INCLASSIFICÁVEL








"A vida é em parte um baile de máscaras com as quais nos seduzimos uns aos outros,
e nos enganamos diante do espelho..."
                   (Lya Luft)





 O adolescente vai ao dermatologista com a mãe. Com o rosto coberto de espinhas, a voz desafinada e os braços que de repente cresceram depressa demais, o rapazinho senta-se em frente ao médico e é indagado sobre o que lhe incomoda. Antes que abra a boca e pronuncie qualquer palavra, a mãe se adianta e interrompe: "Sabe o que é doutor? Ele está incomodado com isso e aquilo, e então se sente assim e assado e isso atrapalha aqui e ali..."
 (...) O médico se perde nas palavras da mãe, ensurdece diante de sua versão detalhada do filho, e olhando o garoto com o canto dos olhos sente compaixão e empatia pelo rapaz _  não exatamente por causa das espinhas...

  A mãe _ com a melhor das intenções _ acredita conhecer o filho mais do que ele mesmo.
 Classifica-o como tímido, incapaz de retratar seus problemas, imaturo e até um pouco fraco.
 Faz seu diagnóstico, assina e carimba.

 O menino cresce acreditando na versão da mãe. Sem perceber, aceitou a máscara que ela gentilmente lhe ofereceu. Em troca, ficou dependente de sua aprovação, de seu "sim" silencioso e cheio de significados.

 Infelizmente nos habituamos e permitimos ser classificados. Ouvimos o que os outros têm a dizer sobre nós e acatamos os papéis. Não ousamos duvidar do veredicto, não questionamos remover as máscaras _ nem quando pesam sobre nossa realização.

                             Desejo ser como Ney Matogrosso _ INCLASSIFICÁVEL.

 Que não julguem nem classifiquem minha personalidade, não elaborem diagnósticos a meu respeito;

 Que me permitam ser conhecedora de mim mesma e nunca rotulem ou idealizem minha natureza;

 Que me aceitem, não tentem me transformar no que lhes satisfaz mas me rouba de mim;

 Que entendam minhas mutações e permitam minha evolução;

 Que não acreditem naquilo que vêem com os olhos _ O essencial é invisível...

 Que não haja sofrimento perante meu mistério, minha introspecção...

 Que tolerem o que há de mais belo em mim: minha singularidade. O instrumento único que sou e que dá sonoridade à orquestra;

 Que respeitem minha alegria camaleônica, meu humor de fases;

 Que minha aparência não seja motivo de discórdia, que aceitem meu cabelo oscilante de acordo com a previsão do tempo e as fases da lua;

  Que eu não seja exorcizada toda vez que infringir regras sem sentido ou transgredir modelos pré-fabricados;

  Que eu possa silenciar de vez em quando e perder o juízo invariavelmente...

  Acima de tudo peço que não me idealize, pois terei que ser perfeito para você e o medo de te decepcionar me afastará de mim...

  Não projete seus sonhos em mim, a realização é pessoal e intransferível...

  Num mundo bombardeado por clichês e estereótipos, seres etiquetados e padronizados, ser livre requer luta e empenho. Empenho diário em ser fiel ao que existe por trás das máscaras.

 Ao classificar a realidade, as pessoas e as coisas, colocamos tudo dentro de pequenos cativeiros. Construímos prisões para os outros e nos encarceramos também. Criamos limites, celas, grades que nos separam daqueles que julgamos diferentes, e portanto, impróprios para o nosso convívio.

 Etiquetamos nossa cor, nosso colágeno, nossa posição social, nossos bens, nossa reputação, nossa opção sexual "normal", nossa religião perfeita, nossa família ajustada, nosso partido político coerente.
 Não permitimos mudanças, ponderações, diferenças. Somos intolerantes com quem fica "em cima do muro" _ como se parar para pensar fosse crime...

 E assim vivemos, seres perfeitos, imutáveis, imaculados, acima do bem e do mal.

 Subimos em nossas torres e lá observamos o "mundo perdido", sem perceber que perdidos estamos nós, solitários em nossas celas, aprisionados em nossas máscaras e cheios de "opiniões"...

                                                  "Somos o que somos, inclassificáveis..."






Meu Amor facinho



 Adélia Prado queria seu "Amor feinho". Eu gosto do meu amor facinho _ um amor simples e recíproco, que cuida do essencial.

Por que tanta gente permite que o medo _ de perder, de não ser especial, de ser substituído _ seja o fio condutor de seu amor? 

  Por que não almejar um amor facinho, que fica porque quer ficar, que ama sem impôr condições, que aceita sem exigir mudanças, que acompanha sem necessidade de recompensa, que está presente sem máscaras ou imposições?

Amores turbulentos baseados no medo e na insegurança, repletos de idas e vindas, que geram dores e lágrimas só funcionam bem na ficção. No dia a dia quero meu amor facinho, decifrável, transparente e companheiro. Que não camufle desejos, que exponha cicatrizes, que cresça de mãos dadas. Um amor sem escândalos, que ama sem escancarar e respeita abertamente. Que olha nos olhos, não tem medo de assumir, de acolher mãos dadas e afeto declarado. Que não domina, mas autoriza ser generoso sem ser submisso.

Um amor que me julga melhor do que julgo ser, que me aproxima de mim e me permite ser livre. 
Um amor que "reabilite o meu coração"...

Um amor simples. Um amor facinho.



Vivemos esperando...

Por Fabíola Simões
(Crônica também publicada no jornal "A Folha de São Carlos"- São Carlos- SP edição do dia 30/09/2012)


 Não sei de onde vem a ideia de que a vida deveria ser um presente de grife, embrulhado em papel de seda, ornamentado com laço de cetim. Sem querer ser pessimista, prefiro acreditar na vida como um presente gratuito, com cheirinho familiar, embrulhado em papel pardo e barbante, de sabor conhecido.

"Era só isso?" _ Sim, só isso.

 Existe sabedoria na descoberta de que tudo é imperfeito e trivial.

 Quando fazemos as pazes com a imperfeição dos dias, das pessoas, de nós mesmos... deixamos de estar insatisfeitos; enfim relaxamos e aprendemos a contemplar o presente.

 Quem acreditou que o "só isso" não bastaria, comprou a falsa ideia de felicidade, a felicidade plastificada que só funciona no photoshop, mas que não é definitiva nem palpável.

 Altos e baixos hão de vir, mas o restante é simples. O restante é modesto. A maioria dos dias é comum, familiar, gratuito _  feito papel pardo atado com barbante.

 Almejando exclusivamente nossos "finais felizes", deixamos de aproveitar a viagem.

 Imaginando a vida como um projeto de fortes emoções, beijos apaixonantes, música tema de fundo... deixamos de ter alegria naquilo que é.
 Simplesmente é.

 A exigência da felicidade tornou-se causa de infelicidade. Porque vivemos esperando, buscando, desejando... e esquecemos de usufruir.

 Usufruir o presente, a paz acolhedora que nos reconcilia com a vida e suas possibilidades, o cotidiano do trânsito caótico, contas a pagar... mas também de cheiro do filho, elogio gratuito, pôr do sol visto da janela do carro, beijo de boa noite, fim de semana no campo, chuva molhando a grama, abraço acolhedor.
 Vivemos esperando por dias melhores e esquecemos de admirar nossas conquistas diárias, aquilo que é possível _ "só isso".

 Quando paramos de desejar o inatingível, de nos iludir com a grama do vizinho e tanta propaganda enganosa ... finalmente amamos mais.
 Amamos nosso dia a dia cheio de altos e baixos; nossos afetos conquistados e nem sempre perfeitos; nosso trabalho cansativo que garante nosso sustento; nossa realidade imperfeita e tão particular.

 Sofremos porque imaginamos a vida como algo que não temos. Ao desejarmos a lua cheia deixamos de admirar a suavidade da minguante...
 Sem querer, desprezamos nossas conquistas, imaginando haver um pote de ouro além do arco íris ou "50 tons de cinza" além daqueles que conhecemos tão bem _  nosso delicioso feijão com arroz.

 De tanto desejar, cortejamos a falta, a insatisfação, o buraco interior que nos faz infelizes enquanto alimentamos a ilusão de estarmos vivos e em movimento.

 E não percebemos que o que dá sentido à vida não é a busca e sim o encontro, o admitir-se pronto, inteiro, completo _ e também imperfeito e simples.

 Enquanto vivermos de expectativas sempre haverá a possibilidade de nos frustrarmos.
 Mas isso também é uma escolha, uma opção. Como no verso de Drummond:
"A dor é inevitável, o sofrimento é opcional..."