O Sal da Terra


 Um pouco atrasada, assisti ao documentário "O Sal da Terra", dirigido pelo alemão Win Wenders, sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. No trailer, a frase_"Um fotógrafo é alguém que desenha com luz. Um homem que escreve e reescreve o mundo com luzes e sombras"_ antecipa o que o documentário quer captar: a sensibilidade ímpar do fotógrafo, que enxerga e decifra o todo conforme sua visão e sentimento do mundo.

 Mais adiante ele diz: "Se você colocar vários fotógrafos num mesmo lugar, todos farão fotos muito diferentes, cada um desenvolve sua forma de ver de acordo com sua história".

 E concluímos, junto a Salgado e Wenders, que nossa bagagem é muito mais vasta que

Uma vida sem notificações



 Mentira falar que não ligo pras redes sociais. Mentira afirmar que não melhoraram a comunicação, facilitaram a rotina, aproximaram mundos distantes. Mentira dizer que não gosto de divulgar meus textos no Facebook e ganhar uns coraçõezinhos vermelhos no Instagram. Insano fazer você acreditar que não me importo com o whatsapp, ou que fico meses sem checar as conversas do grupo de mães da escola do meu filho e ex-colegas da faculdade.

 Mas então lembro que a vida já foi mais simples. Lembro que na minha infância _ a minha e a de todos que nasceram pelos idos de 1980,1990 e com certeza antes disso _ havia os muros e calçadas; as tias, empregadas e patroas _ de bobes no cabelo e havaianas nos pés_ cheias de conversa fiada enquanto olhavam os meninos; havia o pedido de receita caseira; a anotação do remédio infalível pra coceira; a troca de confidências e indiscrições rotineiras; o falatório comum da vida alheia.




 Antes do Google Search, do Google tradutor, do Google earth, do Dr. Google... a gente tinha com quem contar. O fulano que sabia curar dor no joelho, a beltrana que sabia fazer criança parar de chorar, a benzedeira que tirava mau olhado, o doutor que respondia qualquer tratado. Mas então veio

"O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora"

 Adoro a prosa poética de Mia Couto. Entre tantos livros, tenho preferência por meu primeiro exemplar: "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra". Revisito suas passagens e me aprofundo em suas reflexões carregadas de sensibilidade e poesia. Uma delas, em particular, me atrai: "O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora".

 Alguns lugares permanecem vivos dentro da gente, independente do tempo em que vivemos neles. Sobrevivem ao tempo, às despedidas e desistências, às necessidades de se seguir em frente, ao desapego. Resistem como alicerces tão firmes quanto foram as lembranças, e mesmo sendo objetos, perduram repletos de memórias.

 Não morei naquela casa, mas durante algum tempo foi o lar de meus pais. Antes do bilhete de despedida, era lá que passávamos os finais de semana, entre pães de queijo do sul de Minas e conversas na varanda, enquanto meu filho e sobrinho experimentavam as primeiras brincadeiras.
 Era uma casa grande, centenária, tombada pelo patrimônio histórico, com janelões do tamanho de portas, e altura do teto a perder de vista. Uma casa bonita do interior que se destacava na descida da Matriz em direção à praça do coreto.

 Ainda me lembro da última noite.

O que você vai ser quando o seu filho crescer?

"O que você vai ser quando o seu filho crescer?"  Você já parou para pensar nisso?

 Confesso que de vez em quando tento responder a essa pergunta, como se a noção de ninho vazio viesse assombrar antes mesmo de ocorrer; e é difícil constatar a brevidade de nosso tempo na história de nossos pequenos.

 Amamos e vivemos tanto em função de nossas crias que mal nos lembramos de que forma eram nossas vidas antes deles existirem.
 Assisti a este vídeo através da página do blog "Macetes de mãe" e me emocionei. Por constatar que temos muitas respostas na ponta da língua, mas às vezes faltam-nos palavras ao imaginar a sequência de nossas vidas a partir da independência _ almejada _ de nossos filhos. Porém, mais do que nós, eles têm a resposta.

 Não importa o tempo, seremos para sempre MÃES...






As mãos de minha mãe

 O tempo insiste em ser verdadeiro no dorso das mãos. O rosto despista, atenua os anos corridos com corretivos simples e semblante suave, mas as pregas das mãos denunciam o tempo dos ganhos e das perdas, dos dias vividos e irremediavelmente vencidos.

 O tecido que recobre suas mãos conta os anos de magistério com o giz em punho, a sensação de sentir-se segura no entrelaçamento de dedos com meu pai, o tempo de gerar e criar, o sol diário na despreocupação com o protetor solar, o carinho ao cair da noite, a firmeza ao volante, os gestos exagerados durante as costumeiras piadas, os movimentos contidos na desavença, o calor na menopausa, o frio na tristeza, o suor na espera, a suavidade resignada na prece e recomeço.

 Sabe mãe, carrego alguma nostalgia da época em que suas mãos eram lisas e uniformes. Mas é no hoje, porém, que aprendi a respeitar o significado do desenho das veias que saltam através do tecido fino, e das manchas salpicadas como gotas de tinta decorando a fina estampa de sua superfície. Trazem mais história que ambição, exemplo de uma vida de coragem e superação.

 Observo seu rosto mas a sinto em suas mãos. Sei que carregam o tempo e a vivência, o que deixou pra trás e o que tem guardado dentro de si. E admiro os sulcos que traduzem o amadurecimento e o olhar reciclado perante a vida; a sabedoria de entender-se completa, ainda que lhe faltem pedaços.