O que aprendi com Anne Frank

 Vinte e sete anos. Foi essa distância que separou o tempo em que li "O Diário de Anne Frank" pela primeira vez _ aos treze anos _ e agora, em que releio com olhos amadurecidos e maior vivência do mundo. Naquela época eu também escrevia um diário e, a exemplo de Anne, apelidei-o de "Kitty". Porém, ainda não tinha vivido o suficiente para entender acerca das impossibilidades da vida humana e de que forma precisamos viver para que a existência adquira algum sentido.

 Para quem não conhece a história, o livro é a edição definitiva do diário da menina Anne Frank no período de 1942 a 1944, época em que tinha de treze a quinze anos de idade. No contexto do nazismo e da guerra, Anne, confinada no que chamou de "Anexo Secreto", experimenta e exterioriza, através da escrita, todos os sentimentos e conflitos inerentes à adolescência, que se tornam mais agudos e intensos por estarem, assim como ela, confinados e destinados a uma existência enclausurada, fugindo do terror da Segunda Guerra Mundial.

Júlia

 Há pouco mais de um ano escrevi um texto dando boas vindas à Laura, sua prima, que nascia numa manhã ensolarada como essa, trazendo a noção de que a nova geração de mulheres da família será sempre comparada a raios de sol.

 Depois do trabalho, com o qual revezo escrevendo este texto, irei conhecê-la e abraçar bem forte seu irmãozinho, que ainda cedo me ligou para contar que você lhe deu três novos 'gormits', monstrinhos que ele aprendeu a colecionar com o primo Bernardo, filho dessa tia que hoje lhe escreve. Ele ainda é muito novo para compreender, mas ter irmãos é sentir-se abraçado à distancia, acarinhado em pensamento, entendido na ausência.

 Como você irá perceber, somos uma grande família, irmãos, tios e primos que se querem bem e por vezes se desentendem com ou sem razão, mas acima de tudo com um carinho sem fim. Passamos por alegrias, vitórias e alguns revezes, mas aprendemos que quando deixamos as defesas serem rompidas, a gente consegue se ajudar mais.

 Por enquanto você se sentirá bem protegida e aninhada no braço forte de seu pai e na maciez do colo de sua mãe. Com o tempo, porém, aprenderá a dar os próprios passos, e mesmo com eles na retaguarda, descobrirá que é capaz de cair e se levantar, chorar e sorrir, machucar e se recuperar. Talvez sinta mais os tombos que os recomeços, e eu torço para que não endureça com excesso de zelo ou preocupações. Nessa vida a gente se blinda de diversas maneiras, mas aprender a afrouxar as defesas também nos torna pessoas mais leves e felizes.

 Pode ser que nada disso que eu escrevo faça sentido, seu espírito pode ser leve e descontraído como o de seu irmão, o menino que conta piadas ao telefone e sabe de cor o nome das amigas de sua avó. Do alto de seus cinco anos ele me ensina a não levar a vida tão a 'ferro e fogo', diminuindo a rigidez dos ombros e aumentando a curva dos lábios. Ser mãe é uma dádiva, mas ser tia é um privilégio.

 Como já disse à Laura, o que faz cada um ter uma boa vida é aprender a resistir com serenidade e fé. Porque por mais que a gente seja forte, alguns momentos nos desestabilizam por completo. E é nessas horas que você terá que se empenhar em resistir e suportar, descobrindo que possui dons e talentos que nem sabiam que existiam, mas que podem aflorar lindamente nas horas mais difíceis e necessárias. Talvez você goste de culinária, talvez se aperfeiçoe no ballet. Quem sabe goste de música, por acaso se arrisque no xadrez. Mas também pode ser que se inspire nos 'santos de casa' e pedale como seu pai; vibre com o tênis como sua mãe; cante e ore como vó Clau; corte, pinte e cole como vó Inês; experimente alguns pincéis como tio Léo, comece um diário como tia Fá. Não importam os meios, o importante é que encontre um meio, uma forma de existir que a faça realizada e feliz.

 Por fim, não se esqueça: as pessoas que nos querem bem por vezes nos ferem também. Machucam sem querer machucar, arrancam lágrimas sem querer arrancar. E isso muitas vezes está relacionado mais à vida delas que às nossas. E a gente vai ter que compreender, mesmo preferindo de outro jeito. Isso é amor também, sabe? Saber aceitar a vida do outro, que interfere tanto na vida da gente, mas que ainda assim, é outra vida. Cada um tem uma história, e ainda que muitos capítulos estejam entrelaçados de forma definitiva, cada pessoa carrega em si não somente aquilo que sai dos olhos ou da boca, mas muitas outras coisas que jamais conseguiremos supôr por completo.

 Sendo assim Júlia, se ainda posso dar-lhe um conselho, aprenda a perdoar. Não somente aos outros, mas principalmente a si mesma. Não há ganho nenhum em reter arrependimentos ou culpa, mas procurar a reparação é essencial para se viver em paz. Perdoe, aceite, ame. Descubra o presente lindo que é a vida e tente trilhar sua história com coerência e autenticidade. Não perca a fé, ore, agradeça e recorra a Deus quando precisar. Porém, se ainda assim precisar de uma palavra amiga, conte sempre comigo.
 Tias têm a vantagem de não ter tanta censura quanto às mães, e podem ser boas ouvintes e conselheiras de vida e coração.

 Porém, lembre-se que podemos lhe ajudar nessa jornada, mas os pés que irão trilhar o caminho são só seus.
 Seja feliz!
 Bem vinda à vida!
 Com amor,
   
                                                                                                                         tia FABÍOLA SIMÕES

Créditos da imagem: Elena Shumilova