Francamente, cá entre nós

"Que Deus me perdoe e minha mãe me entenda" digo às vezes, assim, pra mim mesma, quando ando cansada de "grandes aglomerações".
 Nunca entediada dos meus afetos, da turminha que me acompanha, mas desejando fechar-me em minha casca, meu casulinho particular, onde teço meus pensamentos, amadureço meus sentimentos, jogo fora o que não merece ser reciclado.

 Sou de natureza introspectiva e de vez em quando peço perdão por isso. Perdão porque muita gente não entende essa minha mania de ser só eu, eu e minhas caraminholas tão particulares. 

 Criamos o hábito de nos ferir. Acostumamos com aquilo que faz mal e perdemos tempo com o que não acrescenta.
 Vivemos de aparências para que ninguém perceba o quão incomodados estamos. E por que não revelar que preferimos de outro jeito? Por que não dizer "sim" para nossas necessidades de paz, solidão, escolhas? Por que essa mania de se desagradar para agradar?

 Como diz o dr. Drauzio Varella: "Se não quiser adoecer, não viva de aparências. Quem esconde a realidade, finge, faz pose, quer sempre dar a impressão de estar bem, quer mostrar-se perfeito, bonzinho, etc, está acumulando toneladas de peso... uma estátua de bronze, mas com pés de barro. Nada pior para a saúde que viver de aparências e fachadas. São pessoas com muito verniz e pouca raiz. Seu destino é a farmácia, o hospital, a dor"

 Então francamente, cá entre nós, vamos tirar esse peso dos ombros, da vida.
 Você só deve satisfações a quem realmente importa. Aprenda a não expôr suas dores e delícias de graça nem espere entendimento ou retribuição de onde não há.
 Seja leve, diminua as poses e agrade sua alma. Selecione seus afetos e não acumule dívidas com seu interior.
 Esqueça algumas pessoas. Nem todo mundo merece destaque na sua vida e manter todos por perto despende energia demais.
 Não perca tempo tentando entender. Algumas coisas simplesmente não têm explicação.
 Ore por aqueles que ama, entregue seus caminhos a Deus e espere que Ele tome conta. Você não tem controle sobre tudo.
 E acima de tudo, se vale algum conselho, cuide do que é seu.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

Gavetas

 Outro dia ouvi a frase num seriado: "A ignorância é uma benção". Pois há um momento, antes da tempestade chegar, em que ainda é possível desfrutar a inocência de não saber. O doce sabor de ignorar todo caos que se aproxima.

 Antes da "meia noite", antes do pior diagnóstico, antes de conhecer a verdade, antes de ter que lidar com todas as consequências. Você não sabe, mas nuvens estão se formando acima de sua cabeça enquanto você simplesmente ignora.

 A ignorância é uma gaveta fechada cuja chave não possuímos. E determina um período em que você tem que dar graças por estar vivo, em segurança, de alguma forma feliz e em paz. Enquanto não possui as chaves, não precisa lidar com o interior.

 Toda família tem seus segredos. E, no decorrer da vida, descobrimos alguns que talvez preferíssemos  ignorar. É necessário coragem para lidar com a nova realidade_ o que é no lugar do que era_, apesar do desejo de mantê-la guardada, bem fechadinha, num criado-mudo_ e surdo.

 Todo mundo sabe o quão difícil é botar ordem nas gavetas. E nos acomodamos como observadores de nossas vidas, adiando o momento de agir.

 Aquilo que você adia diz muito sobre você. Gavetas transbordando de caos também.

 Porque preferimos ignorar certas verdades, realidades, acontecimentos, fatos. Não correr o risco de encará-las. Esperar (não sei o quê) para depois ter tempo de.

 A verdade liberta e aprisiona. Aprisiona porque nos obriga a encarar a realidade. E a realidade pode ser uma gaveta cheia de tranqueiras, papéis amassados, literatura apagada, lingeries para lavar, roupas que há muito não servem mais, retalhos de um tempo que se esgotou.

 Adiamos nossas arrumações interiores porque é mais fácil ignorar nossas falhas, nossas desordens, nossa inabilidade de lidar com o que quer que seja.
 Conheço gente hábil em arrumações externas e pouco aptas para arranjos internos. Estão abarrotados de velhos sentimentos, medos antigos, amores expirados.
 Vivem reciclando contratos com a dor, com a desilusão, com normas primitivas que estabeleceu para si. Não reveem suas leis, não permitem novos vôos.
 Não dão espaço para que chegue o novo_ É preciso criar espaços...

 Com chaves em mãos, não dá para adiar a faxina, empurrar de volta e fazer caber tudo que já não serve mais. É hora de assumirmos, revelarmos nossas verdades_para nós, para o mundo_ tomar o que é nosso e fazer daquilo que é, o melhor que pudermos.
 Somos co-autores da vida que nos pertence_com todas as boas a más notícias.
 Com sorte, aprendemos a mergulhar. A reparar nossos erros. A levantar depois do tombo. A subir à superfície para respirar. A encontrar novos jeitos de sobreviver.

 A ignorância é uma benção, mas a verdade sempre nos alcança.

 Independente da maneira como você deseja que seja, a existência se encarregará de lhe entregar as chaves. E invariavelmente terá que usá-las _ quer queira ou não.

 E assim, assumir sua vida. Sua vida e ponto final.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES






  

Quando o amor vira Amor


 "Naquele beijo, eu não fazia ideia de como seria nosso futuro juntos... Mas uma certeza eu tinha: eu seria feliz. Muito feliz."

 Quando te conheci, amei-o por suas qualidades_ e confesso que fui um tanto racional escolhendo você.

 Mas qualidade nunca foi sinônimo de facilidade. E esperar que o amor traga só recompensas é transformar aquilo que nasceu para ser nobre em algo banal. Acreditar que será sempre bom é leviano. A importância cresce quando ele resiste às surpresas da esquina, aos tropeços do caminho, ao desconforto rotineiro.

 Só o tempo mostra que amor não cresce com o que é fácil.
 Geralmente é assim: fica um amor _em minúsculo_ sem conteúdo, quando ainda não viveu o suficiente para experimentar toda sorte e contradição que lhe é possível. Pode acreditar: se você tiver paciência de esperar, tudo isso chegará, porque a vida é assim. E se quiser experimentar só a primeira parte, não descobrirá o Amor, assim, em maiúsculo.
 Amamos por algo que não se explica nem traduz, apenas sente_ e isso já é uma definição em si do amor.

 Ou, como disse Drummond:  "Há vários motivos para não amar uma pessoa, e só um para amá-la; este prevalece"

 As dificuldades unem mais que a bonança. E o amor vira Amor quando aprendemos a remar para o mesmo lado, unindo forças, mantendo juntos a vigília, amparados pelas mesmas _e escassas_ respostas.

 Ontem vi em seus olhos úmidos nossa vida refletida, nossos planos concretizados, tudo o que passamos_ de bom e ruim_ nos últimos anos.
 Percebi que as falhas, muito mais que as qualidades, foram fundamentais para nosso aprimoramento. Tenho sido mais feliz desde então.

 Por compreender e explicar a mim mesma que te escolhi pelo coração também, que quando soube que seria feliz, não foi apenas pela segurança que você prometeu me dar e sim pela certeza de que se importaria conosco muito além do meu medo de seguir em frente.

 Que teria paciência de esperar meu amor virar Amor, assim, em maiúsculo.
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES







Sinais

 Se há algo que me irrita de verdade, é estar no trânsito justo atrás de um carro com a seta insistentemente ligada por engano. Você percebe claramente que a pessoa não vai fazer a conversão para lugar algum _ com sorte ela não vira para o lado oposto_ mas a bendita seta fica lá, piscando sem parar por puro esquecimento do motorista desligado.

 Setas nos carros são sinais. Sinais que aprendemos a usar para informar nossas intenções. Mais que isso, uma forma de sermos entendidos, evitarmos acidentes e sermos generosos com as pessoas que dependem disso para transitarem em segurança.

 Quando brincamos com os sinais_ como o motorista que esquece a seta ligada_ ou simplesmente ignoramos a necessidade de emiti-los, confundimos os outros, provocamos acidentes, irritamos pessoas atentas, nos tornamos arrogantes.

 Semelhantes ao motorista irritante, encontramos pessoas mal sinalizadas por aí. E nos confundimos com esses seres que, por inconstância ou inércia, não definem suas reais intenções.

 Já se tornou comum ouvir a frase: "Sou responsável pelo que eu digo, não pelo que você entende".OK, a frase é ótima, mas não justifica infrações_ no trânsito, na vida_ do tipo: "eu-tava-com-a-seta-ligada-o-tempo-todo-só-você-não-viu" porque estar com a seta funcionando 24 horas por dia também não informa absolutamente n-a-d-a... e quando você diz que vai virar para o lado direito, é claro que acredito que uma hora_ um dia_ você certamente convergirá para a direita! Ou será que "consideração" anda demodê?

 Parece que está na moda o mantra "O que você resiste, persiste". E por isso brincamos com os sinais, nos divertimos com a confusão que causamos e assumimos com orgulho o quão antagônicos somos no querer, no demonstrar, no sentir. Maltratar o coração alheio é a chave para mantê-lo pulsando_ angustiado e confuso.
 Tem gente sinalizando que se importa, quando não faz a mínima diferença. Tem gente fingindo que esqueceu, mas no fundo ainda se importa demasiadamente. Tem gente dizendo que ama, quando apenas se acomodou na rotina do amor. Tem amor sufocado fingindo indiferença.

 O que se quer é um sinal vermelho quando o amor acaba ou verde intenso quando ele deseja ficar.
 Para o bem ou para o "mal", há que se ter clareza, definições, pingos nos iis.
 Que se declare sem medo de ferir, pois não saber o que o outro quer quando se quer muito, dói tanto quanto_ até mais.
 Que feche as portas sem ensaiar recaídas, que se defina com ou sem esperanças.
 Que possibilite novos rumos, vôos livres... ou que prenda de uma vez.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES




Insônia


 Depois de um dia barulhento, vivendo do lado de fora e distraindo-se de si mesma, finalmente chega a noite e, com ela, o silêncio. O silêncio necessário para voltar-se para dentro.

 Enquanto as luzes se apagam e todos dormem, ela entende que já  não adianta mudar de posição na cama; a culpa não é do colchão, nem do calor que chega, nem da respiração pausada e lenta a seu lado. Sabe_ por hábito_ que será mais uma noite insone e levanta-se devagar para não despertá-lo.

 Do lado de fora, caminha pelos cômodos. Entra no quarto do filho e aquela paz lhe comove. Senta-se na cama, acaricia-lhe a face, sussurra palavras doces e de repente chora. Chora por culpa, necessidade, constatação. Constatação de que o tempo está levando a infância, deixando fluir a pureza, evaporando a ingenuidade. "O menino está crescendo"... ela pensa, enquanto pensa que amanhã terá mais um dia cheio longe dele, longe da eternidade que a infância representa, como sonho que só se realiza uma vez e perdura na memória pela vida afora. Ela se dói inteira e tem vontade de acordá-lo, abraçá-lo, de jogar mais uma vez aquela partida de vôlei que ainda há pouco ela própria interrompeu com suas manias de regras e rotinas. E se pergunta "pra que?"

 Então beija-o novamente e fecha a porta do quarto cuidadosa. Quer se distrair, mas o domingo está terminando com a meia noite que chega_ enquanto seu interior brinca de inadequação.

 Sente que nada se encaixa, nada faz sentido, tudo é um erro. De madrugada os fantasmas se divertem às suas custas, ela se pune e lembra o que a terapeuta disse na última sessão: " Por que faz isso com você? Por que continua se punindo?" e então corrige a expressão e tenta ser mais dócil e tolerante com suas falhas tão comuns, tão humanas. Olha-se no espelho e tem compaixão pela mulher refletida. Entende seu olhar cansado e tudo o que esse olhar traz. Marcas duras dos últimos anos e situações difíceis dos últimos dias.

 Então de repente gosta dela. Entende suas decisões_ nem sempre certas_ mas possíveis. A perdoa e deseja que seja feliz. Ah, como deseja que seja feliz...

 Mas é tão difícil abandonar velhos padrões!

 Quer, acima de tudo, respeitá-la; para que assim, recupere pelo menos o sono.

 Decide começar de novo. A partir de amanhã não _ é tempo demais. Enxuga as lágrimas com cuidado, serve uma xícara de chá _embora não goste de chá_ mas acredita que é assim que as pessoas sensatas e com amor próprio fazem; acende o abajur da sala e acaricia os pés no tapete. Pela última vez chora para lavar o coração e lubrificar os olhos. Olha as paredes da casa que tanto desejou e agradece por ser feliz, por estar em casa, pelo encontro consigo mesma.

 Promete ser fiel ao seu coração, aprender a desejar, ouvir mais seus instintos_ o que sempre lhe moveu_  sem culpa, sem remorso, só amor.
 Enfim adormece... sabendo que daqui a pouco haverá mais barulho_ o que a distrairá de si mesma novamente...