Oito anos

 Já passa da meia noite e portanto depois de amanhã é seu aniversário de oito anos. Ainda há pouco você veio ao nosso quarto se queixando da falta de sono; me impacientei porque a noite já ia alta, e agora sou eu que permaneço insone.

 Fazem oito anos e passou tão depressa... Sábado você se divertiu ao lado de seus amigos na Caça ao Tesouro. E talvez tenha percebido que a busca é mais prazerosa que o encontro; a satisfação maior ocorre durante o trajeto e reconhecimento das pistas, a expectativa pela surpresa final. Do mesmo modo que outro dia você falou, enquanto construía um brinquedo Lego: "O gostoso é montar, né mamãe?" e percebi que você havia pegado o espírito da coisa. Assim será por toda a vida, meu menino. A busca tem a sua parcela de alegria, e quanto mais nos frustramos nessa jornada, mais valorizamos nosso desejo por aquilo que buscamos. Por isso torna-se tão necessário descobrir o que é importante pra você.
 Uma hora talvez você descubra que os melhores tesouros são os mais difíceis de serem encontrados.
Lembre-se disso quando sentir seu coração bater mais forte por alguém. Preserve-se, não vá com tanta sede ao pote. Caminhe sem pressa e valorize sua essência. Porém, quando chegar a hora, partilhe sua vida e alegre-se por ter chegado ao cume da montanha. Reconhecer suas dádivas é primordial para viver uma vida satisfatória.

 Deixe sua imaginação voar, te levar por caminhos desconhecidos, te refugiar nos momentos difíceis. Mas aprenda a reconhecer suas frustrações, para que descubra quais são seus desejos também. Ainda estou engatinhando nesse terreno, mas devagar venço minhas resistências e quem sabe me torno uma mãe mais leve pra você também...

 Um dia você vai descobrir que adultos não têm tantas convicções quanto parece. Ao contrário, se desejamos evoluir, muitas vezes patinamos nas incertezas de nossos conceitos e verdades, que nunca foram absolutos. Aprendo muito com você, principalmente quando insiste, coisa que nunca fui capaz de fazer. No fundo, no fundo, achava que lidava bem com minhas frustrações mas era só um jeito diferente de negá-las. Sim, meu menino, sou como essas crianças que não podem ter a mochila da moda e, em vez de se entristecerem com a impossibilidade, optam por agir com desdém. Mas leva tempo pra gente descobrir os próprios mecanismos, e estou percebendo isso só agora, junto com os primeiros cabelos brancos e rugas de expressão.
 Você não vai esperar tanto. Pois sabe o que deseja, e luta _ nossa, como luta!_ para conseguir. Mas certamente virão outros mecanismos_ de defesa ou proteção_ que lhe farão seguir por caminhos igualmente difíceis, pra só depois, lá na frente, perceber que poderia ter tomado a estrada mais simples. Mas não liga não, é isso que faz a gente crescer.

 E você está crescendo tão rápido... A gente abre os álbuns e se depara com tanta alegria, tantos momentos bons e inesquecíveis, que só temos que agradecer a Deus pelo presente da sua vida, sua saúde, sua presença cheia de mistérios e vivacidade.

 Faltou tempo para estrearmos o skate, a vida anda tão corrida e as lições da escola triplicaram de um ano pro outro. Assim você irá perceber o tempo. Ele nos engole sem pedir licença, e estabelecer nossas prioridades torna-se fundamental para aquilo que hoje chamamos Qualidade de Vida. Se esforce para dividir bem suas horas, e, acredite em mim, priorize suas relações. É isso o que permanece _ o som das vozes quando as luzes se apagam, o cheiro do perfume conhecido, as mãos que nos cobrem delicadamente ao cair da noite, as viagens onde o sol é mais dourado, a chuva mais divertida, o frio mais acolhedor; a disposição para andar na ponta dos pés enquanto os adultos dormem e a casa é só nossa; as noites do pijama acampando no chão do quarto com os primos; as histórias de terror inventadas por esses mesmos primos na hora de dormir; a simplicidade de nossas rotinas _ essas que um dia serão só lembranças de uma casa com desenhos espalhados pela porta da geladeira e exibições do Pokémon ao meio dia.

 A gente cresce e vive de saudades também. Mas isso pode ser tão penoso... como se somente o que passou tivesse vocação de felicidade. Por isso, não viva de buscar tesouros. Preserve o que é seu para não se frustrar em demasia. Desejar é bom, nos mantém alertas e vivos, mas chega uma hora em que é preciso somente agradecer. Mesmo sem saber rezar, não tenha pudores em dobrar os joelhos e dizer obrigado. Na vida saímos esfolados vezes demais, mas o saldo é sempre positivo. Só tenha paciência de esperar, pois mesmo sendo difícil, há beleza. Mesmo machucando, há prazer. Mesmo frustrando, há satisfação.

 Parabéns pelos oito anos... Amo você, de um jeito que só as mães conseguem sentir e compreender...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES



Atmosferas

 Na minha infância, era popular um programa apresentado por Silvio Santos chamado "Porta da Esperança". Minha avó era espectadora assídua, e de vez em quando me sentava a seu lado para juntas assistirmos ao espetáculo das portas se abrindo e o sonho se concretizando, com direito a música emocionante, choro de alegria, aplausos e muita publicidade. Na sua simplicidade, minha avó sempre dizia que iria escrever ao programa e pedir aos patrocinadores um piano para mim. Eu devia ter oito ou nove anos, fazia aulas de piano, mas secretamente, o que desejava realmente _ no lugar do imponente instrumento _ era uma viagem à Disney.
 Hoje minha avó faz falta, e recordar esses momentos traz de volta um tempo em que a atmosfera da minha vida era outra.

  Atmosferas... Talvez seja isso o que permeia e modela os acontecimentos e memórias, pra melhor ou pior.
 De repente você se apaixona por alguém muito mais pelas circunstâncias que envolveram esse encontro _ as alegrias ou dificuldades que enfrentaram juntos, as viagens que fizeram, as paisagens que visitaram, a música que tocava... _ do que pela pessoa propriamente dita. Por isso acredito que o amor muda dependendo das circunstâncias _ e da paisagem vigente.

 Talvez seja isso, a necessidade de fugir da própria atmosfera, que nos impulsiona a viajar_ pra dentro ou pra fora_ e fantasiar, vivenciando tantas vidas no curto espaço de uma existência.
 É necessário sonhar, reconhecer que nossa realidade pode ser composta de nuances diferentes, nem sempre palpáveis ou nomeáveis, mas que ainda assim nos permitem sobreviver além da história que supomos conhecer ou controlar.

 Vivemos de realidades, mas também de fantasias. Como minha avó, sonhamos com a "Porta da Esperança" ou alguma ilusão que nos roube daquilo que supomos ser nossa vida ou nós mesmos.
 Ainda que alguns sonhos sejam considerados irrelevantes ou até fúteis, fazem parte daquilo que nos constitui e de como encaramos nosso terreno.

 Ao lembrar a menina sentada no sofá, tentando traduzir as imagens da TV à avó quase cega, numa cidade do interior de Minas onde só os muito afortunados viajavam para o exterior, recordei um sonho antigo, porém arraigado em mim, de me desconectar da realidade e viver outras histórias, visitar outros mundos, desvendar antigos mistérios... recriados por atmosferas que traduzissem aquilo que seria impossível no mundo real.
 Contrariando Martha Medeiros, que em seu texto "Casa de Vó" se diz perturbada com adultos que escolhem passar a lua-de-mel na Disney, embarquei nessa aventura, me ofertando essa brincadeira de presente pelos quarenta anos que chegam em abril, junto com os oito de meu menino, que se aproximam esse mês.

 Em meio a jardins coloridos, construções fantásticas e personagens perturbadoramente reais, concluí que o que ainda encanta e faz adultos e crianças desejarem brincar de faz de conta, tendo ao fundo o Castelo de Cinderela, não é o simples fato de voltarem à infância, deslizando em brinquedos que prometem um mundo de sensações. O que encanta e fascina é a possibilidade de recriar-se ou reelaborar-se a partir do sonho que se concretiza na atmosfera lúdica e irreal.
 Eliane Brum, em seu ótimo texto "A realidade da fantasia", nos fala: "A ficção nos ajuda a lidar com nossa realidade mais profunda. E só pode nos ajudar porque é real. Se não fosse, filmes, livros e seriados que marcaram a vida de muitos não teriam sucesso nem ganhariam permanência. Não se trata de entretenimento, algo menor e menos importante, mas de nossa própria carne. Os vampiros da série literária Crepúsculo, ainda que mais palatáveis e limpinhos que seu bisavô imortal, o Drácula de Bram Stoker, só vivem em nós _ ainda que mortos _ porque a relação entre sexo e morte faz parte do que somos e do que nos inquieta no que somos. Engana-se quem pensa que fantasiar é algo incompatível com a vida adulta. Ao contrário. O que fazemos por nossa existência inteira é justamente inventar uma vida. Que sempre será em boa medida uma ficção... Acolher a fantasia no cotidiano pode nos tornar pessoas menos enrijecidas _ ou menos paralisadas_ por medos que não conseguimos nomear."

 Autorizar-se perder o controle e acreditar que tudo é possível é um exercício que nos remete à infância, à época em que o presente era tudo o que tínhamos e conseguir viver esse tempo de forma plena não era assim tão complicado.

 Embora tivesse sonhos de menina, nunca pertenci à turma simpatizante das princesas, fadinhas ou afins. Mas gostava da Alice e suas peripécias num mundo novo e desconhecido, cheio de surpresas e descobertas. Porém, de todas minhas fantasias infantis, a que sempre me encantou e mobilizou _ ou imobilizou_ foi a história do E.T. Imaginar-me como Elliot, o menino que representou toda uma geração de crianças, e deparar-me com o universo que provocava espanto e adoração, seria a materialização de um mundo que só existia nos meus devaneios ou durante a vigília do sono. Reviver a atmosfera de um dos primeiros filmes que assisti no cinema _ na época tinha cerca de oito anos_ foi como experimentá-lo novamente pela primeira vez. Ainda na fila, me emocionei com a floresta escura e o objeto que Elliot cria para entrar em contato com a família E.T. Depois, ao sobrevoar a cidade numa das bicicletas, com a lua cintilante num céu cheio de estrelas, tendo ao lado meu menino cheio de fascínio e medo _ do mesmo modo que fiquei quando tinha a idade dele _ recriei minha fantasia esquecida e reconectei-me com uma parte de mim que ainda consegue voar e se deslumbrar.

  É sobre isso que falo. Atmosferas...  Como transformar um dia comum em um dia mágico _ nem que seja com uma roupa nova, um cabelo arrumado, uma porcelana colorida, uma musica bacana ou luz diferente...
 De permitir-se encantar com os detalhes. De criar climas. De aceitar a fantasia como parte do jogo. De entrar na dança, sem negação ou preconceito, aceitando que ainda temos um pouco de meninos e meninas em nós; que sabem voar, que acreditam em sonhos, ou apenas têm esperança...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES