Livro A Soma de todos os Afetos

 
Com a intenção de ser um cantinho onde pudesse colocar alguns pensamentos soltos, o blog nasceu em 2012. Aos poucos foi se tornando uma segunda casa para mim, e em 2013 chegou ao Facebook, onde pôde alcançar mais leitores, e assim impulsionar minha vontade de escrever mais e melhor.
 

 Nada acontece por acaso, e torcemos para que nossos desejos se alinhem com os acontecimentos que estão reservados para nós. Assim, só posso estar grata ao presente que ganhei neste natal: a publicação de uma coletânea de crônicas do blog. O livro era pra ser só digital, mas no fim acabou saindo na versão impressa também. 
 Infelizmente não foi distribuído às livrarias, mas está à venda num site que agora coloco aqui para vocês. Espero que gostem!!! 

 Grande beijo, cheio de carinho e esperança em um 2016 repleto de luz e realizações,
 Fabíola Simões




 Para adquirir o livro DIGITAL (E-Book):


  

Uma carta especial


  O ano está chegando ao fim, e em meio à correria de preparar a ceia e a casa para festejar o nascimento de Jesus_ é preciso lembrar sempre o motivo desta noite especial_ nos deparamos com o inevitável balanço do ano que passou. Não é todo dia que paramos para refletir, analisar e desejar melhores rumos para quem somos e para o que estamos fazendo com a vida que vivemos.

 Este ano quis me presentear com uma carta a mim mesma. Pode ser que a imprima e guarde para ler daqui a um ano, quando as festas se repetirem e um novo balanço estiver a caminho. Pode ser que eu a revisite sempre que puder, no intuito de tentar ser mais fiel ao que acredito de fato, não fugindo daquilo que hoje considero minha história. E pode ser que seja só mais um exercício de reflexão e percepção da vida que tenho vivido, sem grandes implicações futuras ou objetivos maiores além daqueles que experimento hoje.

 Minha cara amiga,
 Chegamos juntas ao final de mais um ano, e enquanto as luzes da árvore cintilam anunciando que é hora de desacelerar e refletir, acompanho o ritmo frenético com que enfrenta os últimos dias de dezembro. Sim, você tem enfrentado esses dias, e não vivenciado com a magia que a acompanhou por tanto tempo, quando ainda era uma menina e o tempo de Natal significava realmente um tempo de Paz e Luz. Desejo que você reaprenda a ter menos e sentir mais, dando real sentido a cada coisa em seu lugar. Que não sofra coreografando a dança dos dias nem desgaste seu brilho lamentando o que não pode ser mudado. Aproveite o que a vida tem de melhor, que é a companhia das pessoas que lhe querem bem, e  aproveite esse tempo para exercitar sua comunicação afetiva, a capacidade de responder com amabilidade aos que convivem com você. Ficar sozinha é bom, nos protege de um monte de coisas, mas não nos ensina a reconhecer que precisamos uns dos outros, e que dar as mãos é um gesto necessário, que nos sustenta vida afora e ensina a importância de criar laços.

 Vá atrás de seus objetivos e celebre a realização de seus sonhos com a mesma euforia dos que acreditam ser merecedores de dádivas. Você também merece bênçãos, e é preciso estar grata e feliz quando elas acontecem. Faça um brinde à vida toda vez que reconhecer  um milagre e, acredite em mim, eles acontecem a todo momento.

 Tenha sempre em mente seus presentes. A vida não é só boa, e alguns momentos serão difíceis mesmo. Entra ano, sai ano, muito do que é ruim se repete, e a gente tem a péssima tendência de viver perpetuando as lamentações. Não foi um ano fácil para o Brasil, e a instabilidade continua batendo à nossa porta. Mas somos um povo que sabe resistir e se reinventar, basta ver como tudo caminhou no episódio das escolas no estado de São Paulo. E embora não possamos controlar tudo _ a tragédia em Mariana e o Zika vírus são provas disso_ podemos sim pedir a Deus proteção. No momento em que escrevo este texto, estamos parados em um engarrafamento numa estrada rumo a Minas. Não há muito o que fazer, apenas esperar. Fazem mais de trinta minutos e estamos parados no trânsito da Fernão Dias. Algumas coisas serão assim em 2016. E não há remédio senão esperar. Ter paciência com as demoras, tolerância com os percalços, fé num desfecho positivo fazem parte deste pacote que é "aprender a viver".

 Finalmente, alguns conselhos práticos: volte para a ginástica, faça caminhadas pela manhã, aprenda a meditar. Encontre um refúgio dentro de si mesma para não deixar as atribulações vencerem você, e quando o ambiente de trabalho pesar, lembre-se de um dia bom no seu repertório de dias vividos (foram tantos nas últimas férias!). Ore, entregue seus caminhos a Deus e exercite a confiança.
 Não tenha vergonha de amar nem de querer bem, mas acima de tudo, respeite seus limites. 
 E quando a vida demorar, lembre-se do dia de hoje. Já fazem mais de duas horas e o trânsito permanece imóvel. Não há o que fazer, apenas buscar alternativas no que é possível.
 Leia bons livros e se distraia com filmes interessantes. E por mais difícil que pareça em alguns momentos, não desista de escrever. 
 Que venha 2016 e com ele a promessa de dias novos pra gente traçar a história da melhor maneira possível.
 Feliz Natal e seja bem vindo ano novo!!!

Ponto de vista


 Morro de medo de viajar de avião. Ao contrário dos brinquedos radicais dos parques de diversões (que amo!), a realidade de voar de verdade me apavora, e sou daquelas que tremem só de pensar numa turbulência grau 1 (se é que existem graus de turbulência).

 Viajando no último fim de semana, o piloto avisou: "Iremos passar por uma área de turbulência. Mantenham-se sentados e não desatem os cintos". Foi a deixa para eu fechar os olhos, apertar a mão do meu marido e começar a rezar compulsivamente, fazendo até promessa para quando o 'vendaval' passasse.

 Mais à frente, minha tia e minha mãe conversavam. De vez em quando eu arriscava abrir um olho e observava. Não pararam de falar em momento algum, e após a aterrissagem, já em solo firme, comentei: "Vocês viram a turbulência? Que pânico!", ao que elas me responderam: "que turbulência?" e eu, inconformada: "como assim, até o piloto avisou!" e elas rindo muito: "o papo estava tão bom que não vimos nada!" 

 Tudo bem que não foi aquela turbulência, mas parei para pensar que a realidade está na forma como nos relacionamos com ela, ou seja, depende do ponto de vista. Pra mim a realidade era assustadora. Para elas, a mesma realidade foi um momento de colocar o papo em dia. 

 Procurando por turbulências na internet, me deparei com a mesma situação ao ler sobre um relato de um piloto que dizia que passou por uma grande turbulência, em que quebraram-se pratos e copos na cozinha, mas que na realidade só alterou o altímetro em poucos metros. Porém, para os passageiros deste mesmo voo, a sensação deve ter sido muito pior, algo como dizer que o avião despencou mais de 3000 pés em questão de segundos.

 Às vezes damos valor demais às pequenas coisas e não valorizamos o que merece ser reverenciado. Agigantamos nossas miudezas e diminuímos nossos reais tesouros sem nos dar conta de que nosso ponto de vista pode estar comprometido com deturpações da verdadeira realidade.

 Tenho aprendido a olhar a vida sob óticas diferentes. Assim, a expressão "depende do ponto de vista" tem tomado conta de minhas divagações diante dos acontecimentos. Imaginar que podemos escolher decifrar a vida de uma forma mais leve nos coloca num lugar mais confortável, longe das desnecessárias preocupações com as turbulências diárias.

 Escolher passar um voo inteiro colocando a conversa em dia ao invés de me assustar e ficar alerta ao primeiro chacoalhar do avião evita muito desgaste e sofrimento. Algumas coisas simplesmente fogem ao nosso controle, e não importa o quanto a gente se apavore, elas continuarão existindo independente da nossa vontade. Então o negócio é render-se a outro ponto de vista. Quem sabe a gente perceba que existem formas diferentes e menos dolorosas de enfrentar a realidade. Talvez a gente descubra que escolheu o pior jeito, e reconhecer isso pode ser o ponto de partida para a mudança.

 Amanhã tenho outro voo pela frente. Estou escolhendo desde já não me assustar tanto, e lembrar daquelas duas mocinhas _ minha tia e minha mãe_ colocando a conversa em dia sem se dar conta do quanto o avião chacoalhava.

 Que a gente aprenda a escolher o ponto de vista de quem é feliz, aumentando o que deve ficar e diminuindo o que deve partir. Que seja possível encontrar o ponto certo entre a realidade e nossos medos, sem agigantar nossas miudezas nem diminuir nossas riquezas. Que a gente descubra que pra cada acontecimento existem outras alternativas, e que a gente não sofra por imaginar que tudo na vida são turbulências. Que permaneça o que nos faz bem, e que aprendamos a reconhecer o que é essencial.

                                                                                                                       FABÍOLA SIMÕES 

  

   

Ação de Graças


 O Dia de Ação de Graças é um feriado celebrado nos Estados Unidos e no Canadá, observado como um dia de gratidão a Deus, com orações e festas, pelos bons acontecimentos ocorridos durante o ano. O Dia de Ação de Graças é comemorado no outono, após a colheita ter sido recolhida e atualmente é celebrado na última quinta feira de novembro.

 Portanto, hoje é Dia de Ação de Graças. E mesmo que no Brasil não seja uma data muito festejada, não custa nada sair um pouquinho das atribulações do nosso dia e reconhecer os motivos que temos para estar gratos a Deus e à vida que vivemos.

 Mesmo sem saber rezar, podemos exercitar a gratidão. A parte de nós que reconhece que mesmo diante das turbulências, ainda há motivos agradecer e reconhecer os presentes diários.

 Que minha gratidão seja maior que meu ressentimento diante das adversidades. Que meu espírito saiba reconhecer os presentes por trás da rotina, e que na correria do dia a dia eu ainda possa me encantar diante dos pequenos gestos. Que eu esteja grato desde o primeiro espreguiçar da manhã, e que possa entender os desfechos do meu dia com serenidade ao cerrar os olhos. Que o meu semblante carregue não somente o pesar pelos infortúnios diários, mas que encontre motivos para sorrir ao primeiro vestígio de benevolência e paz. Que haja fé, apesar das tempestades. Que haja serenidade, apesar das turbulências. Que haja gentileza, apesar dos tropeços. E que permaneça a gratidão, sempre e em todo lugar.

 O Universo devolve o que recebe. E ao demonstrar gratidão, um recado de amorosidade é enviado. Um reconhecimento pelas colheitas nos campos e em nossas vidas.
 Que nenhuma penumbra impeça nosso espírito de se sentir acolhido e abraçado.

 Talvez a gratidão seja um sentimento que necessita ser exercitado. E praticá-lo requer analisar nossa colheita diária buscando algo que possa ser devolvido com carinho ao Universo. Mesmo um dia puxado, carregado de dúvidas e frustrações tem sua parcela de bençãos. E a gente tem que se esforçar para tirar aquela gotinha de gratidão num mar salgado de inquietação.

 Esta noite não haverá uma ceia onde nos daremos as mãos e agradeceremos juntos as bençãos em nossas vidas. Mas poderemos sim, no silêncio de nosso quarto, lembrar com gratidão o que temos de fato. O teto sobre nossas cabeças, a saúde que nos possibilita estar de pé, nossas amizades, a oportunidade de estudar ou trabalhar, nossa capacidade de amar, os pequenos trunfos que acontecem diariamente, as conquistas que nos fazem sorrir e enchem nosso peito de alegria.

 Nem sempre haverá um circo dentro da gente. A maioria dos dias não tem banda animada nem soldadinhos marchando alegremente. Mas ainda assim, é possível agradecer pelo dom de ter um espírito livre, que nos garante uma boa safra no fim do dia. Dormir em paz, sabendo que nosso rio flui sem grandes desvios, é um milagre. E milagres têm que ser celebrados. Reconhecidos também. Que a gente possa reconhecer nossas dádivas, presentes miúdos que garantem a construção de nossa existência. E que cada dia arrecade a sua porção de fé e gratidão... Amém.

                                                                                                      FABÍOLA SIMÕES

Acerto de contas

 Participo de alguns grupos no whatsapp. Da minha turma de faculdade, da família, das mães das crianças do quarto ano. De vez em quando o celular funciona direitinho e consigo assistir a algum vídeo interessante. Dia desses dei sorte. Um dos vídeos, do Hospital Israelita Albert Einstein, trazia o título: "Os 5 maiores arrependimentos antes de morrer". Nele, alguns depoimentos intercalados com a fala de uma médica geriatra especialista em cuidados paliativos, traduziam o sensação de dar o melhor desfecho possível à vida que se extingue. Um acerto de contas com a própria existência.

 Num dado momento, a médica fala: "Essa é uma das coisas mais bonitas que acontecem no fim da vida. A gente perde a nossa capacidade de fingir". E percebemos que ela tem razão, que em algum instante de nossas vidas _ e esperamos que não seja no fim_ descobrimos que não tem porque ocultar o que temos de bom por dentro. E esse "bom por dentro" pode ser a nossa capacidade de demonstrar afeto.

 O tempo não volta. Por isso torna-se primordial não negar o que de bom existe dentro de nós. E agora me recordo de uma conversa com um grande amigo, colega de faculdade e padre, que contou que estava ajudando um jovem a se recuperar das drogas. O jovem estava preso, e por isso ele foi visitá-lo e levou dois iogurtes. O jovem se considerava uma pessoa má, incapaz de ter um traço de bondade dentro de si. Assim, disse ao padre que não adiantava insistir, ele não se tornaria uma pessoa do bem. Meu amigo não se deu por vencido. Disse que em algum lugar, bem dentro dele ou escondido em algum cantinho, ainda devia haver um traço de bondade. Ele teimou que não. Porém, quando meu amigo decidiu ir embora, percebeu que o jovem pegou um dos iogurtes e deu para seu colega de cela. Meu amigo enfim virou as costas e seguiu seu caminho pensando: "Ainda tem jeito. Olha aí o traço de bondade dentro dele".

 Precisamos acertar as contas com a própria existência. Não deixar para a última hora o que pode transbordar hoje. Romper a barreira de nossas regras e ultrapassar os limites de nossos cárceres. Deixar o que de bom carregamos dentro de nós vir à tona e saber conviver com a parte de nós que pode ser gentil e amorosa.
 Nem sempre é fácil conviver com nossas gentilezas. Ocultamos nosso perfume e mostramos nossos espinhos. E me pergunto: Por que? Talvez porque seja mais fácil endurecer. Ao adquirir rigidez nos modos, nos blindamos também. Resguardamos nossas fragilidades e com ela vai nossa docilidade. E isso torna-se mais evidente com as pessoas que nos são mais caras.

 O jovem que negava sua bondade soube dividir o iogurte com o colega de cela. Sem perceber, foi gentil. Que a gentileza nos pegue desprevenidos também. Que não seja tarde demais quando aprendermos a mostrar quem somos de fato, sem máscaras que disfarcem o quanto somos capazes de amar.

 Que a gente encontre principalmente o amor próprio, descobrindo que temos que nos dedicar à pessoa que somos também, que ela precisa de cuidados tanto quanto às outras, e que se isso não for levado em consideração, haverá mágoas no fim da vida.

 Que o excesso de zelo com nossas emoções não ocultem o que de melhor temos por dentro, e que não deixemos para a última hora a capacidade de deixar de fingir. De fingir que não somos bons, de fingir que não carregamos docilidades, de fingir que não somos melhores do que aparentamos ser...

                                                                                                FABÍOLA SIMÕES 

*Imagem: Via Tumblr

   

      

Entressafra

 Hoje acordei mais cansada que o habitual. Levei o pequeno à aula de inglês e dei uma passadinha na igreja. Minha mãe foi junto e pediu autorização para que eu conversasse com o padre da paróquia. Contei a ele meu desânimo, que vem se arrastando por meses, e ele disse para eu procurar um médico _ "pode ser anemia" _ foram suas palavras, e entendi o que queria dizer.

 Mal estar a gente sente a todo momento, e é comum atribuirmos a culpa por nossos desconfortos rotineiros a fatos que estão fora do nosso alcance. Então um desânimo poderia ser fruto de um ambiente de trabalho "carregado", cheio de inveja e maus espíritos. Dito isso, a causa do mal estar não estaria mais em mim, e sim naquilo que não posso controlar, e portanto, mudar.

 Estou num período de entressafra, e sei que é passageiro. E embora tenha motivos para me comover, como quando ligo a tevê e me deparo com a tragédia em Mariana, também fico sensível ao colocar meu menino pra dormir e imaginar que no dia seguinte ele estará um dia mais próximo da puberdade, num tempo longe das nossas brincadeiras e afagos tão maternais.

 De vez em quando é normal a vida caminhar pesada, carregada de vazios e com uma falta de sentido alarmante. Também acontece do choro irromper as barreiras do bom senso nas horas mais impróprias: o ônibus que não parou, o episódio do "Que Marravilha Chefinhos" em que a garotinha ganhou todas as estrelas, uma música bonita acompanhada de um pôr do sol visto da janela do carro, uma frustração no trabalho, uma indignação na vida.

 Ninguém está livre de maus momentos, e de se sentir caminhando com um peso amarrado nas canelas. Alguns períodos são mais difíceis que outros, e nesse processo de sentir, tolerar e passar por isso com um sorriso no rosto e muita paciência com a própria existência nos faz mudar muito também. Aprendemos a aceitar a inconstância dos dias, o vai e vem da esperança, a entrada involuntária do tédio. Vamos percebendo que já podemos suportar melhor as frustrações, que a falta de ânimo não nos derruba mais, que o cansaço pode ser contornado com algumas horas de sono e muito jogo de cintura.

 Somos os únicos responsáveis por mudar aquilo que vai mal na gente. E por mais tentador que seja atribuir a razão de nossas mazelas a fatos que não temos controle, isso não resolve. O que resolve é aproveitar esse momento para descobrir que parte da estrada você pegou errado, e tentar voltar nesse trecho pra consertar alguma coisa a partir daí.

 Pois na vida não existem atalhos, ou cortar caminho pra chegar mais rápido. A vida cobra cada etapa mal vivida. E pede que você volte três ou doze casas para refazer o que não foi bem feito. Pode ser que você tenha passado por cima de um luto, e agora fica sentindo essa tristeza a conta-gotas e não sabe o que é. Permita-se voltar ao ponto em que a dor doeu mais e recupere a chance de chorar esse choro até o fim.

 Não adie a alegria, mas perdoe-se quando encontrar-se num período de entressafra. Quem disse que ser feliz é ser perfeito? Tudo faz parte de nossa humanidade _ alegria, tristeza, tédio, esperança _ e aprender a tolerar os percalços com serenidade também é sinal de sabedoria.

 Que usemos esse tempo para aprender algo novo: uma oração, a chance de aprender a meditar, a vontade de se exercitar, a coragem de se apaixonar.
 E que dos espinhos surjam marcas de uma pessoa mais amadurecida, que pode florescer em qualquer estação, pois só quem viu seu solo secar pode dar verdadeiro valor à chuva que vai chegar...

                                                                                       FABÍOLA SIMÕES

"Ainda somos os mesmos"


 No feriado de 02 de novembro minha turma de faculdade se reuniu para comemorar nossos vinte anos de formados. Nos três dias de encontro, percebemos o quanto a vida caminhou, cumpriu seu papel fortalecedor, gerou frutos (o número de crianças comprovava isso), trouxe novas dores e muitas responsabilidades. Mas durante aqueles momentos de intensa comemoração, pudemos deixar em casa o excesso de zelo e preocupações e voltar a ser aqueles que modificaram Alfenas há vinte anos.

 Houve uma missa, celebrada por um grande amigo e colega de faculdade que se tornou padre. A celebração foi às margens de um rio, embaixo de um caramanchão. Ali nos demos as mãos e oramos juntos. Já não havia mais espaço para pensar no tempo que separou cada um de nós nesses vinte anos. Éramos de novo os colegas de classe, meninos de pernas de fora que se reuniam nas escadas da biblioteca e tinham sonhos, muitos deles, para quando a vida se cumprisse "de verdade".

 A vida se cumpriu de verdade. E descobrimos que nesta jornada a medida entre os acontecimentos bons e imperfeitos se contrabalanceou o tempo todo, e por mais difícil que tenham sido alguns momentos _ para todos, sem exceção_ estávamos reunidos ali, dando as mãos e agradecendo a Deus na beira de um rio. Nossos filhos estavam presentes para comprovar que a vida é cheia de ciclos, e que a gente pode sim voltar naquele ponto em que éramos tão felizes e livres. Que o bom da vida é essa capacidade de dar uma trégua quando o curso de nosso rio caminha turbulento, e descobrir que ainda somos os mesmos, apesar das ranhuras, faltas e falhas.

 Talvez a amizade seja isso. A capacidade de nos darmos as mãos em que tempo for. A possibilidade de voltarmos a ser quem éramos no instante em que nossas histórias são recontadas de um jeito novo. A vontade de que o tempo não desfaça os laços nem desate os nós. A permanência de quem fomos no olhar de quem nos vê. A construção de um tipo de amor que não se desfaz com o sopro do tempo, mas se recompõe ao primeiro toque de acolhida. A vontade de estar junto, mesmo que isso custe horas de estrada e algum sacrifício.

 Constatar que ainda somos os mesmos, apesar da bagagem adquirida por cada um, nos acalenta e fortalece para prosseguir. Pois descobrimos que amadurecemos, mas ainda conservamos algo em nós que permanece brilhando. Algo que não se perde nem com as ventanias nem com as tempestades. Algo que nos diz que estamos no caminho certo, apesar de vivermos histórias tão distintas.

 É por isso que reencontrar amigos nos faz lembrar. Lembramos quem um dia fomos, lembramos a parte de nós que deixamos numa curva do caminho, lembramos aqueles que desejamos voltar a ser. Talvez saudosismo não seja a palavra exata para nomear esse tipo de sentimento. Acredito que "resgate" defina melhor essa sensação de querer buscar a porção de nós que nos lembra que a vida pode ser decodificada de uma forma mais simples e bonita. A porção de nós que reafirma e recorda que ainda somos os mesmos, apesar do tempo, em que tempo for...

                                                                                        FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Reprodução via Tumblr

OBS: Gente: Não tenho Facebook pessoal. Porém, foram criados dois perfis falsos em meu nome. Um deles tem a minha foto, e está neste link: https://www.facebook.com/profile.php?id=100010429695945 . O outro está no link https://www.facebook.com/unetiks222 e está com meu nome completo e uma foto falsa. Se puderem denunciar, agradeço muito! É só clicar nos 3 pontinhos ao lado do nome e fazer a denúncia. MUITO OBRIGADA!!!



De volta...


 Ontem à noite minha página do Facebook foi devolvida. Estou escrevendo este post porque muita gente ainda tem dúvidas se sou eu mesma que estou postando por lá. Sim gente, sou eu!!!!

 Depois de muitas tentativas e muita burocracia, finalmente estou de volta, feliz por poder tomar conta do cantinho que criei com tanto carinho.

 Porém, os hackers roubaram um dos meus perfis, e estão usando meu nome completo _ Fabíola Simões de Brito Lopes_ para postar imagens falsas, e conteúdo de gosto duvidoso. Quem puder denunciar, por favor vá até a página www.facebook.com/unetiks222 e denuncie como "conta falsa" nos três pontinhos que aparecem ao lado do nome _ desde já agradeço!
 Também criaram um outro perfil, com o nome "Fabíola Lopes" e minha imagem para atrair as pessoas. Porém, não me representa.

 Meu Instagram continua sob domínio dos hackers, espero conseguir recuperar.

 Aos que foram bloqueados no Facebook (por terem me defendido na minha ausência), minha eterna gratidão! Já desbloqueei todos com muito carinho!!!!

 Quinta feira é dia de texto novo, e estarei aqui postando mais uma história sem falar de Facebook, Instagram e hackers, pois como se diz: "esse assunto já deu!"

 Um grande beijo e meus sinceros agradecimentos a todos vocês!
 Fabíola

A porção intacta

 Há um livro que gosto muito que se chama "O ano do pensamento mágico". Ele é o primeiro de uma série de dois livros (o segundo se intitula "Noites azuis"), e conta a história real da autora, Joan Didion, do momento em que subitamente perde o marido _ tomando vinho durante o jantar _ até o ponto em que tem que reorganizar e refazer toda a sua vida sem ele. Paralelo a isso, uma nova etapa tem que ser vencida quando a única filha do casal vem a falecer de uma doença rara e desconhecida.

 O livro é uma pancada de realidade nua e crua, e nos leva a refletir sobre o sentido de continuar vivendo e buscando alternativas quando todo o norte de nossas vidas se vai. Logo no início do livro, as frases iniciais dão o tom exato dessa narrativa: "A vida se transforma rapidamente. A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente".

 A vida se transforma a todo momento. Nossos dias são bagunçados continuamente, e temos que resistir de alguma maneira. Temos que atravessar nossas bagunças diárias para alcançarmos a porção de nós que ainda conserva a calmaria e a paz. A porção de nós que é um rio de águas mansas, apesar de todo barulho do lado de fora. 

 Todos nós, com raras exceções, já passamos por sustos _ pequenos ou grandiosos_ assim. Viradas bruscas no curso de nossas existências que nos abalaram por completo no início, mas que depois nos permitiram reavaliar o chão em que estávamos pisando. 

 Alguns lutos são maiores que outros. Mas ainda assim, existe uma semente, enterrada bem no fundo de nosso cerne, que pode florescer novamente. Essa semente tem voz, e nos fala que somos capazes de encontrar algum resquício de sentido no meio de tantas perdas, dificuldades e falhas.

 Talvez você goste de cantar, talvez prefira pedalar. Pode ser que goste de escrever, ou de alguma forma escolha ler. Talvez você se encontre ajudando alguém, talvez perceba a sorte que tem. 

 Descobrir a porção intacta de nós mesmos leva tempo e algum auto conhecimento. Mas ela está lá, esperando ser explorada, como um estepe para momentos vazios. 
 A porção intacta representa o combustível na hora de virar o jogo. A força por trás de toda dor, capaz de nos levantar de novo. A esperança, nos bastidores da tristeza, capaz de nos impulsionar para outros voos. O desafio de nos tornarmos o melhor que podemos ser com o pouco que restou.

 Enquanto escrevo este texto, penso nas alternativas que tenho depois que minha página no Facebook foi roubada. Entendo que é pouco perante tantos lutos grandiosos, mas a minha porção intacta mantém-se firme, confiante de que não podem me roubar de mim. Ainda que minha propriedade tenha sido roubada, a capacidade de me expressar através da palavra escrita continua comigo. Não há apenas uma porção intacta em mim. Há muitas porções intactas, e é com elas que pretendo seguir em frente, lutando para recuperar o que foi roubado ou começando novamente. Como cantou lindamente Renato Russo: "Podem até maltratar meu coração, que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar..."

 Que a gente descubra que é maior que aquilo que nos faz mal. Que a gente tenha esperança mesmo quando a vida toma um rumo diferente daquele que a gente pensou que pudesse ser o nosso final. Que a gente aprenda que todos temos uma porção intacta, e é através dessa porção que podemos recomeçar de que jeito for. Que a gente não perca a fé, mesmo quando tudo não conspira a nosso favor. Que a gente encontre o cerne de toda alegria e o centro de toda poesia. Que a gente esteja aprendendo continuamente, e resistindo bravamente. E que a gente consiga voar, mesmo quando o mundo parece desabar...

                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

 Obs: Até o fechamento deste post a minha página no Facebook e no Instagram ainda não foram recuperados. Tomem cuidado com links falsos. 

Crimes de internet


 Enquanto escrevo este post aguardo a resolução da invasão da minha conta no Facebook e Instagram por hackers. Por um dia consegui recuperar meu perfil no Facebook, mas a página já tinha sido roubada, e eu fui excluída da administração da mesma.
 Gostaria de contar aqui como tudo ocorreu para alertar as pessoas e os donos de páginas para não caírem no mesmo golpe.
 Minha página tinha 582.000 seguidores quando foi roubada, com um crescimento médio de 2000 seguidores por dia. Meu Instagram tinha 10.600 seguidores.
 No domingo (18/10/2015) recebi uma mensagem inbox com o logotipo do Facebook e um texto em inglês dizendo que eu deveria atualizar meus dados senão a página seria excluída em 24 horas. Meu primeiro erro foi acreditar nisso. O Facebook não exclui as contas assim. A mensagem redirecionava para um link, onde eu caí numa página clonada do Facebook. Nesta página, havia um relatório para eu preencher, e no final pediam a cópia de um documento. Infelizmente, na minha ingenuidade, forneci a foto da minha CNH. De posse desse documento e dos meus dados, roubaram minha conta, alegando que eu era uma fraude, e eles os verdadeiros donos. Tentei alertar as pessoas pelo meu Instagram, deixei 3 mensagens por lá, mas não fiquei atenta ao fato que através do meu perfil do Facebook eles poderiam alterar a senha do Instagram. Então entraram, alteraram meus dados lá dentro, e se apropriaram desta rede social também.
 Nada do que está sendo postado na minha página desde domingo é de minha responsabilidade. Tudo o que estão colocando lá, inclusive um link para meu suposto perfil, é fruto do trabalho dos hackers. Não sei o que eles querem com isso, mas usam meus textos para redirecionarem os seguidores para páginas em branco, que podem ser virais. Por isso peço que ninguém acesse esses links, pois não sou eu que estou tomando conta da página.
 Fiz o boletim de ocorrência e maiores detalhes não posso dar aqui, correndo o risco deles estarem lendo esta postagem.

 Uma notícia boa, e que seria melhor ainda se eu estivesse com o Facebook e Instagram, é que meu livro está praticamente pronto e já foi para impressão. Não terei como divulgar como eu esperava, e como ele não estará nas livrarias, mas apenas num site (Site "Book7"), vou precisar da ajuda "boca a boca" de vocês para alcançar as pessoas. Além do livro impresso (físico), haverá também o livro digital, que será disponibilizado na Amazon, Saraiva, Livraria Cultura, Google books, etc. Conto com vocês e agradeço, de coração, desde já.

 Gostaria de agradecer as inúmeras mensagens de carinho e apoio que tenho recebido desde que a página foi invadida. Muita gente comentou no Facebook, e soube que cada uma dessas pessoas foi bloqueada pela página. Sinto muito por isso, e quando recuperar a página, desbloqueio cada um desses meus amigos virtuais, que fazem muito bem ao meu coração.

 Continuo com o twitter, e quem quiser me seguir por lá é @fabiola_simoes_  . Não sei se farei outra página, tenho medo disso continuar acontecendo. Como dizem por aí, "só o tempo dirá".

 Obrigada a todos pelo carinho e apoio.
 Um grande beijo, Fabíola Simões
                   

Meu facebook foi hackeado

 Estou escrevendo este post num momento muito difícil para mim. Meu facebook acaba de ser hackeado, e estou impossibilitada de postar as mensagens por lá. Além disso, estão postando conteúdo impróprio no meu lugar, e estou extremamente triste e frustrada.
 Resolvi fazer este post para todos que acessam o blog e podem estar se perguntando o que aconteceu com a página, a qual eu tinha enorme carinho. Não consigo nem bloquear minha conta, porque eles mudaram o email de acesso também.
 Peço desculpas a todos que acompanham a página e peço que tenham paciência, pois pretendo voltar assim que conseguir.
 Que Deus me ajude, tenho fé de que tudo se resolverá assim que for possível.
 Obrigada a todos, e se alguém tiver alguma ideia de como reverter isso, por favor entre em contato!
 Grande beijo, com carinho,
 Fabíola

Travessia


 No cinema, assistindo ao filme "A Travessia", meu menino tinha as mãos suadas. O filme, uma história real sobre o francês Philippe Petit, que na década de 70 atravessou de forma ilegal o vão entre as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, usando apenas um cabo e se equilibrando sobre ele, desacomoda e leva à transpiração as almas mais sensíveis. Assistindo ao longa, a sensação que fica é a do medo. Medo pelo que pode acontecer ao protagonista (mesmo sabendo que ele sobrevive), medo pelo que sentiríamos estando na pele dele, medo de altura, medo da morte.

 Isso me fez recordar uma frase do escritor Mia Couto que diz: "Eu tive as minhas mortes. Felizmente, todas elas passageiras". E assim lembramos que a vida é composta de muitos lutos, a maioria deles reversíveis, e só isso deveria bastar para justificar nossa coragem, ou a capacidade de viver sem medo. 

 Apesar de nos resguardar do perigo, o medo nos afasta da vida. Da vida e de suas inúmeras mortes. Da vida e de seus vários renascimentos. O equilibrista desafia o perigo com a certeza de que a morte está perto, mas não irá derrubá-lo. Já os que vacilam perante os desafios da própria existência constroem muros onde podem se refugiar, isolando-se de uma vida nova, muitas vezes melhor. 

 Apesar de adorar montanha russa e de ter pulado de paraquedas há alguns anos, não me considero uma pessoa muito corajosa. Fui criada para desejar uma vida segura, longe do burburinho da corda bamba, recatada em meu mundinho particular. O hábito me fez almejar segurança. Na minha redoma, cultivo minhas leis. Não ouso virar a mesa nem levantar a voz. Não troco o certo pelo duvidoso, prefiro "um pássaro na mão do que dois voando", perdi um pouco da espontaneidade com a idade. Não é motivo para me gabar não. Queria ter uma dose a mais de coragem para me livrar das culpas que me atam as asas e seguir pela corda bamba que me chama. A corda bamba que todos nós possuímos e, quer queira, quer não, temos que atravessar.

 Todos nós possuímos um cabo de aço por onde devemos nos equilibrar e fazer a travessia. Alguns veem lá de cima precipícios enormes, como o vão entre as torres gêmeas. Outros percebem que tiveram medo de cair de uma altura irrisória, que não passava de ilusão causada pelo medo de seguir adiante. Porém, a vida é para quem ousa colocar pé ante pé, devagar ou com pressa, acreditando firmemente que cair não é o fim, pois muitas vezes o chão está a um palmo de distância. 

 Chegar ao fim, mesmo sentindo as pernas fraquejarem, nos dá a certeza de que a fé nos impulsiona a viver melhor. Ter a coragem de romper antigos nós, quebrar velhos tabus, experimentar novos ares e ousar fazer a travessia nos confronta com o amadurecimento, a única forma de crescer _ independente da idade que tivermos. 

 Fazer a travessia é ter coragem de crescer. É experimentar o prazer que vem da descoberta de que vivemos constantes mortes, e que, com sorte, renascemos melhores e mais sábios. Que haja esperança, fé, inspiração divina. Que saibamos o momento de avançar e o de recuar. Que experimentemos cruzar a linha de chegada mais livres e com a consciência de que dando o primeiro passo já somos vencedores.

                                                                                                    FABÍOLA SIMÕES








Você é maior do que você pensa

 Fui uma criança que se achava feia. Uma adolescente que se sentia inadequada. E agora, mais madura, tenho me esforçado para me ver com olhos generosos, que enxergam mais beleza e adequação do que eu poderia atribuir a mim mesma.

 É difícil nos assumirmos por completo. E nessa incompletude, damos mais vazão aos defeitos do que às qualidades.
 Você não é o cabelo escorrido que fica oleoso antes do fim do dia ou os cachos despenteados que só ganham contornos com uma porção de creme melado. Você é mais que as estrias que fizeram morada em suas coxas, e maior que as dobras que insistem em habitar sua cintura. Você é melhor que

Um amor sob medida

 Aos poucos, bem aos poucos, a gente vai entendendo o que nos cabe. Independente da ditadura da moda, vamos descobrindo nosso estilo: clássica, hippie, ousada, desencanada. E vamos conhecendo o corpo que temos, aceitando aquilo que nos foi reservado.
 Mas antes disso erramos muito, erramos feio. Quem nunca se deparou com uma foto antiga, e sorriu ao perceber a inadequação? Eu mesma posso lembrar as vezes em que arrisquei um modelo "tomara que caia" num corpo desprovido de estrutura, e mais parecia um menino usando a roupa da irmã num desfile de carnaval.

 Uma roupa que cai bem é como uma relacionamento que dá certo. As peças combinam, há correspondência mútua, existe reciprocidade.

 O contrário, porém, é o

Dúvida

 Sábado meu filho tem uma festinha para ir, e no convite veio a sugestão: "traga roupa de banho para a piscina". No mesmo instante, minha cabeça se encheu de dúvidas: mesmo sabendo nadar, não será perigoso? A piscina é funda? Haverá adultos tomando conta? Porém, todas as dúvidas foram dissipadas quando a mãe da aniversariante informou que a piscina é rasa e haverá dois monitores tomando conta. Respirei aliviada, mas passei meus temores para meu menino, que àquela altura decidiu que não queria mais ir. Tentei convencê-lo do contrário: será um momento bom entre seus amigos, uma maneira de interagir fora do ambiente escolar, uma tarde gostosa... e finalmente ele aceitou. Porém, quando ele finalmente concordou, a dúvida retornou pra dentro de mim, trazendo junto o medo característico das mães que querem seus filhos bem perto de suas asas.

 Quando duvidamos, permitimos que o medo se entreponha entre nós e

"O problema não é crescer, mas esquecer..."

 Tomei a frase-título emprestada do filme "O Pequeno Príncipe" _ a nova animação, dirigida por Mark Osbourne faz uma emocionante releitura do clássico de Saint-Exupéry e nos abraça com a história de amizade entre o aviador e uma menina, pra quem ele conta a história do principezinho, repleta de ensinamentos em forma de poesia.

 É para a menina que o aviador fala: "O problema não é crescer, mas esquecer". E entendemos que ele tem razão, ao constatarmos que o amadurecimento impõe despedidas, e nesse processo muitas vezes esquecemos quem fomos e os vínculos que construímos no decorrer do caminho. Como o principezinho, cativamos e fomos cativados ao longo da vida, mas muitas vezes preferimos esquecer para poder crescer.

 No último fim de semana, comemorando

A vida programada

 Há quase dez anos, quando fiquei grávida, arquitetei o roteiro todo. Pesquisando em livros ou na internet, descobri que o bebê precisava de rotina, e estabeleci toda a programação para que nossas vidas seguissem o rumo certo.
 Eu não imaginava que teria surpresas, não só por ter um bebê em casa, mas porque a vida surpreende mesmo.

 Meu filho, como era de se esperar, não seguiu o script. Ao contrário, teve refluxo e passava dias e noites acordado, procurando algum tipo de conforto. Descobri que meu leite e eu éramos o conforto dele, e então desenvolvemos uma espécie de simbiose durante a qual, por algum tempo, perdi a noção de quem eu era de fato.

 Assim, de forma definitiva, aprendi que não é possível estabelecer um roteiro para nossas vidas, e que a busca por um lugar seguro é apenas uma necessidade que temos de achar que controlamos alguma coisa.

 Na época do vestibular, eu estudava muito e gostava de ler e escrever. Tinha o desejo genuíno de ser

Tente outra vez

 Seu Vitório, o jardineiro do meu condomínio, tem os olhos bondosos que denunciam uma alma nobre. É simples, de gestos contidos e fala humilde. Aparenta estar próximo dos setenta anos, e trabalha com uma resignação rara. Hoje pela manhã, diante da ventania que arrastava folhas secas por todo canto, mexi com ele: "o vento tá te dando trabalho, hein seu Vitório! Vai tirar as folhas hoje e amanhã estarão todas aí de novo?", ao que ele respondeu: "Tenho que tirar. Ontem tinha deixado tudo limpinho, e olha como está hoje. A gente não pode parar..."

 Ele continuou seu trabalho, eu segui meu caminho. Mas fui pensando no gesto de seu Vitório. Todos os dias, sob o sol forte ou chuva fina, ele trabalha cuidando de nossos jardins. Todos os dias, com ou sem ventania, remove as folhas secas do gramado e de nossas garagens. Sabe que terá que repetir _ o vento é uma criatura persistente _ mas não desanima enquanto refaz o serviço diariamente.

 Talvez ele se ressinta de trabalhar em vão. Talvez _ e eu torço para isso _ ele perceba que

Café com amor

 No Centro de Saúde onde trabalho, as pessoas começaram a sentir diferença no gosto do café. Antes ele vinha rançoso, azedo, mal passado, mal digerido. Com as férias da funcionária responsável pelo café, ele passou a vir gostoso, no ponto certo entre forte e não tão forte, quentinho, saboroso.
 Conversando na cozinha sobre o novo sabor do cafezinho de todas as tardes, alguém cogitou a hipótese: "o café dela é ruim porque faz com raiva".

 Embora haja controvérsias, há razão nisso. Porque não há café coado no mundo que carregue sabor se não houver amor. 

 As coisas aspiram uma existência afetuosa, e somos os responsáveis por deixar o mundo com mais amor.

 É comum dizermos que algo "não desce". Aquele café não desce, aquela pessoa não desce, aquela comida não desce, aquele trabalho não desce. Talvez o ingrediente sobressalente em tudo isso seja a raiva. Talvez falte amor. O amor que vem

Se o tempo voltasse

 Existe um ditado que diz: "O que não tem remédio, remediado está". Essa frase serve tanto pra gente se conformar com a realidade (que nem sempre é a que desejamos) quanto para entendermos que o tempo não volta, que o que aconteceu não deixará de acontecer, e que arrependimentos ajudam a construir uma existência mais certeira daqui pra frente.

 Alguns acontecimentos nos colocam em xeque mate, e enquanto puxamos o freio de mão da vida que corre acelerada, é possível que questionemos o destino final com o descuido próprio dos viajantes sem direção.

 De vez em quando revemos nossas vidas e paramos para pensar nas escolhas que fizemos até o momento. Fica sempre a pergunta: Se o tempo voltasse, eu faria outras escolhas? Teria tomado outro caminho? Ou será que "não somos donos, mas simples convidados"? _ Como disse Mia Couto?

 Será que os desfechos de nossas histórias almejam um destino pré traçado, ou são escritos conforme

Fugidinhas

 De vez em quando escapo da atmosfera da minha própria vida. Fujo sorrateira para tempos onde já estive ou ouso inventar. De vez em quando sumo da minha realidade para viver outros mundos.

 Parece loucura, mas faz parte do processo de existir permitir que fantasias se somem à nossa realidade como parte do que somos também. Talvez isso nos torne pessoas menos enrijecidas, mais suaves e felizes.

 Alguns dias são mais puxados que outros. Aquela segunda feira, que desperta amarga e confirma que a semana não trará ventos de simplicidade, também pode ser invadida, se você permitir, por pensamentos soltos, sonhos de felicidade, desejos de superficialidade.

 Eu preciso pensar no oceano azul esverdeado das últimas férias enquanto instrumento o canal atrésico do meu paciente _ é a única forma de não perder o bom humor diante da árdua tarefa que tenho à minha frente.

 Também gosto de saber da fofoca envolvendo Ben Affeck, a babá e Tom Brady; porque,

Quem tem medo de seus fantasmas?

 Outro dia, numa rede social, li a frase do jornalista Carlos Heitor Cony:
"Tenho meus fantasmas, e os amo. 
 Não quero destruí-los. 
 No dia em que me tirarem os fantasmas, não serei nada" 

 Não pude deixar de pensar naquilo que indiretamente atua para que sejamos quem somos. Nas vidas não vividas que se somam dentro de nós, nas frustrações, desejos e desistências que também fazem parte de nossa realidade.

 De vez em quando somos obrigados a nos render. A abraçar nossos fantasmas e encará-los olhos nos olhos com compaixão, permitindo que permaneçam dentro de nós. Sem medo de que nos roubem a alegria, mas aceitando-os como parte do todo também.

 Somos a soma das alegrias que vivenciamos e das

Carta à introspectiva que me habita

 Hoje eu queria falar com você. Sim, você que me olha por trás da porta e prefere a luz do abajur ao lustre da sala de jantar. Você, que coleciona leituras e grifa livros pra revisitá-los quando bem desejar. Você, que queria ser notada na adolescência mas sentia-se mais inadequada que capaz. Você, que é o oposto daquela que ousou escrever alguns textos num blog; aquela que hoje divulga mais da sua vida do que você seria capaz de aguentar. Você, que de noite sai de seu esconderijo e vem me (se) recriminar por andar tão íntima da vida.

 Sabe, gosto do seu jeito. Entendo sua necessidade de reclusão e quietude. Seu anseio por fechar-se em seu mundo, onde arquiteta a vida e organiza os sonhos. Mas de vez em quando você se pune demais. Engasga na frente de um conhecido que vem lhe dizer que gostou da última postagem e tenta se desculpar por ser tão cara-de-pau, capaz de inventar enredos numa rede social.

 Temos que nos respeitar mais. Sim, nós duas. Nossa convivência já teve períodos bons, como quando

A vida não é original

 Cansado, depois de cinco dias de praia e muita novidade, meu menino dorme enquanto leio García Márquez na varanda com vista para o mar.
 "Cem anos de Solidão" já foi traduzido em trinta e seis idiomas, e suas vendas chegavam a 50 milhões de exemplares em 2007.
 Assim, penso eu, talvez neste mesmo terraço onde me debruço sobre a inacreditável história dos Buendía, uma outra mulher, com cabelos igualmente salgados pela maresia, também poderá ter lido, em que idioma for, a longa saga de amor, poder e solidão; sentindo na pele a mesma "melancolia de pôr do sol" com que um dia foi definido Gabo.

 A vida não é original, já disse Martha Medeiros. Ela se repete de inúmeras formas, em inúmeras situações e lugares distintos.

 O mesmo tipo de amor, aquele que

Estar lá

 Numa época distante, eu achava que "prova de amor" era um termo usado para definir grandes feitos, como ajoelhar-se no meio da rua na madrugada ou encomendar uma faixa com declarações de amor copiadas de versos do Vinícius. De fato vivi algumas situações parecidas na adolescência e guardo com carinho esses momentos de pura paixonite juvenil.

 Mas o tempo passa. Ah... como passa... E muito mais que esperar provas de amor intempestivas, descobrimos que amor de fato é estar lá.

 Esta semana teria que fazer um exame de saúde e durante o preparo passei muito mal.

De onde vem a calma

 Minhas férias vem chegando e ando um turbilhão por dentro. Não pela proximidade de meus dias de paz, mas pelo acúmulo de obrigações e malabarismos que junho trouxe.

 É meu filho quem me lembra que preciso me acalmar. Com suas mãozinhas subindo e descendo à frente do corpo, repete seu mantra num sussurro: "Acaaalma... acaaalma..." e paro o que estou fazendo num impulso rápido, para prestar atenção à minha respiração e finalmente me acalmar _ inspirando e falando devagar; expirando e dizendo as palavras um tom mais baixo; inspirando e agindo como uma criatura normal.

 É comum sentir-me culpada depois de agir apressadamente, prestando atenção a tudo e nada ao mesmo tempo. A sensação que vem depois é a

A Alegria e a Tristeza em DivertidaMente

 Obs: Esse texto contém SPOILERS

 Na época em que eu fazia terapia, um dos grandes trunfos de minha terapeuta foi me ensinar a nomear os sentimentos. Ao contrário do que havia aprendido em minha criação católica, descobri que era possível _ e saudável _ sentir raiva, tristeza e medo. Esses sentimentos eram tão importantes e legítimos quanto à alegria, doçura e encantamento perante a vida.

 Sábado percebi, ao lado do marido e do menino de nove anos que aos poucos deixa suas ilhas da infância para trás, que minha terapeuta tinha razão.

 No cinema, assistindo à mais nova animação da Disney Pixar _ Divertida Mente _ recordamos o quanto crescer pode ser doloroso, ainda que seja

Tempo de vagarezas

 No shopping, uma daquelas campanhas pelo Dia dos Namorados trocava cupons fiscais por bônus que davam direito de concorrer ao sorteio de quatro carros.

 Os dias correram e já não me lembrava mais do assunto quando sou abordada por meu menino, anunciando eufórico a chegada do dia 15 de junho. Perguntei o que ele queria dizer com isso e, do alto de seus nove anos, me lembrou o dia do sorteio.

 Sorri sem jeito, enquanto seus olhinhos, carregados de expectativa infantil, traziam o brilho da esperança por um momento especial, um 'divisor de águas em sua infância'.

 Já se passaram três dias, e ficou claro que não ganhamos o carro. Mas me flagrei pensando nas pequenas alegrias que assolam nossos dias, fragmentos de uma felicidade que se intercalam com dificuldades e desafios cotidianos.

 Se ganhássemos o sorteio, é claro que viriam sorrisos, abraços vitoriosos e uma série de anedotas que construiríamos a partir disso_ "estava escrito...; lembra do jovem que trocou a sua senha com a gente?; era pra ser..." É claro que a alegria seria real e intensa. Porém,

Nem uma música

 Tentei pensar numa única música que me lembrasse você, mas descobri que a trilha sonora de nossa vida é vasta demais _ das melodias do Palavra Cantada para crianças às batidas de David Guetta pra fase de corridas; da trilha de Saltimbancos a Coldplay, da canção de abertura de Pokémon ao pop rock dos anos 90.

 Também não temos um único longa, como os casais costumam ter. Gostaria de dizer que adoramos clássicos em preto e branco, ou que "Birdman" não sai do nosso DVD; mas a verdade é que nossas sessões de cinema ficaram reduzidas às animações da Disney Pixar, e a tevê lá de casa tem predileção por seriados com gente perdida em uma ilha. Gostamos de "O segredo de seus olhos" e nos divertimos com "Lisbela e o Prisioneiro", mas o que seria de nós sem os travesseiros que compartilhamos no tapete da sala ou das pipocas que se perderam nos vãos do sofá?  

 O amor é isso: um amontoado de afinidades que

Farinhas do mesmo saco

 Outro dia, um amigo de longa data se referiu a mim e a uma amiga em comum como "farinhas do mesmo saco". E ri da expressão, orgulhosa de ser o mesmo tipo de pessoa que minha amiga.

 Dizem que os opostos se atraem. Talvez porque eu busque no outro o que me falta, ou aquilo que desejo revelar, mas só ele consegue exteriorizar.

 Porém, em se tratando de amizades, felicidade é ser farinha do mesmo saco, do tipo que engrossa o mesmo caldo ou dá consistência ao fermento que fomenta a vida.

 Quero ser farinha do mesmo saco de quem mora longe, mas se faz sempre perto, e não deixa a saudade distanciar. De quem cuida da amizade com vontade de estar presente, sem correr o risco de que o tempo apazigue a memória do que sempre queremos lembrar;

 Desejo ser farinha do mesmo saco de quem não tem medo de ser imperfeito, e trata com carinho seus deslizes, compreendendo que nossas incompletudes são partes do mesmo saco também;

 Sou farinha do mesmo saco de quem compartilhou um tempo bom, e fez da trilha sonora e cinematográfica de sua vida parte da minha também, eternizando "Grease", os clássicos de Woody Allen, "Moon River"Legião e "Go Back" _ na versão linda com Fito Paez;

 Sou farinha do mesmo saco de quem me viu modificar com a idade, e transformou-se comigo, superando as dificuldades do caminho e prosseguindo lado a lado, compreendendo que ainda que os roteiros sejam distintos, permanece aquela linha invisível ligando os mundos;


O Sal da Terra


 Um pouco atrasada, assisti ao documentário "O Sal da Terra", dirigido pelo alemão Win Wenders, sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. No trailer, a frase_"Um fotógrafo é alguém que desenha com luz. Um homem que escreve e reescreve o mundo com luzes e sombras"_ antecipa o que o documentário quer captar: a sensibilidade ímpar do fotógrafo, que enxerga e decifra o todo conforme sua visão e sentimento do mundo.

 Mais adiante ele diz: "Se você colocar vários fotógrafos num mesmo lugar, todos farão fotos muito diferentes, cada um desenvolve sua forma de ver de acordo com sua história".

 E concluímos, junto a Salgado e Wenders, que nossa bagagem é muito mais vasta que

Uma vida sem notificações



 Mentira falar que não ligo pras redes sociais. Mentira afirmar que não melhoraram a comunicação, facilitaram a rotina, aproximaram mundos distantes. Mentira dizer que não gosto de divulgar meus textos no Facebook e ganhar uns coraçõezinhos vermelhos no Instagram. Insano fazer você acreditar que não me importo com o whatsapp, ou que fico meses sem checar as conversas do grupo de mães da escola do meu filho e ex-colegas da faculdade.

 Mas então lembro que a vida já foi mais simples. Lembro que na minha infância _ a minha e a de todos que nasceram pelos idos de 1980,1990 e com certeza antes disso _ havia os muros e calçadas; as tias, empregadas e patroas _ de bobes no cabelo e havaianas nos pés_ cheias de conversa fiada enquanto olhavam os meninos; havia o pedido de receita caseira; a anotação do remédio infalível pra coceira; a troca de confidências e indiscrições rotineiras; o falatório comum da vida alheia.




 Antes do Google Search, do Google tradutor, do Google earth, do Dr. Google... a gente tinha com quem contar. O fulano que sabia curar dor no joelho, a beltrana que sabia fazer criança parar de chorar, a benzedeira que tirava mau olhado, o doutor que respondia qualquer tratado. Mas então veio

"O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora"

 Adoro a prosa poética de Mia Couto. Entre tantos livros, tenho preferência por meu primeiro exemplar: "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra". Revisito suas passagens e me aprofundo em suas reflexões carregadas de sensibilidade e poesia. Uma delas, em particular, me atrai: "O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora".

 Alguns lugares permanecem vivos dentro da gente, independente do tempo em que vivemos neles. Sobrevivem ao tempo, às despedidas e desistências, às necessidades de se seguir em frente, ao desapego. Resistem como alicerces tão firmes quanto foram as lembranças, e mesmo sendo objetos, perduram repletos de memórias.

 Não morei naquela casa, mas durante algum tempo foi o lar de meus pais. Antes do bilhete de despedida, era lá que passávamos os finais de semana, entre pães de queijo do sul de Minas e conversas na varanda, enquanto meu filho e sobrinho experimentavam as primeiras brincadeiras.
 Era uma casa grande, centenária, tombada pelo patrimônio histórico, com janelões do tamanho de portas, e altura do teto a perder de vista. Uma casa bonita do interior que se destacava na descida da Matriz em direção à praça do coreto.

 Ainda me lembro da última noite.

O que você vai ser quando o seu filho crescer?

"O que você vai ser quando o seu filho crescer?"  Você já parou para pensar nisso?

 Confesso que de vez em quando tento responder a essa pergunta, como se a noção de ninho vazio viesse assombrar antes mesmo de ocorrer; e é difícil constatar a brevidade de nosso tempo na história de nossos pequenos.

 Amamos e vivemos tanto em função de nossas crias que mal nos lembramos de que forma eram nossas vidas antes deles existirem.
 Assisti a este vídeo através da página do blog "Macetes de mãe" e me emocionei. Por constatar que temos muitas respostas na ponta da língua, mas às vezes faltam-nos palavras ao imaginar a sequência de nossas vidas a partir da independência _ almejada _ de nossos filhos. Porém, mais do que nós, eles têm a resposta.

 Não importa o tempo, seremos para sempre MÃES...






As mãos de minha mãe

 O tempo insiste em ser verdadeiro no dorso das mãos. O rosto despista, atenua os anos corridos com corretivos simples e semblante suave, mas as pregas das mãos denunciam o tempo dos ganhos e das perdas, dos dias vividos e irremediavelmente vencidos.

 O tecido que recobre suas mãos conta os anos de magistério com o giz em punho, a sensação de sentir-se segura no entrelaçamento de dedos com meu pai, o tempo de gerar e criar, o sol diário na despreocupação com o protetor solar, o carinho ao cair da noite, a firmeza ao volante, os gestos exagerados durante as costumeiras piadas, os movimentos contidos na desavença, o calor na menopausa, o frio na tristeza, o suor na espera, a suavidade resignada na prece e recomeço.

 Sabe mãe, carrego alguma nostalgia da época em que suas mãos eram lisas e uniformes. Mas é no hoje, porém, que aprendi a respeitar o significado do desenho das veias que saltam através do tecido fino, e das manchas salpicadas como gotas de tinta decorando a fina estampa de sua superfície. Trazem mais história que ambição, exemplo de uma vida de coragem e superação.

 Observo seu rosto mas a sinto em suas mãos. Sei que carregam o tempo e a vivência, o que deixou pra trás e o que tem guardado dentro de si. E admiro os sulcos que traduzem o amadurecimento e o olhar reciclado perante a vida; a sabedoria de entender-se completa, ainda que lhe faltem pedaços.

Déjà vu

 "Suponhamos que o tempo seja um círculo fechado sobre si mesmo. O mundo se repete, de forma precisa, infinitamente. Na maior parte dos casos, as pessoas não sabem que voltarão a viver suas vidas. Comerciantes não sabem que voltarão a fazer o mesmo negócio várias vezes. Políticos não sabem que gritarão na mesma tribuna um número infinito de vezes nos ciclos do tempo...

... No mundo em que o tempo é um círculo, cada aperto de mão, cada beijo, cada nascimento, cada palavra serão precisamente repetidos. Também o serão todos os momentos em que dois amigos deixarem de ser amigos, toda vez que uma família se dividir por causa de dinheiro, toda frase maldosa em uma discussão entre cônjuges, toda oportunidade negada por causa da inveja, toda promessa não cumprida. 
 E, assim como todas as coisas serão repetidas no futuro, todas as coisas que estão acontecendo agora aconteceram um milhão de vezes antes..."

 O trecho acima, extraído do livro "Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, é um dos muitos que me encantaram enquanto lia as 103 páginas cheias de reflexões, filosofia e descobertas acerca do tempo.

 Aprendemos desde muito cedo a medir a passagem do tempo através dos ponteiros do relógio. E não importa se parece que correram horas durante a expectativa por aquele encontro, ou durou um segundo o tempo daquela festa. Estamos sempre presos a consciência do tempo mecânico, ao que ele representa, ao que ele conta.
 Mesmo assim, qualquer um já experimentou a sensação de não ter visto o tempo passar estando ao lado do grande amor, ou de ter sentido a eternidade se aproximar durante o período daquela ausência.


"Alguma coisa acontece no meu coração..."


 Não me lembro a primeira vez que ouvi "Sampa", mas a memória insiste em trazer de volta uma noite em Alfenas, quando "Pan- Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba mais possível novo quilombo de Zumbi" foi recitada, sem deslizes, nos meus ouvidos por um dos colegas da faculdade, e embora nunca tenha cruzado a Ipiranga com a Avenida São João, o último feriado me trouxe a Paulista, com sua arquitetura e cultura, seus encantos e recantos.

 Enquanto Bernardo tem provas sobre a origem da cidade de São Paulo, e me ensina o papel dos jesuítas na fundação do Colégio São Paulo de Piratininga, constato admirada que embora meu filho tenha raízes mineiras, é no estado de São Paulo que ele cresce, aprende, se desenvolve e me ajuda a conhecer a história do lugar que acolheu não só a mim, mas também meus dois irmãos e por último minha mãe.

 Tenho preguiça de trânsito em feriado. Por isso, no fim de semana estendido com o dia de Tiradentes embarcamos para Sampa _ pertinho, cheia de novidades, cultura, arte, livrarias, restaurantes, hotel... casa do meu irmão e rua da minha avó.

 Sentada no chão da livraria Cultura, ao lado de meus dois meninos, cada qual com seu livro, deixei as lágrimas rolarem enquanto um texto, aberto despretensiosamente, me arrebatava e comovia. O livro foi fisgado ao acaso, mas de repente me fez perceber que minhas folhas há tempos não trazem espaços em branco; ao contrário, hoje carrego mais bagagem que linhas por escrever.

 A gente se esquece em que ponto de nós mesmos deixamos de ser um tanto do que éramos para adquirir os modos de quem nos tornamos.


Possibilidades

 Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio que partiu esta semana, escreveu certa vez:  "Cada mundo contém muitos outros mundos possíveis. Neste mundo, há outro mundo possível".

 Gosto de pensar que somos possibilidades que se concretizaram. Reais, mas ainda assim, possibilidades. Dentro de cada mundo, muitos outros mundos possíveis.

 Todos os dias, ao acordar, o local onde espreguiçamos diz muito sobre as escolhas que fizemos até o momento. Minha cama está embaixo de um teto que escolhi como abrigo, numa cidade que me acolheu para viver e trabalhar. Meu marido é alguém que cruzou o meu caminho e por uma série de razões escolhi para me acompanhar. Nosso filho é parte desta escolha, a melhor possibilidade que poderia ter me ocorrido.

 Tudo o que nos cerca um dia foi uma possibilidade. Alguns eventos poderiam ter sido evitados, outros não. Sobre o que não dependeu de nossa escolha, surgem diversas outras possibilidades _ que também podem ser encaradas como respostas.

 Talvez seja essa a maior possibilidade que temos: aprender a responder aos eventos, escolhidos ou não, da melhor maneira possível. Aprender a fazer malabarismo com o mundo que se apresenta possível à nossa frente, tentando extrair dele o melhor desfecho que pudermos.

 A liberdade de responder aos eventos é a maior possibilidade que temos. É o que faz nosso mundo possível ser bom ou ruim, independente das possibilidades inseridas nele.


Nove anos

 Nunca soube de fato quando foi que aprendi a assobiar. O momento em que meus lábios fizeram a curva exata, formando o arco por onde passaria o ar.
 Talvez você vá se esquecer também _ esses singelos trunfos se perdem pelo caminho _ mas agora, na última semana que antecede seus nove anos, o som de seu recente assobio acusa o tempo da simplicidade, os vestígios de uma época que valoriza os pequenos gestos, o encontro com as alegrias miúdas, muitas vezes esquecidas no decorrer da jornada.

 Seu aniversário chegou hoje, me lembrando as horas daquele dia, há nove anos. Eu não sabia, mas descobriria mais tarde que a vida também é feita de assobios, arquitetura de gravetos, aviões de papel e histórias fantásticas ao cair da noite.
 Hoje, o que me move é estar consciente desses momentos, pois são vapores, e o embaçado do tempo deforma as certezas enquanto rapidamente crescemos.

"Que o amor nos salve da vida..."


 Esta semana recebi o email de uma leitora, brasileira residente em Dallas, contando sua história. Me pediu um texto. Embora não costuma fazer textos sob encomenda, algo me despertou, e recordei a frase atribuída ao poeta e escritor Pablo Neruda (na realidade a frase é de Javier Velaza), que diz:  "Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida"... 

 Pois a vida é uma experiência dura, muitas vezes confusa, incompreensível e incerta; e reconhecer um abrigo no meio de tanta inquietude é acolher o tempo da clareza, em que tudo passa a ser suprido de sentido.

"A gente só enxerga o que já está preparado para ver"


Peguei a frase-título emprestada do escritor Bernardo Carvalho porque hoje tive uma grata surpresa. Descobri, da melhor maneira que eu poderia imaginar, que ainda há fome de poesia e afeto, de gratidão e gentilezas.

 De vez em quando a gente só consegue enxergar aquilo que está escrito em letras garrafais. Relutamos em aceitar as entrelinhas das despedidas, do mesmo modo que demoramos para acatar a irrefutável verdade de que carregamos dons, temos potencial para sermos amados, e somos melhores do que imaginamos.

A primeira prova

 Uma das frases mais marcantes em "Boyhood" foi aquela, dita pela mãe, quase no final do filme: "Eu só achei que haveria mais".
 Sempre achamos que haverá mais. E constatamos admirados, dia após dia, que sempre há. Porém, nunca do mesmo jeito. Apesar de não nos surpreendermos de imediato, chega uma manhã em que nos formamos na faculdade; um dia em que corremos pra maternidade; uma noite em que os filhos crescem; uma hora em que a gente envelhece.

 Hoje meu filho está fazendo sua primeira prova na escola, e mais cedo apontei seu lápis desejando que saiba lidar com o que virá depois. Depois de descobrir que algumas coisas a gente não pode mudar, mesmo que recorra à borracha insistentemente. Depois de perceber que uma hora ou outra vai duvidar de si mesmo, julgando-se pequeno ou incapaz de prosseguir. Depois de descobrir que pode recomeçar, e que existem inúmeros jeitos diferentes de tentar e arriscar.

Números

 Outro dia, relendo "O Pequeno Príncipe" para meu menino, estacionei numa passagem.

 Assim dizia: "As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: 'Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que preferem? Será que ele coleciona borboletas?' Mas perguntam: 'Qual a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?' Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dissermos às pessoas grandes: 'Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...' elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: 'Vi uma casa de seiscentos contos'. Então elas exclamam: 'Que beleza!'"