Déjà vu

 "Suponhamos que o tempo seja um círculo fechado sobre si mesmo. O mundo se repete, de forma precisa, infinitamente. Na maior parte dos casos, as pessoas não sabem que voltarão a viver suas vidas. Comerciantes não sabem que voltarão a fazer o mesmo negócio várias vezes. Políticos não sabem que gritarão na mesma tribuna um número infinito de vezes nos ciclos do tempo...

... No mundo em que o tempo é um círculo, cada aperto de mão, cada beijo, cada nascimento, cada palavra serão precisamente repetidos. Também o serão todos os momentos em que dois amigos deixarem de ser amigos, toda vez que uma família se dividir por causa de dinheiro, toda frase maldosa em uma discussão entre cônjuges, toda oportunidade negada por causa da inveja, toda promessa não cumprida. 
 E, assim como todas as coisas serão repetidas no futuro, todas as coisas que estão acontecendo agora aconteceram um milhão de vezes antes..."

 O trecho acima, extraído do livro "Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, é um dos muitos que me encantaram enquanto lia as 103 páginas cheias de reflexões, filosofia e descobertas acerca do tempo.

 Aprendemos desde muito cedo a medir a passagem do tempo através dos ponteiros do relógio. E não importa se parece que correram horas durante a expectativa por aquele encontro, ou durou um segundo o tempo daquela festa. Estamos sempre presos a consciência do tempo mecânico, ao que ele representa, ao que ele conta.
 Mesmo assim, qualquer um já experimentou a sensação de não ter visto o tempo passar estando ao lado do grande amor, ou de ter sentido a eternidade se aproximar durante o período daquela ausência.


"Alguma coisa acontece no meu coração..."


 Não me lembro a primeira vez que ouvi "Sampa", mas a memória insiste em trazer de volta uma noite em Alfenas, quando "Pan- Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba mais possível novo quilombo de Zumbi" foi recitada, sem deslizes, nos meus ouvidos por um dos colegas da faculdade, e embora nunca tenha cruzado a Ipiranga com a Avenida São João, o último feriado me trouxe a Paulista, com sua arquitetura e cultura, seus encantos e recantos.

 Enquanto Bernardo tem provas sobre a origem da cidade de São Paulo, e me ensina o papel dos jesuítas na fundação do Colégio São Paulo de Piratininga, constato admirada que embora meu filho tenha raízes mineiras, é no estado de São Paulo que ele cresce, aprende, se desenvolve e me ajuda a conhecer a história do lugar que acolheu não só a mim, mas também meus dois irmãos e por último minha mãe.

 Tenho preguiça de trânsito em feriado. Por isso, no fim de semana estendido com o dia de Tiradentes embarcamos para Sampa _ pertinho, cheia de novidades, cultura, arte, livrarias, restaurantes, hotel... casa do meu irmão e rua da minha avó.

 Sentada no chão da livraria Cultura, ao lado de meus dois meninos, cada qual com seu livro, deixei as lágrimas rolarem enquanto um texto, aberto despretensiosamente, me arrebatava e comovia. O livro foi fisgado ao acaso, mas de repente me fez perceber que minhas folhas há tempos não trazem espaços em branco; ao contrário, hoje carrego mais bagagem que linhas por escrever.

 A gente se esquece em que ponto de nós mesmos deixamos de ser um tanto do que éramos para adquirir os modos de quem nos tornamos.


Possibilidades

 Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio que partiu esta semana, escreveu certa vez:  "Cada mundo contém muitos outros mundos possíveis. Neste mundo, há outro mundo possível".

 Gosto de pensar que somos possibilidades que se concretizaram. Reais, mas ainda assim, possibilidades. Dentro de cada mundo, muitos outros mundos possíveis.

 Todos os dias, ao acordar, o local onde espreguiçamos diz muito sobre as escolhas que fizemos até o momento. Minha cama está embaixo de um teto que escolhi como abrigo, numa cidade que me acolheu para viver e trabalhar. Meu marido é alguém que cruzou o meu caminho e por uma série de razões escolhi para me acompanhar. Nosso filho é parte desta escolha, a melhor possibilidade que poderia ter me ocorrido.

 Tudo o que nos cerca um dia foi uma possibilidade. Alguns eventos poderiam ter sido evitados, outros não. Sobre o que não dependeu de nossa escolha, surgem diversas outras possibilidades _ que também podem ser encaradas como respostas.

 Talvez seja essa a maior possibilidade que temos: aprender a responder aos eventos, escolhidos ou não, da melhor maneira possível. Aprender a fazer malabarismo com o mundo que se apresenta possível à nossa frente, tentando extrair dele o melhor desfecho que pudermos.

 A liberdade de responder aos eventos é a maior possibilidade que temos. É o que faz nosso mundo possível ser bom ou ruim, independente das possibilidades inseridas nele.