AMNÉSIA


 Faço o tipo distraída. Atenta ao todo e desfocada de tudo. Perdida em pensamentos, divagações, viagens interiores. Do tipo que esquece a bolsa quando encontra as chaves. Atrasada, sempre correndo, sempre esquecendo. Distraída do tempo, de rostos e nomes. 

 Mas nunca tinha ocorrido esquecer-me de mim. Amnésia mesmo. Olhar para o espelho e perguntar quem é aquela que sorri sem jeito e diz "muito prazer". Acordar e não saber que vida é aquela, ter a sensação de estar vivendo a vida de outra pessoa, não a minha.

 Aconteceu comigo. Parece loucura porque não sofri nenhum acidente, não bati a cabeça nem tive traumatismo craniano. Mas de vez em quando a vida dá um "presta atenção" na gente. E eu precisei levar duas bofetadas para acordar. Um nocaute para estacionar.

 Acordei com amnésia querendo saber como vim parar aqui, que pedaço de mim fez essa viagem e que parte ficou lá atrás, sem coragem de engatar a primeira marcha. Naquele dia acordei com saudade daquela que não fez as malas, da menina que parou no tempo e tinha muitas coisas para me contar porque segui a estrada distraída e ela esteve a me observar, sabia dos meus erros, entendia minhas fraquezas, foi espectadora da minha jornada.

 Acordei sem identidade e quis me encontrar com aquela que sempre soube o que queria, com a parte de mim que tinha um olhar mais adocicado perante a vida.

 Como no filme "A Dona da História" em que a Carolina de meia idade encontra-se com a Carolina de dezoito anos e se pergunta como teria sido a vida se tivesse feito outras escolhas, investiguei meu passado para entender o presente. Revi fotos, reli cartas, mergulhei em diários. Voltei a escrever, reencontrei amigos, assisti a videos. Pouco a pouco a memória foi voltando, a comunicação se restabelecendo, o branco dando lugar ao entendimento.

 Então uma noite recebi uma visitante ilustre. Era a menina dos diários. Passamos a noite revendo histórias, compreendendo as escolhas, aceitando os caminhos. No fim, me encarou com ternura afirmando que fiz a escolha certa, que estou no lugar que sempre desejei estar_ apesar dos conflitos, dúvidas e mágoas.
"Isso faz parte da vida"_ ela disse, e acrescentou: "Apesar de tudo, essa é a melhor versão da sua história"...

 "E pode ser uma benção se você compreender que não é porque o caminho está difícil que ele está errado..."

 No dia seguinte a memória voltou e tratei de ser feliz.




MENINOS




 Em 2010 circulou na internet o vídeo de Tang Hong Ming, o chinêzinho apaixonado. Milhões de pessoas assistiram ao vídeo em que o garoto chinês se declara à Umi Qazerina. Quando a menina se aproxima e retribui seu afeto, a alegria estampada no rosto inocente de Tang comove até os mais céticos, pois revela a pureza do primeiro amor.  O primeiro amor sentido de forma diferente àquele experimentado pelas meninas.

 O primeiro amor de um menino.

 Já se tornou comum a opinião de que homens são insensíveis, frios, impiedosos e pouco românticos. Algumas mulheres não hesitam em taxá-los de "canalhas", "cachorros", "galinhas"... apelidos pejorativos que generalizam e definem injustamente o sexo oposto. 

 Homens já foram meninos. E meninos são sensíveis, românticos, sonhadores, apaixonados... Muito mais que meninas.

 Essa semana meu menino teve o coração partido por uma garota de 7, quase 8 anos. Ela já tem dentes permanentes, escreve com letra cursiva e é bonita, falante, espontânea. Ele acabou de completar 6 anos, seus dentinhos são de leite, ainda escreve com letra de fôrma e é muito tímido. Se encantou pela menina mais velha que inventa brincadeiras novas, é engraçada e não percebe que mexe com sentimentos de garotinhos precoces. Sem querer incentivar qualquer aproximação, só fui capaz de dar colo e ser boa ouvinte. Ele disse que queria se casar e me pediu ajuda. No dia seguinte compramos uma revistinha e um pacote de figurinhas da "Moster High" que ele levou junto com um desenho e uma dedicatória num envelope dourado.
No fim do dia fui buscá-lo na escola e encontrei meu menininho triste, puxando a mochila com desânimo, olhar baixo e vontade de chorar. A garota gostou da revista mas deixou a cartinha jogada no chão do pátio sem nenhum cuidado e, horas depois, desconhecendo ser o objeto de afeto do menino de 6 anos, proibiu-o de participar da brincadeira inventada por ela em que só entravam maiores de 7 anos.

 Fomos embora em silêncio e no dia seguinte ele ainda lembrava do ocorrido com uma pontinha de dor.

 Então parei para pensar que homens carregam dentro de si garotinhos de calça curta, apaixonados por meninas amadurecidas que inventam brincadeiras no recreio e se tornam lideres, rainhas da popularidade. No fundo são todos meio "Eduardos" apaixonados por suas "Mônicas"...E quem irá dizer que não existe razão?
 Porém, aos poucos esses meninos cansam de ter o coração machucado, não permitem serem pisados e endurecem_ Justamente quando as meninas querem tê-los de volta.

 Muitas mulheres um dia foram garotas espertas e lindas inventando brincadeiras e jogos no jardim de infância. Muitos coraçõezinhos foram despedaçados e elas nunca tiveram consciência disso, como a menina que meu filho queria se casar. Essas meninas crescem e esquecem o encanto que tiveram um dia. O encanto de serem espontâneas, naturais, criativas, alegres. Capazes de seduzir sendo elas mesmas, sem joguinhos, inseguranças ou afetações. Sem mania de rotular os pobres homens de canalhas ou cachorrões. Esquecem que homens são apenas meninos, como na letra tão linda de Leoni:

 " Garotos não resistem aos seus mistérios/ Garotos nunca dizem não/ Garotos como eu sempre tão espertos/ Perto de uma mulher são só garotos..."








CRÈME BRÛLÉE



 Viver é correr riscos. Amar é se proteger dos estilhaços. Viver é sentir dor, desamparo, solidão, insegurança _ Desejo também.

 Desejo e amor nem sempre caminham juntos. O amor nos protege do desejo.

 O desejo aguça os sentidos, afasta a lucidez, desarma as defesas.

 O amor consola, dá colo, protege.

 O início é sempre desejo. Mas o tempo diminui o compasso, tranquiliza as batidas, protege da dor. O amor chega para acalmar a pele que transpira, o coração que acelera, a mente que inventa. De repente nos sentimos seguros de novo, em paz, em casa.

 Quando amamos tudo é familiar. Reconhecemos o cheiro, a mania de encolher os ombros quando não entende alguma coisa, o gosto, o toque. Conhecemos os detalhes encobertos, as histórias que ainda comovem, a intimidade habitual. Compartilhamos memórias, sonhos, construções. Aprendemos o momento de falar, o de calar. Conhecemos o território proibido_ aquele onde só devemos pisar com pantufas de algodão_ , ficamos experts em matéria de afinidades.

 O amor traz segurança.

 A segurança trai o desejo.

 O desejo é companheiro da dúvida, do não saber, do querer o que não se tem.

 O desejo é inseguro, vasculha emails em busca de provas, fica na extensão, abre agendas, bolsas e celulares em busca de pistas. O desejo desconfia, arde em ciúmes, briga com o bom senso, rompe com a razão.

 O casamento nos protege do desejo, traz de volta a lucidez, reconhece o que é eterno.

 Mas viver um casamento sem desejo é como crème brûlée que esqueceu de ser flambado: doce e desbotado, calmante e  pouco excitante, nutritivo e pouco atraente, leve e nada tentador. Não acontece de fato, desfalece sem fazer barulho, acomoda-se com consentimento silencioso, renuncia a si mesmo, renega sua origem, denuncia a ausência, resigna-se com o remediado, morre sem esperança.

 O segredo está no mistério. Não precisa causar dúvidas, estranhamentos, conspirações... Uma pontinha de enigma basta. Deixa uma fagulha de desconhecimento que atormenta, aguça os sentidos. Como fogo que consome o pavio na última esperança de voltar a ser fogueira, a dúvida tem que permanecer, a intimidade tem que revelar sem escancarar, o olhar tem que permitir indagações.

 Casamento não pode ser sinônimo de ócio, preguiça, conformidade. O amor se acomoda no que é seguro, mas a vida é dinâmica, incessante, fugaz. O amor acomodado sobrevive na rotina e o desejo corre riscos. Corre o risco de se sentir vivo fora dali, de ser mais tragédia e menos drama, de ser mais discussão e menos entendimento, de ser mais carne e menos pijama de flanela.

Um casamento precisa mais do que o amor companheiro que acalma, compreende, dá colo, carinho e proteção. É preciso conhecer e desconhecer, reconhecer e assustar-se com a novidade que chega sem avisar, compreender e indignar-se com o que não percebeu.

 Renovar os votos é tentar ser menos conhecido, é se fazer diferente para atiçar a dúvida, é discutir para provocar mais amor, é descobrir-se você mesmo quando os dois já se tornaram um, é ir embora para depois voltar, é gritar para tentar recomeçar, é ser menos compassivo e mais passional, é criar momentos de intimidade consigo mesmo longe do outro, apaixonar-se por um hobby, afastar-se para a falta ser sentida.

 Renovar os votos é entender que nada é definitivo e ninguém é totalmente decifrável.

 Mesmo o casal de velhinhos que encontrou a transformação do amor em ternura, sabe que o amor é parceiro da felicidade, mas o desejo é o fogo do maçarico que flamba a vida.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES






CASTELOS RUÍDOS

 Construímos nossos castelos na infância. Fazemos pactos silenciosos conosco mesmos e prometemos cumpri-los quando enfim crescermos.

 Quando a sorte joga a nosso favor, conseguimos escrever nossas histórias e concretizar nossos planos, mas e quando não chegamos lá por obra daquilo que não dependeu de nossa vontade? E quando nossos castelos desmoronam pela força do vento ou das tempestades?

 É muito difícil crescer e nos depararmos com um sujeito diferente daquele que sonhávamos. Nem tudo está sob nosso controle e ondas podem devorar nossas promessas, lembrando que somos pequenos como grãos de areia.

 Não somos heróis, não derrotamos dragões, ainda temos medo. Somos falíveis e podemos deixar a mocinha esperando simplesmente porque não sabemos o que queremos ou de que forma fazê-lo. Ou sabemos, mas a mocinha não ficou a nossa espera. 

Crescemos, mas ainda carregamos dúvidas, fraquezas, ilusões... Somos homens de paletó e gravata, mas ainda machucamos aqueles que amamos, ferimos a nós mesmos, erramos, desistimos, tentamos recomeçar. De vez em quando somos ogros, nunca príncipes.

 A menina que fomos precisa entender que ás vezes terá que descer da torre sozinha e tratar de ser feliz. E que dragões vão aparecer ao longo do caminho e ela terá que enfrentá-los com disposição e espírito guerreiro, entendendo que ninguém detém o poder da felicidade alheia.


Essa fórmula é individual e a receita é exclusiva. 

A jornada estará completa quando ela compreender que um pouquinho de bruxaria não faz mal; bruxas são mais felizes porque carregam menos culpa, estão menos atadas ao passado e não depositam seus desejos ou complexos em ninguém. 

Quando a mocinha aprender que a vida fora da torre pode ser mais divertida e prazerosa, conseguirá identificar seu príncipe por trás das máscaras. Ou nunca encontrará esse príncipe e saberá lidar bem com isso, pois fará sua criança entender que encontrar alguém nunca foi o mais importante.

 Ao longo da vida muitos castelos irão ruir. E conviver com os destroços nunca será simples. Nos apegamos às ruínas como parte de nossas identidades. Sentimos pena da criança que chora sozinha nos escombros. Por trás de sua orfandade existe frustração por não ter tido suas promessas cumpridas. Para seguir em frente precisa reconciliar-se com o adulto e aceitá-lo.

 Reconciliar-se com o adulto que trabalha de segunda a sexta numa repartição pública quando o trato era ser músico, surfista ou veterinário; aceitar o adulto que lhe deu somente um filho ao invés dos dois que haviam combinado; perdoar o adulto que se embebeda num sábado à noite pra disfarçar a solidão quando jurou que ia ser livre e dono de seu próprio nariz; perdoar o adulto que se divorcia pela terceira vez quando o trato era ser feliz para sempre ao lado da mesma mulher; aceitar o adulto que combinou fazer bodas de ouro com o amor de sua vida mas não chegou nem às de prata; aceitar o adulto que sofre com a perda do filho quando o certo era não haver luto pelo caminho; reconciliar-se com o adulto que envelhece dia após dia diante do espelho apesar da promessa de que seria jovem para sempre, sem rugas, cabelos brancos ou dores pelo corpo.

 Você se cobra demais, se exige demais, se envergonha demais. Suas expectativas estão nas mãos de uma criança por vezes tirana que vive dentro de você. Está na hora de renegociar os contratos, rever as promessas, afrouxar as exigências. O futuro ainda reserva boas surpresas mas perceber que o merecemos sem dividas é o melhor jeito de curtir a viagem, nos aceitando com todas as dificuldades, impossibilidades e limitações, nos enxergando mais humanos e menos heróis.

Quem sabe assumindo que somos bruxas e não mocinhas; ogros e não príncipes.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES





A mamãe é meu remédio

 Ontem cheguei em casa e você esperava por mim; a vovó me contou que você disse "A mamãe é meu remédio" e nos abraçamos em silêncio até a febre passar. Por trás de seus olhinhos abatidos senti a sinceridade de suas palavras, e o calor de suas mãos presenteou meu pescoço. Se o céu existe, ele cabia no conforto daquele abraço. Essa sensação dormiu comigo mesmo sendo dia dos namorados e você lutando contra uma virose. Desde que me descobri mãe todos os papéis ficaram em segundo plano, mas como não me sentir recompensada depois de ouvir uma frase dessas? Sei que vou guardá-la por muito tempo, talvez por toda a vida, e me agarrar à sua poesia quando você crescer e for um homem feito, cheio de preocupações e responsabilidades.

  Porque você ainda é um menino de seis anos e eu ainda posso ser o seu remédio, mas a vida vai lhe mostrar que não sou perfeita, que tenho falhas, desvios e manias, que não possuo varinha de condão nem respostas pra tudo, que a dipirona tem propriedades maiores que minha presença, que não sou digna de ser seu espelho porque meus erros serão fatalmente identificados por você no futuro para que não os repita com seus próprios filhos.

 Mas não tem importância, hoje trato de aproveitar cada segundo ao seu lado, gravando na pele a sensação de seu corpo arredondado, sua risada farta e barulhenta, o toque de suas mãozinhas no meu cabelo_ que você insiste em arrumar num rabo de cavalo lateral_ ,seu cheiro principalmente quando corre e fica com o cabelinho suado, sua respiração profunda quando adormece. Essas são minhas relíquias, tesouros escondidos numa porção extensa do coração, consolo para os dias ruins e saudades futuras.

 Nunca mais fui a mesma depois que te conheci. Antes pulava de paraquedas, hoje deduzo os riscos do carrinho de bate bate. Tinha as unhas feitas, ultrapassava os carros pela direita e ia ao shopping pensando só em mim. Achava que sabia o que Cazuza cantava nos versos "Ser teu pão, ser tua comida, todo amor que houver nessa vida..." mas só depois de amamentá-lo por dez meses pude entender acerca de amor incondicional e saber ser o sustento de alguém.

 Ainda que a vida e o amadurecimento nos afaste, ainda que perceba que somos diferentes ou incompatíveis, que diga que exagerei na dose nisso ou aquilo, que não precisava ter sido tão severa ou tão melosa, ainda que me acuse por seus traumas, fantasmas e medos, mesmo assim serei grata a Deus pelo meu maior presente, pois você despertou algo em mim que eu desconhecia. Justamente quando achava que tinha controle sobre tudo, você veio para me dizer que não controlo nada. Quando acreditava que já tinha amado demais, você me faz sentir uma aprendiz em matéria de amor. Quando minha casa se tornou modelo de perfeição e assepsia você invadiu mudando tudo de lugar, sujando as paredes e estofados com seus dedinhos melados, restos de pipoca e confetes coloridos; agregando aos ambientes cadeirões, cercadinhos, bicicletas e skate. Quando achei que era capaz de racionalizar tudo, você me fez adquirir o sexto sentido, ser mais intuitiva e capaz de expressões como "coração de mãe sente..."

 Não há motivo para se lembrar das birras, refluxo, cólicas, noites em claro, viroses dilacerantes. De todos os trabalhos, você tem sido o melhor "ofício" e pelo qual sou mais bem remunerada. Não tem preço a alegria estampada nos olhinhos que brilham quando meu carro estaciona na garagem, o abraço forte que por vezes me tira o chão, as perguntas inteligentes e constrangedoras, os comentários engraçados, a forma pausada com que começa a fazer suas primeiras leituras, as festinhas na escola em que seu olhar procura aflitivamente por minha presença e se alivia ao me encontrar. Você trouxe alegria para nossa casa, como você mesmo diz. Alegria no barulho, nos carrinhos espalhados pelo tapete, nos desenhos colados nas paredes e geladeira, nos DVDs perdidos pela estante. Trouxe movimentação, inseguranças, busca de conhecimento; nos fez ler livros especializados_ "O que esperar quando você está esperando", "Nana neném", "limites sem traumas", "quem ama educa"_ e mais uma porção de títulos, nos tornando quase especialistas no assunto. Mas sem cartilha ou manual descobrimos o ser único que você é, com suas próprias regras e necessidades.

 Olhar para você é descobrir que o que é bom para meu ego certamente não é bom pra você. Quantas vezes você me mostrou que não é preciso impressionar ninguém, que sua hora é só sua, que quando você aprende a amarrar os sapatos, andar de bicicleta sem rodinhas ou cantar afinado posso me orgulhar mas não preciso te exibir para satisfazer minhas necessidades de aprovação e egocentrismo.

 Espero que na jornada da vida você venha beber da fonte onde tudo começou. Que encontre em mim seu vínculo com a infância e tudo o que ela representa; o refúgio onde poderá se mostrar imaturo, brincalhão ou muito resmungão, independente da idade que tiver. Acima de tudo, estarei atenta para que jamais perca a ligação com o menino que existiu aí dentro. O menino que brincava, corria, colecionava sonhos. O menino que me abraçava e dizia: "A mamãe é meu remédio".
                                                                 
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES








COLCHA DE RETALHOS

(
 (Crônica também publicada na revista literária Benfazeja)

Terminei a postagem anterior comparando nossa trajetória a uma enorme colcha de retalhos e volto ao tema por considerar o amor e os relacionamentos partes da mesma estrutura, um alinhamento de muitos retalhos que compõem cada um de nós.

 Se metaforicamente somos colchas de retalhos, como chegar ao próximo dia 12 de junho acreditando que seremos vistos além de nossos remendinhos e paralelamente, que encontraremos alguém coerente no equilíbrio entre retalhos intactos e gastos, de cores vivas ou desbotadas, firmes ou totalmente descosturados? Como encontrar alguém que se mostre por inteiro, sem ocultar ou disfarçar nada? Como reconhecer a colcha certa em meio a tanta pirataria?

 É muito difícil definir nossas escolhas com base nas primeiras impressões.  No início todas as colchas são belas e apaixonantes pois encontram-se
caprichosamente dobradas e alinhadas. Compactas, guardam em seu interior um lado que só poderá ser descoberto com o tempo.

 Aqueles que têm o espírito aberto e desejam viver suas histórias com paciência e disposição conseguem aceitar o que esteve camuflado_um furinho aqui, uma costura solta ali_ e se encantam com a harmonia do conjunto;

 Outros, julgando-se retalhos perfeitos e intactos, irão se sentir trapaceados diante de ranhuras no tecido ou má combinação de fazendas. Num mundo onde tudo é rapidamente descartado e substituído, um simples fio puxado ou desgaste no acabamento bastam para a reposição.

  Há aqueles que acreditam estar numa missão, são os fiéis costureiros da colcha desfacelada e se empenham nessa jornada, sacrificando suas vidas em prol da recuperação da colcha esfarrapada. Esquecem que ninguém pode consertar ninguém... Remendos fazem parte do pacote e não dá para transformar uma colcha de retalhos num edredom dupla face;

  Alguns se acham a última colcha matelassê do pedaço. Não conseguem encontrar um par à altura, pois imaginam ser merecedores de no mínimo um cobertor tipo exportação, cem por cento anti alérgico, aveludado e de aparência requintada. E seguem assim, desprezando radicalmente aqueles que não se enquadram em seus quesitos. Rotulam as pobres mantinhas, comparando-as a ponchos... inconscientes de que no fim estaremos todos corroídos pelas traças e desbotados pelo tempo, aquele que não poupa ninguém.

 Há também os que nunca são escolhidos, passam a vida inteira empacotados ao contrário, deixando à mostra seus defeitinhos e escondendo o que têm de melhor. Não têm a sorte nem o tempo a seu favor, o tempo que permite nos mostrarmos por inteiro.

Não adianta cobiçar a colcha do próximo. É ilusão achar que a colcha do vizinho guarda mais qualidades que a nossa. Ninguém garante que lá no meio não existam destroços e muita fuligem... Cuide do que é seu e se quiser mudar o mundo comece remendando a si mesmo...

 E se... depois de muitos anos amando uma colchinha sob medida, nos depararmos com um estrago enorme, um rombo ou uma corrosão no centro do que acreditávamos ser a colcha perfeita? O que fazer numa hora dessas?  Entender que somos livres e a escolha é nossa, aprendendo que não existem colchas perfeitas e edredons super king só existem nos contos de fadas...

Tem gente que não suporta ver o próprio estrago. São os que passam a vida inteira se mostrando por partes, só as melhores. Não aprenderam a confiar, a relaxar diante de suas imperfeições e combinações esdrúxulas.  Porém, pode ser que lá na frente descubram que onde havia uma manchinha agora reina uma nódoa gigantesca justamente porque não arejou. Abafada, contaminou tudo ao redor, como bolor... Se tiver sorte, um pouquinho de claridade e muito perdão resolvem.

 Descobrimos que aquilo que sentimos é amor quando olhamos a colcha cem por cento aberta e apesar dos tecidos que não combinam, dos rasgos que insistem em abrir, do desbotamento e da costura que se desfaz, gostamos e aceitamos o que vemos sem a necessidade de buscar nossas caixinhas de costura; é quando nos habituamos ao conforto daquele desgaste, ao cheiro daquele bolorzinho, à visão daquela manchinha e aquilo não nos incomoda mais; ao contrário, traz alento. É quando enfim sentimo-nos em casa e nos permitimos ser vistos por inteiro também.

FELIZ DIA DOS NAMORADOS!




* Imagem do texto : Arte de Léo Brito 

MATURIDADE x INSANIDADE


                                                 

                                                 
"Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz..."





Quando o cartunista Laerte decidiu vestir-se de mulher e assumir essa identidade de cabeça erguida e peito aberto, certamente enfrentou críticas, comentários, acusações e diagnósticos sombrios sobre seu estado mental. Porém, acima de qualquer julgamento buscou ser fiel ao seu coração, ao que acredita de fato, àquilo que lhe traz paz mesmo causando turbulência à sua volta, uma reconciliação com sua história, um respeito por sua natureza.

 Vivemos em busca de aprovação, de um olhar "superior"que nos diga que o caminho que trilhamos está certo, que é isso o que esperam de nós. Mas será que cumprindo o "combinado" nos tornamos pessoas mais felizes e realizadas?  Seria insano questionar o projeto e recalcular a rota?

 De maneira similar, outro dia Xuxa deu um depoimento ao Fantástico onde mostrou um outro lado de sua história. Rompeu o próprio silêncio e falou de um assunto delicado, quebrando talvez o código de conduta no qual uma "rainha" nunca deva expôr suas mazelas... Mostrou que por trás do "todo mundo tá feliz, tá feliz!!!"... também haviam dores, fantasmas, solidão_como todo mundo. Ao mostrar essa outra face fez como Laerte, que cansado de ser moldado às custas dos desejos alheios decidiu trilhar um caminho de transparência e assumir seu roteiro, mesmo chocando alguns e desagradando outros.
Desconstruindo a perfeição nos tornamos mais humanos, mais próximos uns dos outros.

 Dando o grito de liberdade nos aceitamos como somos, nos perdoamos, deixamos de ter um olhar moralista sobre a identidade escondida dentro de nós, descobrimos que não somos culpados pela maioria das misérias à nós atribuídas. Enfim amadurecemos.

 Amadurecemos quando nos libertamos da aprovação alheia para nos sentirmos felizes, confortáveis ou protegidos;

Quando deixamos de ter medo de nossas fragilidades e aceitamos olhar para elas do mesmo modo que nos vangloriamos de nossas virtudes;

 Amadurecemos quando rompemos nossas defesas e nos descobrimos humildes, admitindo  que ninguém é cem por cento imaculado, algumas enfermidades fazem parte do caminho e isso é perfeitamente aceitável;

 Quando enfrentamos nossas provações de frente, não nos censuramos nem disfarçamos nosso inferno;

Amadurece quem não se vitimiza em busca de atenção, nem se omite pra manter sua reputação;

Amadurecemos quando aprendemos que a vida é composta de acertos e desacertos e nos permitimos errar. E depois de reparar nossas faltas, nos perdoamos e seguimos em frente;

Amadurecemos quando começamos a trilhar um caminho de transparência e fidelidade aos nossos sentimentos;

 Quando preservamos nossa própria natureza, não poluímos a nós mesmos agindo de acordo com as "normas vigentes" nem aceitamos sermos rotulados;

Amadurecemos quando entendemos que somos os únicos responsáveis por nossas vidas e deixamos de culpar os outros por nossos fracassos, frustrações ou sonhos não realizados;

Quando entendemos que não adianta depositar nossas expectativas em ninguém,  cada pessoa enxerga a vida à sua maneira e não é certo cobrar algo que tem valor relativo para cada um;

Amadurecemos quando deixamos de ter  preconceitos contra nossa própria história, assumimos nossas imperfeições ou o que se fez imperfeito em nós e paramos de apontar no outro aquilo que tentamos esconder em nós;

 Amadurecemos quando entendemos que a vida é um conjunto de bem e mal, certo e errado, belo e feio, alegrias e tristezas, e passamos a conviver bem com os 2 lados, sem negociar uma escolha definitiva;

Amadurecemos quando deixamos de ser tão exigentes , quando nos permitimos transgredir e ser menos certinhos, quando finalmente aprendemos a dizer "não" e fo** - se!!!;

 Amadurecemos quando descobrimos que a alegria verdadeira tem um antagonista dentro de nós, que ninguém é 100% feliz o tempo todo, e que isso é perfeitamente aceitável;

Amadurecemos quando percebemos que o sofrimento faz parte do caminho e que ele é bem vindo também, quando nos ensina o sentido da paciência e da aceitação diante das demoras e revezes da vida;

Amadurecemos quando compreendemos que não há lógica nem explicação pra tudo, que  o importante é ter menos controle e mais diversão; quando percebemos que a maturidade flerta com a "INSANIDADE"...

 Amadurece quem entende que a vida é como uma enorme colcha de retalhos em que os retalhos bonitos, limpos e de cores vivas estão firmemente atados aos retalhos feios, sujos e gastos pelo tempo. Certamente desejamos possuir e expôr uma colcha perfeita , agradável aos olhos e aconchegante. Mas para isso teríamos que mostrar apenas metade da colcha_ou 70% dela, vá lá.
Porém, quando entendemos que a beleza da colcha está no contraste entre o belo e o feio, o novo e o velho, o limpo e o sujo... encontramos a paz que deriva do perdão e da verdadeira auto estima. Deixamos de julgar tanto_a nós e aos outros_, relaxamos com nossas histórias, fazemos as pazes com nossos fantasmas.

 Nos descobrimos livres, sem dívidas.

 Encontra a felicidade aquele que entende que não adianta mostrar a colcha por partes nem camuflar os retalhos feios. O segredo é olhar para eles com carinho e aceitá-los como parte do todo. E conviver bem com isso, pois no final, usando a colcha inteira estaremos bem mais aquecidos do que se a usarmos só pela metade.

SÓ POR HOJE


 Semana passada aconteceu o show "Tributo à Legião Urbana", com Dado Vila Lobos, Marcelo Bonfá e Wagner Moura nos vocais, lugar antes ocupado por Renato Russo, grande  ídolo da minha geração.

 Wagner Moura também era fã e afirmou que aquela foi talvez a noite mais emocionante de toda sua vida.


 Assim como Wagner, somos todos órfãos de uma banda que era quase uma religião, tamanho o impacto das letras de Renato Russo sobre nossas vidas, uma espécie de trilha sonora oficial da adolescência brasileira.

 Fui apresentada a Legião Urbana no finzinho da década de 80, devia ter uns 14 anos. Naquela época a banda estava no auge e buscávamos uma identidade. As letras de Renato nos deram essa identidade, fazendo-nos crer que alguém entendia o que sentíamos e conseguia expressar em melodias o que se passava em nossas vidas. Impossível não se sentir fortalecido depois de ouvir "Podem até maltratar meu coração, que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar..."

 Não haviam ipods, mp3 nem CDs, só vinil e fitas cassetes. Nunca tive um LP do Legião pois  as fitas eram copiadas de mão em mão e se multiplicavam rapidamente no pátio da escola; voltávamos prá casa em bando cantando "Faroeste Caboclo"_ um hino da nossa geração_ e que trunfo decorar a letra até o fim, era como se enfim fizéssemos parte do time.

 Entrei na faculdade em 92 e lá conheci outros adolescentes_porque ainda éramos muito jovens aos 17 ou 18_igualmente fãs da banda. Estávamos longe de casa, montando as 1as. repúblicas, experimentando a liberdade e nos apaixonando a cada minuto. Renato Russo falava de um Brasil que "é o país do futuro" e entoávamos "somos tão jovens..." com a força de nossa alma, como se a canção pudessse perpetuar aqueles momentos.

 " O sistema é mau, mas minha turma é legal"... Com esses versos nossa turma se reunia  nas repúblicas, barzinhos ou na "pedra", nosso mirante particular nas noites estreladas. A vida era um filme, haviam muitos Eduardos e Mônicas e a gente sofria por amor. Nessas horas o consolo vinha com Andréia Dória: "Nada mais vai me ferir é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui, com a minha própria lei"... ou para os mais sentimentais, "Vento no Litoral".

 Tudo era explicado e definido pelas letras até o dia em que dissemos "Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era prá sempre sem saber que o 'prá sempre" sempre acaba..." Estávamos indo de volta prá casa e dali prá frente a vida seria só nossa, com todas as dúvidas, questionamentos, esperanças e incertezas. Como os versos de "Será"...

 Em 1996  Renato Russo morreu e nos sentimos órfãos. Mas o legado que ele deixou ainda comove mesmo os que vieram depois, pois suas canções não remetem mais ao ano em que surgiram, mas sim à idade que os ouvintes tinham quando escutaram pela 1a. vez.

 Pouca gente na platéia do Espaço da Américas deve ter tido oportunidade de assistir a um show da banda original. Entretanto_e talvez por essa razão_ a apresentação daquela noite teve o impacto de uma experiência quase religiosa. Wagner Moura representou cada um dos fãs da Legião e criou uma empatia singular com o público que se identificou com o "cidadão comum" representado por ele. Como todos nós, estava visivelmente emocionado e entregue.  Foi o anfitrião de uma grande festa regendo o coro, um enorme karaokê onde todas as músicas traziam de volta a história pessoal de cada um.

 Assisti ao show pela TV e tive vontade de estar lá, ser um daqueles braços pro alto, sentir o calor da platéia e reviver uma época que sempre fará parte de mim. De qualquer forma permanece  a lembrança de um tempo bom, como a calçada riscada com tijolo de construção. E mesmo que o tempo passe e a chuva apague as marcas vamos continuar acreditando "que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente"...

                                                                                                         FABÍOLA SIMÕES





Recado para Natália



 Acompanho a psicótica Natália ( http://www.adoravelpsicose.com.br/ ) há algum tempo e apesar dela ter 27 anos e eu 38, me identifico muito com a personagem e a pessoa: a Natália psicótica e a Natália redatora, atriz e blogueira.
 Sendo 11 anos mais velha considero-me uma espécie de "tia", uma tia moderninha que ainda se vê com o frescor dos 27 e a maturidade dos quase 40 (ai meu Deus...). Sendo assim, tomo a liberdade de me sentar na cadeira da Dra. Frida e mandar um recado prá Natália, não só a psicótica, mas também a apaixonante Natália Klein, a qual admiro muito.

Querida Natália:

 Lendo seus posts, assistindo sua entrevista no Jô, acompanhando seu programa no Multishow e revivendo com você meus antigos dramas consigo enxergar com clareza porque você ainda não encontrou o cara certo, um namorado prá chamar de seu. Sei porque também já fui assim: Psicótica, engraçada, sempre disposta a fazer os outros rirem das minhas desgraças e criando disfarces para minhas dores. Apesar de carregar na bagagem 3 namoros e 1 casamento que já dura 11 anos, ainda assim vivi dramas homéricos dignos de uma psicótica:

  Pequenos consolos: Já fui patinho feio, Natália. Ou melhor, eu era o primo horrendo do patinho feio. Melhor ainda: Nem o primo horrendo do patinho feio queria namorar comigo.
 Não que eu fosse feia. Eu era esquisita.
 Usei colete ortopédico Natália, do pescoço aos quadris. Você sabe o que é isso? É 1000 vezes pior que as clássicas botas ortopédicas_que eu também usei.  Meu apelido era "Robôcop" e eu tinha 13 anos! Fiquei naquela jaula por 1 ano e meio e quem dançava no bailinho com o robôcop?... Quem beijava o robôcop?... Ninguém Natália...Ninguém...
 Também usei óculos e aparelho ortodôntico, dá prá imaginar? Mas não pára por aí: Prá piorar, eu adorava queimar meu próprio filme nos cadernos de perguntas  (você é da época dos cadernos de perguntas Natália?).  Eu era uma espécie de Sandy do filme "Nos tempos da brilhantina" misturada com a Sandy irmã do Júnior. Era uma freira evangelizadora na 8a. série e aproveitava os cadernos de perguntas prá moralizar a galera_você imagina o estrago, Natália?
 Depois, com a aparência melhorada e não sendo mais tão santinha quanto antes, consegui algum progresso, mas eu morava numa cidade pequena e todo mundo já tinha construído uma imagem mental péssima de mim. Não adiantava dizer que eu era moderninha ou menos esquisita... ninguém_eu disse ninguém_acreditava Natália.
  Então entendi que não podia continuar sendo o "robôcop-sandy" na cidade pequena. Ali seria impossível reinventar minha vida. Prestei vestibular de odontologia com a intenção básica de criar uma nova versão de mim mesma.
  Deu certo. Entrei na faculdade numa cidade diferente aos 17 . Lá, ninguém conhecia meu passado "negro" e pude mostrar que eu tinha outros atrativos também; não precisava continuar vivendo uma história em cujo roteiro eu era a gata borralheira e fingia estar me divertindo com isso. Haviam outros papéis e eu estava disposta a vivê-los.

...

 Aí de repente você surge fazendo rir porque traz à tona aquilo que levamos anos tentando esconder. Acaba com sua reputação enquanto satiriza nossos traumas, fraquezas e dificuldades. Com leveza e bom humor, se humilha para nos redimir...

Queria poder te dar algumas dicas nessa jornada psicótica e tomei a liberdade de criar um pequeno manual:

Primeiro: Cuidado para não se sacanear demais. O pior não é os outros acreditarem nessa caricatura; o pior é VOCÊ acreditar e se auto sabotar porque sabe que esse auto-boicote  faz sucesso, diverte as pessoas, mas quando as cortinas se fecham, a história é só sua.
 Morri de rir quando  disse que prefere ter razão do que ser feliz, pois "a felicidade é muito abstrata!". Mas será que lá no fundo você não se sente como a Mercedes do filme "Divã" quando diz pro analista "E se eu lhe disser que estou com medo de ser feliz pra sempre?"
 Porque é isso que eu enxergo estando de fora Natália. Você disfarça seu abandono com frases ousadas e bem humoradas, como se a vida fosse realmente uma sitcom, e nessa comédia será que um dia você terá sensibilidade para identificar seus medos? E seus desejos?

 Segundo: Ás vezes o namorado real pode estar passando por você nesse momento, mas acostumada que está em "não-dar-certo-com-ninguém" você pode reclamar do jeito como ele combina o tênis branco com o cinto laranja, ou alegar que ele chupa a saliva entre os dentes depois de uma refeição, ou cismar com os tufos de pelos na orelha dele,ou quem sabe criticar seu gosto musical, o toque do celular ... sem perceber que está mais uma vez afastando a oportunidade de estar com o cara bacana que pode ser o final feliz da sua história. Ninguém é perfeito Natália_ninguém (quem nunca foi estranho que atire a primeira pedra!). E se você deixar, o cara esquisito pode te provar que tem mais a oferecer do que só as esquisitices dele.

 Você já parou pra pensar que o grande amor da sua vida pode estar separado de você somente por uma maldita pochete na cintura?

  Terceiro:  Sua amiga de infância te aconselhou a sair com vários ao mesmo tempo. Ela estava certíssima. E não é questão de desespero Natália, é estratégia, dá certo. E realmente você fica mais leve quando não se fixa só em um. Mas também não precisa ir pra cama com eles; não enquanto não for sério, com chances de virar namoro e quem sabe uma cerimônia íntima pra umas 100 pessoas...
Por trás de todo humor, você se leva à sério demais. Ninguém é muita areia pro caminhãozinho de ninguém. Pessoas aparentemente interessantes apaixonam-se por outras aparentemente irritantes e banais.

 Quarto:  Pare de ser preconceituosa. Seu futuro marido pode gostar de sertanejo universitário, ter pelos nas costas e te fazer muito, muito feliz.
 Eu tinha preconceitos com caras mais velhos. Aos 26 anos achava 30 o limite. Mas a vida não se interessa por nossos "fricotes" e me apresentou um "idoso" de 41 anos. Eu quase surtei quando vi que ele carregava no bolso da calça um lenço DE PANO e um pentinho de PLÁSTICO, acessórios clássicos de tiozinhos! Ele gostava de música clássica, eu adorava rock; ele era caseiro, eu saía de terça a domingo; ele falava baixo, usava calça com pregas e nunca me rejeitou_o que é um defeito enorme para uma psicótica. Mas era paciente, generoso, amoroso, presente, gentil. Tive que recolher meus julgamentos e deixar meu orgulho de lado. Estava cansada dos mesmos tipos e pensei que aquela seria a maior transgressão da minha vida, mas estava disposta a ler o roteiro até o fim. Com o tempo minhas defesas foram rompidas, me deixei cativar e é a história que tenho mais orgulho de ter vivido. Casamos, tivemos um filho, somos felizes.

  Então Natália, o que quero dizer é que você é a representação da menina que carregamos dentro de nós_ seja essa uma frase clichê ou não. Vejo muito de mim em você mas não tenho saudades do tempo em que era "uma pobre torta garfada e destroçada" como você mesma disse. Torço muito por você e tenho certeza que ainda vai ser a torta preferida de alguém,"aquela que é levada dentro do pacote - o pacote completo, com todos os defeitos e qualidades" porque por trás de toda essa sua psicose, existe uma mulher fascinante que só precisa ser descoberta.