Carta à introspectiva que me habita

 Hoje eu queria falar com você. Sim, você que me olha por trás da porta e prefere a luz do abajur ao lustre da sala de jantar. Você, que coleciona leituras e grifa livros pra revisitá-los quando bem desejar. Você, que queria ser notada na adolescência mas sentia-se mais inadequada que capaz. Você, que é o oposto daquela que ousou escrever alguns textos num blog; aquela que hoje divulga mais da sua vida do que você seria capaz de aguentar. Você, que de noite sai de seu esconderijo e vem me (se) recriminar por andar tão íntima da vida.

 Sabe, gosto do seu jeito. Entendo sua necessidade de reclusão e quietude. Seu anseio por fechar-se em seu mundo, onde arquiteta a vida e organiza os sonhos. Mas de vez em quando você se pune demais. Engasga na frente de um conhecido que vem lhe dizer que gostou da última postagem e tenta se desculpar por ser tão cara-de-pau, capaz de inventar enredos numa rede social.

 Temos que nos respeitar mais. Sim, nós duas. Nossa convivência já teve períodos bons, como quando

A vida não é original

 Cansado, depois de cinco dias de praia e muita novidade, meu menino dorme enquanto leio García Márquez na varanda com vista para o mar.
 "Cem anos de Solidão" já foi traduzido em trinta e seis idiomas, e suas vendas chegavam a 50 milhões de exemplares em 2007.
 Assim, penso eu, talvez neste mesmo terraço onde me debruço sobre a inacreditável história dos Buendía, uma outra mulher, com cabelos igualmente salgados pela maresia, também poderá ter lido, em que idioma for, a longa saga de amor, poder e solidão; sentindo na pele a mesma "melancolia de pôr do sol" com que um dia foi definido Gabo.

 A vida não é original, já disse Martha Medeiros. Ela se repete de inúmeras formas, em inúmeras situações e lugares distintos.

 O mesmo tipo de amor, aquele que

Estar lá

 Numa época distante, eu achava que "prova de amor" era um termo usado para definir grandes feitos, como ajoelhar-se no meio da rua na madrugada ou encomendar uma faixa com declarações de amor copiadas de versos do Vinícius. De fato vivi algumas situações parecidas na adolescência e guardo com carinho esses momentos de pura paixonite juvenil.

 Mas o tempo passa. Ah... como passa... E muito mais que esperar provas de amor intempestivas, descobrimos que amor de fato é estar lá.

 Esta semana teria que fazer um exame de saúde e durante o preparo passei muito mal.

De onde vem a calma

 Minhas férias vem chegando e ando um turbilhão por dentro. Não pela proximidade de meus dias de paz, mas pelo acúmulo de obrigações e malabarismos que junho trouxe.

 É meu filho quem me lembra que preciso me acalmar. Com suas mãozinhas subindo e descendo à frente do corpo, repete seu mantra num sussurro: "Acaaalma... acaaalma..." e paro o que estou fazendo num impulso rápido, para prestar atenção à minha respiração e finalmente me acalmar _ inspirando e falando devagar; expirando e dizendo as palavras um tom mais baixo; inspirando e agindo como uma criatura normal.

 É comum sentir-me culpada depois de agir apressadamente, prestando atenção a tudo e nada ao mesmo tempo. A sensação que vem depois é a