimos uns aos outros,
e nos enganamos diante do espelho..."
                   (Lya Luft)





 O adolescente vai ao dermatologista com a mãe. Com o rosto coberto de espinhas, a voz desafinada e os braços que de repente cresceram depressa demais, o rapazinho senta-se em frente ao médico e é indagado sobre o que lhe incomoda. Antes que abra a boca e pronuncie qualquer palavra, a mãe se adianta e interrompe: "Sabe o que é doutor? Ele está incomodado com isso e aquilo, e então se sente assim e assado e isso atrapalha aqui e ali..."
 (...) O médico se perde nas palavras da mãe, ensurdece diante de sua versão detalhada do filho, e olhando o garoto com o canto dos olhos sente compaixão e empatia pelo rapaz _  não exatamente por causa das espinhas...

  A mãe _ com a melhor das intenções _ acredita conhecer o filho mais do que ele mesmo.
 Classifica-o como tímido, incapaz de retratar seus problemas, imaturo e até um pouco fraco.
 Faz seu diagnóstico, assina e carimba.

 O menino cresce acreditando na versão da mãe. Sem perceber, aceitou a máscara que ela gentilmente lhe ofereceu. Em troca, ficou dependente de sua aprovação, de seu "sim" silencioso e cheio de significados.

 Infelizmente nos habituamos e permitimos ser classificados. Ouvimos o que os outros têm a dizer sobre nós e acatamos os papéis. Não ousamos duvidar do veredicto, não questionamos remover as máscaras _ nem quando pesam sobre nossa realização.

                             Desejo ser como Ney Matogrosso _ INCLASSIFICÁVEL.

 Que não julguem nem classifiquem minha personalidade, não elaborem diagnósticos a meu respeito;

 Que me permitam ser conhecedora de mim mesma e nunca rotulem ou idealizem minha natureza;

 Que me aceitem, não tentem me transformar no que lhes satisfaz mas me rouba de mim;

 Que entendam minhas mutações e permitam minha evolução;

 Que não acreditem naquilo que vêem com os olhos _ O essencial é invisível...

 Que não haja sofrimento perante meu mistério, minha introspecção...

 Que tolerem o que há de mais belo em mim: minha singularidade. O instrumento único que sou e que dá sonoridade à orquestra;

 Que respeitem minha alegria camaleônica, meu humor de fases;

 Que minha aparência não seja motivo de discórdia, que aceitem meu cabelo oscilante de acordo com a previsão do tempo e as fases da lua;

  Que eu não seja exorcizada toda vez que infringir regras sem sentido ou transgredir modelos pré-fabricados;

  Que eu possa silenciar de vez em quando e perder o juízo invariavelmente...

  Acima de tudo peço que não me idealize, pois terei que ser perfeito para você e o medo de te decepcionar me afastará de mim...

  Não projete seus sonhos em mim, a realização é pessoal e intransferível...

  Num mundo bombardeado por clichês e estereótipos, seres etiquetados e padronizados, ser livre requer luta e empenho. Empenho diário em ser fiel ao que existe por trás das máscaras.

 Ao classificar a realidade, as pessoas e as coisas, colocamos tudo dentro de pequenos cativeiros. Construímos prisões para os outros e nos encarceramos também. Criamos limites, celas, grades que nos separam daqueles que julgamos diferentes, e portanto, impróprios para o nosso convívio.

 Etiquetamos nossa cor, nosso colágeno, nossa posição social, nossos bens, nossa reputação, nossa opção sexual "normal", nossa religião perfeita, nossa família ajustada, nosso partido político coerente.
 Não permitimos mudanças, ponderações, diferenças. Somos intolerantes com quem fica "em cima do muro" _ como se parar para pensar fosse crime...

 E assim vivemos, seres perfeitos, imutáveis, imaculados, acima do bem e do mal.

 Subimos em nossas torres e lá observamos o "mundo perdido", sem perceber que perdidos estamos nós, solitários em nossas celas, aprisionados em nossas máscaras e cheios de "opiniões"...

                                                  "Somos o que somos, inclassificáveis..."






Meu Amor facinho



 Adélia Prado queria seu "Amor feinho". Eu gosto do meu amor facinho _ um amor simples e recíproco, que cuida do essencial.

Por que tanta gente permite que o medo _ de perder, de não ser especial, de ser substituído _ seja o fio condutor de seu amor? 

  Por que não almejar um amor facinho, que fica porque quer ficar, que ama sem impôr condições, que aceita sem exigir mudanças, que acompanha sem necessidade de recompensa, que está presente sem máscaras ou imposições?

Amores turbulentos baseados no medo e na insegurança, repletos de idas e vindas, que geram dores e lágrimas só funcionam bem na ficção. No dia a dia quero meu amor facinho, decifrável, transparente e companheiro. Que não camufle desejos, que exponha cicatrizes, que cresça de mãos dadas. Um amor sem escândalos, que ama sem escancarar e respeita abertamente. Que olha nos olhos, não tem medo de assumir, de acolher mãos dadas e afeto declarado. Que não domina, mas autoriza ser generoso sem ser submisso.

Um amor que me julga melhor do que julgo ser, que me aproxima de mim e me permite ser livre. 
Um amor que "reabilite o meu coração"...

Um amor simples. Um amor facinho.