Qual o meu lugar...

 Ando viciada na música "O que se quer", de Marisa Monte. A melodia é tão contagiante que a letra passa despercebida. Mas prestando atenção, dá para entender o recado e concordar com a música que diz mais ou menos assim: " Não tente entender... o tempo dirá... qual o meu lugar... Eu perco o medo do que a sorte lê..."

 Semana passada tive certeza do sentido dessa letra. Porque a vida nos dá novas chances o tempo todo, e reconhecer nossos presentes é perder o medo do que "a sorte lê".

 Pode levar muito tempo para encontrarmos nosso lugar. Conheço gente que tem o dobro da minha idade e ainda está à procura. Outros, tão jovens, já têm a certeza de seu espaço, confiança no seu rumo, fé nas suas escolhas.

 Existem momentos em que é difícil reconhecermos nosso lugar. Parece que a vida dá e tira, coloca e pede de volta, estende a mão e puxa o tapete... mas com paciência, o tempo dirá.
 E então um dia, por algum motivo pequeno ou grandioso, você percebe que tem um bilhete autenticado em mãos. Um bilhete que lhe indica exatamente qual sua poltrona, sua janela_ por onde verá o mundo passar_, e sua companhia nessa viagem.

 Já me senti sem chão algumas vezes. É difícil e parece que não vai passar. Mais ou menos como estar no trem errado vendo o certo ser conduzido para o lado oposto.
 Mas o tempo muda tudo. E dentro do "trem errado", se você permitir_ e somente se você permitir_ pode começar a ter boas surpresas, grandes presentes. Essa é a oportunidade de virar o jogo.

 Talvez seja isso. Talvez a certeza venha quando aprendemos a reconhecer a "sorte" de estarmos onde estamos. E "sorte" é uma palavra banal demais para designar presentes divinos, dádivas, milagres.

 A vida sempre recomeça, o tempo insiste em mandar recados.  Mas poucas pessoas percebem. Poucos acreditam no que a sorte lê.
 E por isso insistem em almejar aquilo que não lhes pertence; procuram pelo que não pode ser encontrado; se inquietam com faltas que jamais serão preenchidas; tentam definir o que é indefinível...
 Nunca chegam a acreditar que já foram presenteados. Não se contentam com aquilo que lhes cabe e justificam suas inquietações como excesso de "vida"...
 Desejam sempre mais, como se agradecer pelo que se tem, fosse comodismo.

 Como disse, semana passada fui presenteada. Num jantar na casa de meus primos, segurando a bebê recém nascida mais linda desse mundo, recebi um envelope com um tesouro. Um cartão nomeando eu e meu marido ao posto de "Dindo e Dinda". Não pude conter as lágrimas ao reconhecer "qual o meu lugar" depois de tantas dúvidas acerca da maternidade e dos sonhos.

 Poderia ter sido apenas um gesto de carinho, mas alguma parte de mim reconheceu o bilhete premiado_ ou aquilo que a vida ainda guardava para mim...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES


La vita è bella


 Domingo de manhã, durante a missa das crianças, vejo entrar na igreja um casal singular_ mãos dadas, idades beirando os quarenta, aliança no anular esquerdo, harmonia indescritível.
 Passo a observá-los e noto que são especiais. Digo especiais no sentido do que se conhece como "normalidade"_ eles claramente fogem do padrão. Me distraio dos ritos e fico cada vez mais absorta no mundo deles _ "inconsciente", "deficiente" e notadamente feliz.

 Admirada, percebo como agem: cochicham ao pé do ouvido e riem, riem muito... com vontade, com o corpo, com a alma. Dão-se as mãos e são cúmplices no olhar. Sequer disfarçam quando, no banco ao lado, senta-se um menino com defeito físico no braço. Olham, apontam, ficam surpresos. Por esse breve instante_ e só por esse instante_ mostram-se tristes, compassivos. Após essa brecha, voltam a sorrir, a bater palmas entusiasmados, quase se fundindo ao bando de crianças.
 Cuidam um do outro, são gentis, amorosos e, principalmente: compartilham a mesma visão, a mesma alegria, a mesma fantasia.

 A fantasia de que a vida é bela. Somente bela.

 Fui para casa pensando neles e sentindo uma pontinha de inveja_ boa. Uma vontade de ser assim, de me proteger das dificuldades, das dores, dos problemas através da fantasia, da ilusão, do sonho.

 Do mesmo jeito que as crianças fazem quando ainda acreditam em papai noel, coelhinho da páscoa e fada do dente. Semelhante àqueles meninos que acreditam que são heróis.

 Aconteceu outro dia. Meu menino não conseguia pegar no sono e por isso saía da cama a cada 10 minutos. Eu já havia contado mais de vinte histórias, já tinha colocado o tercinho entre seus dedos, já tinha agradado e suplicado para que dormisse...e nada. De repente uma luzinha se acendeu: quando ele se levantou pela milésima vez, sugeri que vestisse de homem aranha. Fiz um discurso todo pomposo_ com meu marido me olhando incrédulo_ dizendo que ele conseguiria se defender dos E.Ts e "etecetera"... , e no fim (ufa!) funcionooooou!!!!
 Lá foi ele, todo contente, dormir de macacão curto _ cheio de pose_ se achando poderoso. Dormiu.

 De vez em quando é difícil sermos nós mesmos. Dá medo. Aterroriza feito noite escura.
 Ao contrário do que dizia Sartre, o inferno não são os outros, e sim nós mesmos. E nos assumirmos_ naqueles momentos em que ser nós mesmos é aterrorizante_ pode ser tarefa impossível. Por isso precisamos das fantasias.

 A fantasia é estruturante quando tudo o mais desmorona. E não há pecado em sair da realidade de vez em quando _ e só de vez em quando_ para vivermos como se fôssemos "super", como se a vida fosse bela, como se tivéssemos a família perfeita, o emprego dos sonhos, os amigos ideais, a serenidade de um monge ou a histeria de um astro de rock. Não importa. O sonho tem o tamanho e o modelo que você quiser...

 Sabemos que a vida é mais do que a foto de capa do facebook e que não há photoshop que conserte certas coisas, momentos e pessoas. Mesmo assim, como dizia o samba: "sonhar não custa nada..." e se iludir um pouquinho faz bem, resgata a criança que permanece conosco e que se divide em obrigações, dramas, dificuldades. Essa criança que precisa de alegria, prazer, ilusão.

 Faça o teste: da próxima vez que sentir que a vida está dura demais, experimente agir como Guido, o personagem de "A vida é bela".
 Invente beleza, modifique comportamentos, iluda-se em frente ao espelho, reveja fotos de uma época feliz.
 Saia de si mesmo e sorria.
 Sorria como o casal que encontrei na igreja, como crianças que acreditam em heróis, como versões de si mesmo que de alguma forma lhe mostram que ainda é capaz de amar, de ser leve, de ser completo, de ser feliz...
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES












Efeito colateral


 No carnaval buscamos sossego. Fugimos das aglomerações e descansamos no interior de São Paulo, numa cidadezinha pacata onde vive o pai do meu marido. Porém, desde a primeira noite de tão almejada tranquilidade, tivemos uma "in"(?)grata surpresa: às quatro da manhã_ pontualmente _, éramos saudados pela cantoria do mais novo habitante do quintal: o galo do meu sogro. Sem conseguir dormir, já que o galo cantava de quinze em quinze minutos, meu filho corria para nossa cama (modelo "cama de viúva", pequenininha...) e ficávamos os três, apertadinhos e incomodados, acompanhando a cantoria do galo _ bem embaixo de nossa janela.

 A cena se repetiu de sábado à terça e no fim já estávamos habituados e acomodados com a presença do seresteiro. Mas daí que entendi algo peculiar: o galo foi o efeito colateral de nossa bucólica paz.

 Não existe remédio sem efeito colateral_ aquele gosto amargo que é preciso suportar para curar-se da dor ou seja lá o que for; do mesmo modo que não existe gente perfeita, vida intocável, felicidade sem retoques ou paraíso sem defeitinho escondido ou rachadura descoberta.

 Também não existe príncipe encantado e vida feito conto de fadas. Aquilo que você busca em alguém pode ser justamente o que vai lhe incomodar um dia; o que lhe atrai pode ser o que lhe assusta também... e você tem que aceitar o ônus se quiser aproveitar o bônus.

 Porém, há remédios com mais efeito colateral do que cura ou benefícios. E ninguém é obrigado a tapar o nariz e engolir a seco aquilo que lhe faz mal, não lhe beneficia ou lhe deixa pior do que é.

 Ainda assim, tudo são escolhas. E quando você percebe que aquele efeito colateral vale a pena, que apesar dos pesares lhe torna mais feliz, que de alguma forma lhe ajuda a viver e cura suas feridas mais profundas, é hora de deixá-lo entrar e aprender a apreciar o que de doce existe além do amargo...

 Você enfim perceberá que mesmo sendo ruim, é bom.
 Feito cama de viúva abrigando três almas insones... cheias de calor humano.





Cada um sabe o que traz na bagagem


 Ás vezes entendemos a vida de forma "torta".
 Seja porque nos ensinaram assim, ou talvez porque simplesmente não compreendemos as coisas no momento em que foram ensinadas, ou ainda porque o único jeito que encontramos para lidar com aquilo foi dessa forma distorcida.
 O fato é que continuamos a viver assim, entendendo tudo ao contrário_ como se fosse certo_ e obtendo resultados ruins.

 Um dia, numa hora qualquer, percebemos os estragos de ter compreendido errado. Porque não facilitamos as coisas para ninguém, principalmente para nós mesmos.

 É preciso entender que as pessoas têm visões diferentes da vida, dos momentos, dos acontecimentos. Porque deduzem baseadas nos primórdios do aprendizado, naquela porção interior cheia de mistérios que ainda estamos longe de compreender.

 Cada um sabe o que traz na bagagem. E ninguém tem visão de Rx _como na esteira do aeroporto_ para desvendar o que vai dentro do outro. E mesmo tentando explicar, é difícil compreender.
 Por isso, o que me deixa à flor da pele não é o mesmo que te excita, o que me faz ferver por dentro não provoca nem cócegas em você, o que não suporto é indiferente aos seus sentidos, o que você oculta é escancarado em mim. Porque somos complexos até para nós mesmos. Assimilamos distorções e colecionamos traumas, que culminam nas horas mais impróprias: um encontro inusitado, um filme bobo, um tropeção sem importância. E choramos "sem motivo", surtamos sem "razão", nos declaramos "do nada".
  Nessas horas você deixa vir à tona aquilo que andava guardado há muito tempo, naquele cantinho da bagagem onde colocamos pequenos pertences e grandes segredos.

 Então você descobre que qualquer fato pode trazer à tona sua versão mais primitiva. E, se tiver sorte, pode consertar alguma coisa a partir daí. Porque percebe que é hora de encontrar o caminho de volta.

 E o caminho de volta pode lhe conduzir ao mesmo lugar de onde você partiu, mas saberá lidar melhor com a situação.
 Ou te levará à uma rua totalmente nova, com paisagens inéditas, como folha em branco.
 Mas é fundamental que encontre um caminho.

 Pois a vida não parou, ela só te mostrou que ás vezes não adianta ter razão, não adianta querer muito alguma coisa, não adianta acreditar. Certas coisas simplesmente acontecem, aleatoriamente, livremente. E isso não se refere necessariamente a você. Isso faz parte de um equilíbrio universal_ talvez como folhas que caem e se renovam com a mudança das estações_ E basta estar vivo para estar sujeito ao caos.

 Sobreviver é reconhecer novas chances, novos recomeços, novas possibilidades.
 Entender que uma janela se fecha enquanto uma porta se abre; entender principalmente que se fixar no cadeado sem chaves é perda de tempo, talvez burrice.

 Então você se dispõe a recusar o papel de vítima; e aprende a desdenhar qualquer emoção ególatra...

 Finalmente você percebe que é único. E algumas questões pertencem somente a você. Exclusivamente. E, se estar à flor da pele por motivos aparentemente banais faz de você quem é, apenas aceite. Aceite e toque seu barco sem perder a fé, acreditando que todo mundo tem uma bagagem também_ algumas mais leves, com rodinhas ultra deslizantes; outras pesadas, com a alça desabando...

 Porém, haverá um momento_ quando você menos esperar_ que não estará tão pesado assim. Nem difícil.
 Estará apenas mais adaptado ao seu corpo, ao seu tamanho, às suas forças... a você.

                                "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é..."

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES