A porção intacta

 Há um livro que gosto muito que se chama "O ano do pensamento mágico". Ele é o primeiro de uma série de dois livros (o segundo se intitula "Noites azuis"), e conta a história real da autora, Joan Didion, do momento em que subitamente perde o marido _ tomando vinho durante o jantar _ até o ponto em que tem que reorganizar e refazer toda a sua vida sem ele. Paralelo a isso, uma nova etapa tem que ser vencida quando a única filha do casal vem a falecer de uma doença rara e desconhecida.

 O livro é uma pancada de realidade nua e crua, e nos leva a refletir sobre o sentido de continuar vivendo e buscando alternativas quando todo o norte de nossas vidas se vai. Logo no início do livro, as frases iniciais dão o tom exato dessa narrativa: "A vida se transforma rapidamente. A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente".

 A vida se transforma a todo momento. Nossos dias são bagunçados continuamente, e temos que resistir de alguma maneira. Temos que atravessar nossas bagunças diárias para alcançarmos a porção de nós que ainda conserva a calmaria e a paz. A porção de nós que é um rio de águas mansas, apesar de todo barulho do lado de fora. 

 Todos nós, com raras exceções, já passamos por sustos _ pequenos ou grandiosos_ assim. Viradas bruscas no curso de nossas existências que nos abalaram por completo no início, mas que depois nos permitiram reavaliar o chão em que estávamos pisando. 

 Alguns lutos são maiores que outros. Mas ainda assim, existe uma semente, enterrada bem no fundo de nosso cerne, que pode florescer novamente. Essa semente tem voz, e nos fala que somos capazes de encontrar algum resquício de sentido no meio de tantas perdas, dificuldades e falhas.

 Talvez você goste de cantar, talvez prefira pedalar. Pode ser que goste de escrever, ou de alguma forma escolha ler. Talvez você se encontre ajudando alguém, talvez perceba a sorte que tem. 

 Descobrir a porção intacta de nós mesmos leva tempo e algum auto conhecimento. Mas ela está lá, esperando ser explorada, como um estepe para momentos vazios. 
 A porção intacta representa o combustível na hora de virar o jogo. A força por trás de toda dor, capaz de nos levantar de novo. A esperança, nos bastidores da tristeza, capaz de nos impulsionar para outros voos. O desafio de nos tornarmos o melhor que podemos ser com o pouco que restou.

 Enquanto escrevo este texto, penso nas alternativas que tenho depois que minha página no Facebook foi roubada. Entendo que é pouco perante tantos lutos grandiosos, mas a minha porção intacta mantém-se firme, confiante de que não podem me roubar de mim. Ainda que minha propriedade tenha sido roubada, a capacidade de me expressar através da palavra escrita continua comigo. Não há apenas uma porção intacta em mim. Há muitas porções intactas, e é com elas que pretendo seguir em frente, lutando para recuperar o que foi roubado ou começando novamente. Como cantou lindamente Renato Russo: "Podem até maltratar meu coração, que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar..."

 Que a gente descubra que é maior que aquilo que nos faz mal. Que a gente tenha esperança mesmo quando a vida toma um rumo diferente daquele que a gente pensou que pudesse ser o nosso final. Que a gente aprenda que todos temos uma porção intacta, e é através dessa porção que podemos recomeçar de que jeito for. Que a gente não perca a fé, mesmo quando tudo não conspira a nosso favor. Que a gente encontre o cerne de toda alegria e o centro de toda poesia. Que a gente esteja aprendendo continuamente, e resistindo bravamente. E que a gente consiga voar, mesmo quando o mundo parece desabar...

                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

 Obs: Até o fechamento deste post a minha página no Facebook e no Instagram ainda não foram recuperados. Tomem cuidado com links falsos. 

Crimes de internet


 Enquanto escrevo este post aguardo a resolução da invasão da minha conta no Facebook e Instagram por hackers. Por um dia consegui recuperar meu perfil no Facebook, mas a página já tinha sido roubada, e eu fui excluída da administração da mesma.
 Gostaria de contar aqui como tudo ocorreu para alertar as pessoas e os donos de páginas para não caírem no mesmo golpe.
 Minha página tinha 582.000 seguidores quando foi roubada, com um crescimento médio de 2000 seguidores por dia. Meu Instagram tinha 10.600 seguidores.
 No domingo (18/10/2015) recebi uma mensagem inbox com o logotipo do Facebook e um texto em inglês dizendo que eu deveria atualizar meus dados senão a página seria excluída em 24 horas. Meu primeiro erro foi acreditar nisso. O Facebook não exclui as contas assim. A mensagem redirecionava para um link, onde eu caí numa página clonada do Facebook. Nesta página, havia um relatório para eu preencher, e no final pediam a cópia de um documento. Infelizmente, na minha ingenuidade, forneci a foto da minha CNH. De posse desse documento e dos meus dados, roubaram minha conta, alegando que eu era uma fraude, e eles os verdadeiros donos. Tentei alertar as pessoas pelo meu Instagram, deixei 3 mensagens por lá, mas não fiquei atenta ao fato que através do meu perfil do Facebook eles poderiam alterar a senha do Instagram. Então entraram, alteraram meus dados lá dentro, e se apropriaram desta rede social também.
 Nada do que está sendo postado na minha página desde domingo é de minha responsabilidade. Tudo o que estão colocando lá, inclusive um link para meu suposto perfil, é fruto do trabalho dos hackers. Não sei o que eles querem com isso, mas usam meus textos para redirecionarem os seguidores para páginas em branco, que podem ser virais. Por isso peço que ninguém acesse esses links, pois não sou eu que estou tomando conta da página.
 Fiz o boletim de ocorrência e maiores detalhes não posso dar aqui, correndo o risco deles estarem lendo esta postagem.

 Uma notícia boa, e que seria melhor ainda se eu estivesse com o Facebook e Instagram, é que meu livro está praticamente pronto e já foi para impressão. Não terei como divulgar como eu esperava, e como ele não estará nas livrarias, mas apenas num site (Site "Book7"), vou precisar da ajuda "boca a boca" de vocês para alcançar as pessoas. Além do livro impresso (físico), haverá também o livro digital, que será disponibilizado na Amazon, Saraiva, Livraria Cultura, Google books, etc. Conto com vocês e agradeço, de coração, desde já.

 Gostaria de agradecer as inúmeras mensagens de carinho e apoio que tenho recebido desde que a página foi invadida. Muita gente comentou no Facebook, e soube que cada uma dessas pessoas foi bloqueada pela página. Sinto muito por isso, e quando recuperar a página, desbloqueio cada um desses meus amigos virtuais, que fazem muito bem ao meu coração.

 Continuo com o twitter, e quem quiser me seguir por lá é @fabiola_simoes_  . Não sei se farei outra página, tenho medo disso continuar acontecendo. Como dizem por aí, "só o tempo dirá".

 Obrigada a todos pelo carinho e apoio.
 Um grande beijo, Fabíola Simões
                   

Meu facebook foi hackeado

 Estou escrevendo este post num momento muito difícil para mim. Meu facebook acaba de ser hackeado, e estou impossibilitada de postar as mensagens por lá. Além disso, estão postando conteúdo impróprio no meu lugar, e estou extremamente triste e frustrada.
 Resolvi fazer este post para todos que acessam o blog e podem estar se perguntando o que aconteceu com a página, a qual eu tinha enorme carinho. Não consigo nem bloquear minha conta, porque eles mudaram o email de acesso também.
 Peço desculpas a todos que acompanham a página e peço que tenham paciência, pois pretendo voltar assim que conseguir.
 Que Deus me ajude, tenho fé de que tudo se resolverá assim que for possível.
 Obrigada a todos, e se alguém tiver alguma ideia de como reverter isso, por favor entre em contato!
 Grande beijo, com carinho,
 Fabíola

Travessia


 No cinema, assistindo ao filme "A Travessia", meu menino tinha as mãos suadas. O filme, uma história real sobre o francês Philippe Petit, que na década de 70 atravessou de forma ilegal o vão entre as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, usando apenas um cabo e se equilibrando sobre ele, desacomoda e leva à transpiração as almas mais sensíveis. Assistindo ao longa, a sensação que fica é a do medo. Medo pelo que pode acontecer ao protagonista (mesmo sabendo que ele sobrevive), medo pelo que sentiríamos estando na pele dele, medo de altura, medo da morte.

 Isso me fez recordar uma frase do escritor Mia Couto que diz: "Eu tive as minhas mortes. Felizmente, todas elas passageiras". E assim lembramos que a vida é composta de muitos lutos, a maioria deles reversíveis, e só isso deveria bastar para justificar nossa coragem, ou a capacidade de viver sem medo. 

 Apesar de nos resguardar do perigo, o medo nos afasta da vida. Da vida e de suas inúmeras mortes. Da vida e de seus vários renascimentos. O equilibrista desafia o perigo com a certeza de que a morte está perto, mas não irá derrubá-lo. Já os que vacilam perante os desafios da própria existência constroem muros onde podem se refugiar, isolando-se de uma vida nova, muitas vezes melhor. 

 Apesar de adorar montanha russa e de ter pulado de paraquedas há alguns anos, não me considero uma pessoa muito corajosa. Fui criada para desejar uma vida segura, longe do burburinho da corda bamba, recatada em meu mundinho particular. O hábito me fez almejar segurança. Na minha redoma, cultivo minhas leis. Não ouso virar a mesa nem levantar a voz. Não troco o certo pelo duvidoso, prefiro "um pássaro na mão do que dois voando", perdi um pouco da espontaneidade com a idade. Não é motivo para me gabar não. Queria ter uma dose a mais de coragem para me livrar das culpas que me atam as asas e seguir pela corda bamba que me chama. A corda bamba que todos nós possuímos e, quer queira, quer não, temos que atravessar.

 Todos nós possuímos um cabo de aço por onde devemos nos equilibrar e fazer a travessia. Alguns veem lá de cima precipícios enormes, como o vão entre as torres gêmeas. Outros percebem que tiveram medo de cair de uma altura irrisória, que não passava de ilusão causada pelo medo de seguir adiante. Porém, a vida é para quem ousa colocar pé ante pé, devagar ou com pressa, acreditando firmemente que cair não é o fim, pois muitas vezes o chão está a um palmo de distância. 

 Chegar ao fim, mesmo sentindo as pernas fraquejarem, nos dá a certeza de que a fé nos impulsiona a viver melhor. Ter a coragem de romper antigos nós, quebrar velhos tabus, experimentar novos ares e ousar fazer a travessia nos confronta com o amadurecimento, a única forma de crescer _ independente da idade que tivermos. 

 Fazer a travessia é ter coragem de crescer. É experimentar o prazer que vem da descoberta de que vivemos constantes mortes, e que, com sorte, renascemos melhores e mais sábios. Que haja esperança, fé, inspiração divina. Que saibamos o momento de avançar e o de recuar. Que experimentemos cruzar a linha de chegada mais livres e com a consciência de que dando o primeiro passo já somos vencedores.

                                                                                                    FABÍOLA SIMÕES








Você é maior do que você pensa

 Fui uma criança que se achava feia. Uma adolescente que se sentia inadequada. E agora, mais madura, tenho me esforçado para me ver com olhos generosos, que enxergam mais beleza e adequação do que eu poderia atribuir a mim mesma.

 É difícil nos assumirmos por completo. E nessa incompletude, damos mais vazão aos defeitos do que às qualidades.
 Você não é o cabelo escorrido que fica oleoso antes do fim do dia ou os cachos despenteados que só ganham contornos com uma porção de creme melado. Você é mais que as estrias que fizeram morada em suas coxas, e maior que as dobras que insistem em habitar sua cintura. Você é melhor que

Um amor sob medida

 Aos poucos, bem aos poucos, a gente vai entendendo o que nos cabe. Independente da ditadura da moda, vamos descobrindo nosso estilo: clássica, hippie, ousada, desencanada. E vamos conhecendo o corpo que temos, aceitando aquilo que nos foi reservado.
 Mas antes disso erramos muito, erramos feio. Quem nunca se deparou com uma foto antiga, e sorriu ao perceber a inadequação? Eu mesma posso lembrar as vezes em que arrisquei um modelo "tomara que caia" num corpo desprovido de estrutura, e mais parecia um menino usando a roupa da irmã num desfile de carnaval.

 Uma roupa que cai bem é como uma relacionamento que dá certo. As peças combinam, há correspondência mútua, existe reciprocidade.

 O contrário, porém, é o