"Ninguém é forte sozinho"



 Ontem fui ao cinema assistir ao ótimo "O quarto de Jack" (Room) e saí de lá comovida e com a certeza de que ninguém é forte sozinho. O filme, indicado ao Oscar 2016, conta a história de Joy (Brie Larson) e Jack (Jacob Tremblay), presos em um quarto no quintal de um homem que sequestrou Joy durante a adolescência. Jack é o filho que Joy teve com o sequestrador, e nasceu no cativeiro.
 Ao contrário do que se possa imaginar, o filme não é um suspense cheio de ação e terror, e sim um drama que nos revela a inocência de Jack e a força de Joy. Um filme sensível e delicado, que nos surpreende nos detalhes.

 Jack tem os cabelos longos, e diz que os cabelos são sua força. Porém, ao se deparar com Joy fragilizada, pede que seus cabelos sejam cortados e entregues à mãe, para que ela se fortaleça. E diz: "Nós todos ajudamos uns aos outros a permanecer fortes. Ninguém é forte sozinho". A frase, assim como todo o filme, me fez refletir. Porque sem o filho, talvez a mãe não tivesse a garra que teve para escapar do cativeiro. E por causa de tantas pessoas, presentes ou não, nos esforçamos para resistir todos os dias da melhor maneira que conseguimos.

 Você está batalhando por um mestrado. Entre livros, traduções e pesquisas pensa em desistir. Mas então se lembra de sua mãe, há tanto tempo distante, como ela queria estar viva para ver você concretizando esse sonho... por ela você se esforça e consegue. Descobre, mesmo sozinho, que é mais forte com a lembrança dela.
 Você está cansada do trabalho. Os prazos apertados, a rotina desgastante... mas de repente se lembra do filho pequeno. A escola que ele frequenta, as comemorações no aniversário, as viagens no fim do ano... por ele, você descobre que pode transformar o cansaço em algo produtivo, e descobre o quanto é forte ao recordar seu abraço.
 A jovem mãe na cama do hospital. Transitando entre a vida e a morte, tem um sonho com seus filhos e luta pra sobreviver. Tem um progresso surpreendente e os médicos se perguntam: o que teria contribuído para essa melhora tão rápida?
 Nando Parrado, um dos sobreviventes da tragédia nos Andes. Tendo de lutar pela vida em condições extremas, conta em seu célebre livro "Milagre nos Andes", que o que deu forças para ele continuar forte foi a lembrança de seu pai. Já havia perdido a mãe no acidente, não queria que o pai tivesse que lidar com mais uma perda. Então fez-se forte, e ao invocar a lembrança do pai, dava mais um passo.

 Ninguém é forte sozinho. Por mais que desejemos ser donos e senhores de nossas vidas, é o olhar ou a lembrança do outro que nos fortalece para persistir e continuar. Ao invocar essa lembrança, aprendemos a reconhecer nossa identidade também. Pois desde muito cedo aprendemos a decifrar quem somos pelos olhos de nossos pais ou de quem nos criou. É esse primeiro olhar que nos ajuda ou atrapalha vida afora, aumentando, diminuindo ou dando real perspectiva a quem somos de fato. Da mesma forma, descobrimos que nossa força não é só nossa. Ela é impulsionada por outros mundos, que se cruzam ao nosso, mas ainda assim outros mundos.
 E ainda que não se ache quem pode ser nossa força nesta vida, sempre haverá Deus e nossa forma de falar com Ele, descobrindo que a oração é uma força poderosa.

 Então vem um filme e revela, na voz do menino de 5 anos, que todos dependemos uns dos outros. De uma forma delicada, nos mostra que, embora haja uma corrida pela autossuficiência, é ajudando-nos mutuamente que podemos ser mais fortes.

 Mesmo que não haja gestos concretos como o de Jack, que corta seus cabelos para fortalecer a mãe, podemos reconhecer quem nos fortalece vida afora: nossos pais, filhos, amigos, amantes, companheiros, colegas de trabalho e até pessoas que já se foram. Cientes ou não, essas pessoas nos impulsionam a prosseguir da melhor forma possível e, acima de tudo, não permitem que haja dúvida ou desistência. Por elas somos mais fortes, e descobrimos que ninguém é forte _ ou feliz_ sozinho...

                                                                                FABÍOLA SIMÕES

 











   

Pessoas que nos emocionam


 Outro dia, assistindo ao programa "Mais você", ouvi Cissa Guimarães dizer que o amigo André Marques a emocionava. Mais que um elogio sincero, aquelas palavras traduziam muito do que sinto em relação a algumas pessoas. Certamente você conhece pessoas assim. Gente que nos emociona com sua história, seus gestos e suas palavras.

 Pensei na lista de pessoas que me emocionam, e no porquê delas despertarem essa emoção em mim. Poderia citar Jesus Cristo, Gandhi e Mandela, mas falo de gente comum, gente que cruza nosso caminho todos os dias e nos ensina a ter olhos de poesia só de olhar para elas. Ana Jácomo disse que essas pessoas têm cheiro de colo de Deus, e acho que é isso mesmo. Talvez sejam almas que nos abraçam com sua presença, amansando nosso desconforto rotineiro e nos convidando a ser quem somos de fato, longe dos papéis que assumimos, falando sobre aquilo que cremos de verdade e vivendo de acordo com o que temos fé.

 Tem gente que nos comove à primeira lembrança. Perto delas nossa fala encontra reciprocidade, e a gente se abre sem reservas sem mesmo entender porque. Ao lado delas nossa dúvida encontra alívio e nosso medo perde abrigo.

 Tem gente que nos dá saudade, e a saudade é a emoção da falta que aquela pessoa faz. A lembrança de suas mãos quentes nos segurando nos dá a certeza de que em algum lugar alguém se importa de verdade, e só isso já é um alento, seja em que circunstância for.

 Algumas pessoas cruzam nosso caminho e estabelecem uma ligação forte desde o primeiro instante. Dizem que "os santos batem", e perto delas nosso riso é mais solto e o choro não tem receio de brotar. Com elas o assunto não falta, e a vontade de estar junto supera os obstáculos de tempo e lugar. Perto delas somos mais autênticos, e a vida ganha coerência e lucidez.

 Tem gente que aparece em nossa vida feito passarinho cantando de manhã. Sabem que podem se aproximar e não têm receio de que irão incomodar.

 Tem gente que pode silenciar ao nosso lado sem que haja estranhamento ou acanhamento. Perto delas o silêncio é consentido e bem vindo, e entendemos que a alma também precisa de trégua, descanso e mansidão.

 Pessoas que nos emocionam carregam histórias bonitas dentro delas. Sabem valorizar cada momento presente com leveza e sabedoria porque já superaram obstáculos e saíram vencedoras. Nos animam com sua força e servem de inspiração e motivação.

 Perto delas a gente se sente ouvindo "A casa é sua" do Arnaldo Antunes no volume mais alto, e entende a letra que diz: "até o teto tá de ponta cabeça porque você demora..."

 Tem gente que nos transmite paz sem que nenhuma palavra seja dita. Silenciam nossa alma com cuidado e plantam sementes de otimismo em nosso caminho.

 Desejo que você encontre pelo menos uma pessoa assim. Alguém que lhe tire do lugar comum e lhe comova de um jeito especial. Que ao pensar nela, seu coração sorria e sua alma sinta estar sendo acariciada.
 E que você possa ser essa pessoa também. Que em algum lugar, em algum momento, alguém pense em você e sinta que está se emocionando de verdade...

                                                                                        FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Platon Yurich  

"Nem tudo que reluz é ouro"


 O carnaval passou, mas chegando à quarta feira de cinzas, meu menino ainda tinha as mãos tingidas de purpurina dourada por ter encostado num carro alegórico. "Parece ouro!" dizia, enquanto esfregava as mãos debaixo da pia. Com isso me lembrei da expressão: "Nem tudo que reluz é ouro", e seu significado: nem tudo o que parece ser, realmente é.

 Nem todas as previsões meteorológicas dão certo, do mesmo modo que pequenos arbustos crescem por entre calçadas de cimento, desafiando as leis da agricultura e mostrando que podem resistir apesar das intempéries do solo, nos lembrando que nem sempre o solo seco é o solo infértil.

 Nem tudo o que parece ser, realmente é, e até que se prove o contrário você tem grandes chances de ser feliz seguindo aquela sua intuição que diz para ir por este caminho ao invés daquele que todo mundo está tomando. Pode dar certo mesmo contrariando a maioria, mesmo destoando do caminho pintado de ouro, mesmo desafiando as regras da coerência e do bom senso.

 Nem tudo que reluz é ouro, e basear o que é certo pra você no que é certo para o seu vizinho ou para aquela menina popular do Instagram não faz sentido, justamente porque não há garantias de que qualquer vida pode ser melhor seguindo esta ou aquela cartilha.

 Nem todo carnaval foi melhor que o seu, e mesmo que haja mais purpurina na rede social daquele seu amigo descolado, isso não significa que ele encontrou mais alegria na sua alegoria do que você.

 Possibilidades existem pra todos, e não dá para julgar um livro somente pela capa, nem gostar mais de um vestido só porque ele custa mais caro. E antes que eu me esqueça, é bom lembrar algumas verdades: nem todo cabelo liso é fácil de lidar, nem todo gordinho é feliz, e cada pessoa enfrenta suas próprias batalhas diárias.

 Mesmo que não pareça, cada dia é um novo desafio para qualquer um, e você não pode olhar para os lados e viver de suposições. Muito daquilo que é considerado impossível pode ser contrariado, e se a gente não tentar _ nem que seja para provar a si mesmo que não tem medo de ser feliz _ a gente não descobre que poderia ter dado certo. Nem tudo que reluz é ouro, e nem tudo que parece impossível realmente é.

 Então se hoje você tem a possibilidade de tentar algo novo mas tem muito medo também, lembre-se que você pode estar se julgando muito menor do que realmente é. Tente, enfrente, desafie-se. A maioria das pessoas que consegue brilhar feito ouro arriscou perder o medo de tentar.

 Brilhe você também!


                                                                                                        FABÍOLA SIMÕES

Imagem: Via Tumblr

   

Certezas


 Estou adorando o livro "Nós", de David Nicholls. O romance é leve e divertido, e já no começo nos compadecemos de Douglas Petersen, o personagem principal, que uma noite é acordado pela esposa e se depara com um pedido de divórcio repentino. Era só mais uma madrugada, uma madrugada comum, e no entanto ele agora tinha que lidar com aquilo que não esperava.

 A gente só cresce quando a vida desafia algumas de nossas certezas. A vida linear, do jeitinho que a gente planejou, seguindo o script de nossos anseios e vontades, não nos tira do chão nem exige ousadia de parte alguma. Mas o susto... O susto nos arranca de nossas poltronas e nos faz ser mais fortes do que pensamos. O susto nos impulsiona a agir mesmo quando nos moldamos à comodidade de nossa rotina, e nos estimula a seguir adiante desembaraçando os nós e costurando novos arranjos.

 Você pensa que está no controle de tudo. Faz exames, tem uma aplicação segura no banco, usa fio dental regularmente, carrega o guarda chuva no porta luvas do carro, está em dia com o plano de aposentadoria. Mas seu excesso de zelo não o protege da porção da vida que está aí para lhe surpreender. Para provar que mesmo tentando controlar tudo, você não tem controle sobre nada. Para ensinar que você tem que aprender a andar com menos segurança, habituando-se a dizer: "Simplifica!" pros prazos apertados e pras urgências desnecessárias.

 Na vida temos certeza sobre quase nada. O que existem são zonas de conforto onde nos cercamos daquilo que parece certo até aquele momento. Mas nada nem ninguém é definitivo. Tudo muda a todo instante, e por isso torna-se fundamental resguardar-se com leveza, dando real valor ao momento presente.

 Nem tudo é caos; reviravoltas fazem parte do plano para nosso crescimento. Nem tudo é difícil; as mudanças podem ser encaradas como desafios. Nem tudo é tormenta; alguns sustos nos levam para um lugar melhor.

 O que é certo é o presente. Só neste lugar e neste momento somos quem somos de fato, e temos o que temos ao nosso alcance. O resto, são só suposições. Se aquele caso antigo vai voltar ou não, se o curso de verão será bom ou não, se o amor presente vai durar ou não... não há certeza que possa perpetuar o que desejamos, pois a vida, por si só, é uma aventura em constante mutação, e carrega muito mais reticências que pontos finais; muito mais linhas a escrever que folhas gastas pelo tempo; muito mais viradas de página que finalizações de capítulos...

                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Tumblr





  

Um norte


 No último fim de semana assisti ao filme "Um senhor estagiário" ("The intern") com a turma lá de casa. Logo no início, Ben, o personagem vivido por Robert de Niro, diz:
"Freud disse: "Amar e trabalhar, trabalhar e amar. É só o que existe". Bem, eu sou aposentado e minha esposa morreu. Como devem imaginar, tenho tempo de sobra. Minha esposa faleceu há três anos e meio. Sinto muita falta dela. E a aposentadoria é um esforço contínuo e implacável de criatividade..."

 O resto não vou contar, só digo que o filme é bem divertido e me fez pensar na vida como uma sequência de eventos que devemos usufruir da melhor forma possível. Como disse Ben, "um esforço contínuo e implacável de criatividade." Pois, ao contrário do que cantou Zeca Pagodinho, nem sempre é válido "deixar a vida me levar". Há que se ter criatividade e jogo de cintura pra não esmorecer nos momentos em que nos falta um rumo a seguir.

 Como você passa o seu dia? Trabalha, leva os filhos para a escola? Estuda de dia, namora de noite? Cuida dos netos, cultiva um jardim? Faz ginástica, encontra os amigos? Estuda, trabalha, pratica yôga e cozinha? Tem tempo demais, tem tempo de menos? De qualquer forma, estabelecer um norte torna-se primordial para se viver bem. Ter objetivos, ter pra onde ir, ter o que fazer, descobrir o que te faz feliz, descobrir o que te realiza e completa... tudo isso faz parte do pacote que é brincar de viver, e deve ser cultivado constantemente.

 Ter um norte é descobrir as coisas que alimentam sua alma, os gostos que renovam seu espírito, as atividades que lhe dão prazer, as músicas que lhe comovem mais. Não necessita de especialização nem perfeição, só vontade de estar inteiro naquilo que lhe completa. Não precisa de carteira assinada, muito menos livro ponto. Ter um norte tem mais a ver com os assuntos do coração do que da obrigação, e depende mais da vontade que da necessidade.

 Essa reflexão me trouxe de volta uma sessão de terapia em que minha terapeuta me perguntou o que eu mais gostava de fazer. Eu respondi que era cuidar do meu filho. Ela insistiu, tinha que ser algo direcionado a mim, não a outra pessoa ("os filhos crescem..." _ ela disse). Foi então que me lembrei que gostava de escrever e, bingo! descobri que podia começar um blog.

 Então o que eu quero dizer é que você tem que descobrir o que te realiza e faz você querer abrir os olhos pela manhã todos os dias. O que faz você sorrir para o espelho do banheiro mesmo que a saudade esteja doendo em seu peito. O que lhe comove ao ponto de lhe tornar criativo para resistir e querer ser melhor do que já foi. O que alimenta seu espírito quando o cansaço lhe tira as forças, e faz seus olhos brilharem à primeira lembrança do que você pode fazer com seus dons.

 Ter um norte é descobrir em si mesmo o que lhe completa, e não buscar nos outros o seu sentido para viver. É encontrar dons escondidos e alimentá-los com vontade e determinação. É esforçar-se para sair da acomodação e seguir por uma estrada íngreme, que leva a um lugar melhor. É ir à luta para encontrar sentido nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, nas diminutas possibilidades.

 Ben, o personagem que citei, é um senhor empenhado. Aos setenta anos, já tentou de tudo: viajou, jogou golfe, leu, foi ao cinema, fez yôga, aprendeu a cozinhar, comprou plantas, estudou Mandarim. Ainda assim, precisava de um sentido maior para seus dias. Se ele encontrou? A gente torce que sim!

 Quanto a nós, só podemos seguir feito Ben, em busca de sentido. De algo que venha sanar esse vazio existencial que todos possuímos, e que de vez em quando dá as caras de um jeito maior do que gostaríamos. Que haja serenidade para esperarmos o tempo das descobertas. Que haja lucidez para assumirmos o papel que nos cabe em nossa própria vida. E que não nos falte ânimo, pois é ele que nos impulsiona a viver melhor todos os dias.

                                                                                             FABÍOLA SIMÕES
   









  

  


  





You've Lost That Loving Feeling‏

Mais um texto do meu amigo e colaborador Djalma Alt Faria Neto:


"Eu consigo viver muito bem sem você
Claro que consigoExceto quando chuvas suaves caem das folhas, aí eu me lembroDa felicidade de ser abrigado em seu abraço Com certeza eu me lembro,Mas eu sigo muito bem sem você.
Eu me esqueci de você, assim como deveriaÉ claro que me esqueciExceto quando escuto seu nomeOu a risada de alguém que é igual a suaMas eu me esqueci de você assim como eu deveria..."
 Essa música (I Get Along Without You Very Well) cantada por Frank Sinatra, Nina Simone e Renato Russo, traduz muito bem esse sentimento que nos faz lembrar de alguém. Nela, o cara insiste em dizer que se esqueceu daquela pessoa, que consegue levar sua vida na boa e só se lembra dela em alguns momentos: quando acorda, quando dorme, quando escova os dentes, quando chove, deita, tira uma soneca, vê alguém parecido, assiste um filme, visita um determinado lugar, corre na rua, passeia de bicicleta, enfim...
 É claro, você já deve ter ouvido falar que não existe em todas as línguas, nenhuma palavra que explique o real significado da palavra portuguesa SAUDADE.
 Na verdade, saudade pode ser explicada como um sentimento difícil de definir, mas fácil de entender.
Ela pode estar escancarada em qualquer pessoa _ estampada naquele sorriso ou escondida por trás de tanta tristeza.

 Ter saudade é como participar de uma realidade invisível: você tem as possibilidades de usar tudo a seu favor, de levar adiante sua vida sem pestanejar em qualquer momento _ mas quando se lembra daquele lugar legal que nunca mais voltou, ou daquela pessoa que está tão longe, você pára nem que seja por um segundo para dar aquele suspiro...

 Saudade sente quem tem fome, tristeza, amor ou insônia. Quem tem boas histórias pra contar _ quem já sorriu muito, correu muito, se divertiu muito, sofreu muito ou amou muito!  Saudade sente quem um dia parou e percebeu que ficar olhando pra trás não é o melhor negócio e então repetiu baixinho: Eu me quero de volta! 
 Porque saudade também é você saber cuidar de si mesmo, vibrando uma energia diferente para atrair coisas boas, olhando sempre pra dentro e vivenciando tudo com um novo olhar. Saudade é, muitas vezes, querer e ter a possibilidade de ficar sozinho.

 Tem saudade quem já usou Kichute, Maria Chiquinha, tomou Fanta Uva, assistiu desenho animado, andou de patins, comeu chocolates Surpresa, bala de leite Kids, lanches Mirabel, cigarrinhos de chocolate Pan, chupou pirulito Dipn Lik, comprou um suspiro só pra ganhar um relógio de brinde ou fez castelos de areia quando foi passear com a família na praia.

 Tem saudade quem sabe que as melhores coisas da vida são as mais simples e então encheu seu pendrive de músicas legais para ouvir no carro, usou aquele monte de moedas pra tomar um espresso na padoca da esquina, parou na estrada para fotografar aquele pôr-do-sol alaranjado que cegava sua visão no caminho de volta pra casa, encarou o dia com sorriso enorme no rosto mesmo sabendo que o horóscopo daquela manhã dizia que  a Lua transitaria pela Casa 5, enquanto o Sol se encontraria na Casa 12, - o que não seria bom porque sua sensibilidade estaria muito aflorada, o que poderia provocar reações exacerbadas sem nenhum embasamento racional.

 Tem saudade quem se lembra de alguém na melhor parte da música, naquele pedaço que você gosta mais. Então você sorri enquanto canta junto “estranho seria se eu não me apaixonasse por você”. Porque músicas sempre lembram momentos, que te levam pra algum lugar, que te dão saudade.

 Tem saudade quem já se olhou no espelho e não ficou contente com o que viu  e então traçou planos de cortar o cabelo, ir ao dermatologista, frequentar a academia, comprar uma calça nova, experimentar o novo perfume que viu na revista.
 Mas é também ter o direito e a possibilidade de se entristecer quando alguma coisa passa a incomodar, quando parece que o mundo joga contra, quando você fica sem lugar, quando o jogo parece estar totalmente perdido. Saudade de um carinho, de um sorriso compreensível, de um olhar de cumplicidade, de ficar preso para sempre naquele abraço que era tão bom! 

 Tem saudade quem ouve a pessoa falar que vai te amar pra sempre mas mesmo assim quer ir embora da sua vida _ e você então percebe que, por mais que ela insista em te provar que você é super importante, aquele amor se transformou em carinho. E ainda que você não queira essa situação porque ainda ama e ficar sem ela pode parecer desesperador em um primeiro momento, você fica tranquilo porque sabe que fez tudo o que podia, que colocou todas as suas cartas na mesa, que de repente, as coisas realmente não precisam ter sentido algum - pelo menos uma vez na vida. 

 Tem saudade quem retornou àquele lugar que foi palco de encontro de uma época bem feliz mas que, por algum motivo, passou. Você olha para a mesa ali no canto e se vê, alguns anos mais novo, esperando pela companhia que estava por vir, enquanto a história toda passava pela sua cabeça: o primeiro encontro (aquele), o olhar fixo na tela do celular esperando pela mensagem de "Estou chegando Rosto mandando beijoRosto sorridente com olhos em forma de coração", o primeiro café, o barzinho que veio logo a seguir, as viagens com fotos na praia, na rua, na chuva ou na fazenda! E tudo se desenvolveu assim: como  as músicas menos conhecidas de um disco que bombou, os famosos Lados B, aquelas canções poucos conhecidas mas não menos importantes, exatamente as suas preferidas.

 Olha, saudade traduz você, seus gestos, sua maneira de falar, andar e sorrir! 
 Saudade traduz você que está tão longe e ao mesmo tempo tão perto. E bate tão forte como naquele refrão, dessa vez de outra música: “E eu nem sabia, como era feliz de ter você"

                                                                                           DJALMA ALT FARIA NETO

Nossa grandeza e nossa pequeneza


 Nesse período de férias escolares contei com a ajuda de minha mãe. À tarde ela ia para minha casa e lá ficava com meu filho e meu sobrinho, netos que ela sempre quer por perto. Outro dia, voltando do trabalho e encontrando-a em casa, tive vontade de deitar no seu colo e voltar a ser a filha que um dia eu fui. Mas o que eu era? Era a mãe de um menino de nove anos chegando em casa. Era a dentista do Centro de Saúde terminando o expediente. Era a esposa retornando para o lar. Era a filha encontrando sua mãe. Esqueci esse último papel e assumi os outros três. Comovida com minha necessidade de proteção, apenas endureci. E lembrei de uma frase numa palestra da Rosely Sayão na escola do meu filho: "Onde tem afeto, é mais difícil". E percebi o quanto a comunicação falha quando há afeto envolvido.

 Queremos colo, mas dizemos que estamos cansados. Desejamos ser ouvidos, mas falamos com aspereza. Temos medo, e em vez de buscar um refúgio, nos irritamos com facilidade. Estamos sensíveis, por isso endurecemos.

 Somos grandes e pequenos ao mesmo tempo, mas só mostramos uma face, nem sempre a melhor. Manter certa distância de nossos sentimentos facilita o diálogo, mas não traduz quem somos de verdade.

 De verdade somos seres complexos, antagônicos, que se alegram com facilidade e perdem o humor no instante seguinte. Tem dias em que tudo se encaixa, como peças de um quebra cabeças perfeito, e outros em que nos perguntamos pra onde estamos indo realmente. Talvez aprender a lidar com a transparência de nossos sentimentos, sendo sinceros no diálogo com quem nos importamos de verdade, seja a chave para nos comunicarmos melhor.

 Nossa grandeza diz que somos dignos de amar e sermos amados, que estamos no rumo certo, que podemos desejar um monte de coisas, que tudo é possível para quem tem fé, que um dia ruim é passageiro, que a vida é muito boa, que é bom ter a casa cheia, que nunca é tarde para investir num sonho, que somos seres que necessitam de amigos. Nossa pequeneza nos coloca em dúvida em relação ao presente e futuro, nos amedronta diante da novidade, nos afasta das pessoas, diminui nosso amor próprio, afugenta a proximidade dos outros.

 Mas ninguém é uma coisa ou outra. Tanto a grandeza quanto a pequeneza têm espaço dentro de nós, e vêm à tona sem que nos programemos para isso. Então o negócio é nos conhecermos melhor _ e aprendermos com os erros. Quem sabe assim a gente se habitue a buscar a realidade recheada de verdade, e descubra que um cansaço é só um cansaço, e não precisa ser mascarado com frieza e distanciamento. Que a vontade de ganhar um abraço muitas vezes tem que ser dita, e que isso não diminui a validade do gesto. Que querer um colo de vez em quando é normal, e nos aproxima um tanto também. Que a tristeza existe, e acusa um monte de verdades que precisamos parar para ouvir. Que depois de senti-la por inteiro, ela vai embora.

 E que só quem não tem medo de ficar triste consegue ser feliz por inteiro.

                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Via Tumblr







 

  

Menos um dia


 Ao cobrir meu filho durante a noite penso no quanto ele está crescendo depressa, em como se modifica rapidamente com o tempo, nos vapores de infância que ainda são possíveis de respirar em nossa casa.

 Cada dia é um dia a menos. Por isso, embora haja compromissos _ a vida pede desempenho, obrigações, metas, horários e comprometimento _ é preciso olhar para a existência com olhos de novidade, que não se habituaram com a claridade da rotina, mas se esforçam para usufruir o tempo com qualidade. Mais ou menos como quando viajamos.

 Viajar é tão bom porque nos impulsiona a sair de nosso cotidiano repetitivo e a experimentar uma existência nova, totalmente diferente de nossos dias corridos. Em um lugar que nos pertence apenas temporariamente, nosso olhar muda. Foi assim que me senti nas últimas férias, e é para esse tempo que volto quando as obrigações da rotina pesam sobre meus ombros. Fecho os olhos tentando me lembrar do cheiro da pipoca caramelizada dos parques da Disney, e me vejo andando pela rua principal do Magic Kingdom de mãos dadas com meu marido. Ouço a voz do meu filho comemorando a façanha de ir em mais uma montanha russa e sorrio enquanto caminho apressada. E por mais que se diga que quando estamos vivendo uma realidade com a cabeça em outro lugar não estamos em lugar nenhum, preciso dessa lembrança para me sentir em paz. Eu sei que pode parecer pouco, pode parecer pequeno, mas me apazigua também.

 Encontrar conforto na rotina que nos acorda ao som de despertadores não é tão simples quanto parece. Mas podemos treinar nosso olhar. O mesmo olhar que se transforma ao arrumar as malas para partir pode se encantar com o cheiro do filho dormindo, com a repetição dos episódios de Star Wars que me ensinam a entender o contexto do último filme, com o sabor de café recém passado do Centro de Saúde, com o trabalho bem realizado nos cinco dias da semana, com o fim de semana que passa tão depressa, com o vinho no jantar com meu marido, com o calor das mãos de minha mãe no fim da tarde, com o livro "A redoma de vidro" que estou lendo, com a noite que chega rápido demais.

 Sofremos com o fim do domingo porque imaginamos a semana como uma tarefa árdua demais para se enfrentar. Não precisava ser assim. Nem todo dia de trabalho é um dia perdido ou ruim. Na verdade devíamos lembrar que é um dia a menos como todos os outros, e por isso devia ser vivido com maestria, por mais difícil que pareça.

 Tenho orado em silêncio enquanto caminho pela rampa que termina na porta do consultório onde atendo. Não foi fácil voltar das férias para o Centro de Saúde, mas tenho pensado em alternativas que me permitam usufruir o dia ao invés de apenas enfrentá-lo. Aos poucos tem dado certo. Por mais desgastantes que sejam nossas funções, elas são nossas escolhas, e é preciso estarmos gratos por fazerem parte de nossos dias.

 Que a gente assuma a vida que escolheu do jeitinho que ela é, e não perca tempo lamentando a porção difícil que qualquer dia carrega. Que nosso olhar possa se renovar diariamente, mesmo que a rotina seja repetida exaustivamente. Que a gente descubra maneiras de se surpreender, nem que seja variando o trajeto para o trabalho, mudando a forma de começar as refeições, alterando o lado para o qual repartimos o cabelo, seguindo novos roteiros de viagens no Instagram. E que não nos falte ânimo para realizar todas essas coisas, pois cada dia é menos um dia, e o melhor que podemos fazer é vivê-lo com sabedoria.

                                                                                       FABÍOLA SIMÕES

Mais uma chance



 Outro dia revi "Comer, rezar, amar" num desses canais da TV paga. Elizabeth Gilbert sempre me surpreende com algumas de suas frases, e dessa vez não foi diferente. Num dado momento, o amigo da personagem principal diz: "Você precisa aprender a escolher seus pensamentos do mesmo jeito que escolhe as roupas que vai usar a cada dia. Se você quisesse tanto assim controlar as coisas da sua vida, trabalhe com a sua mente. Ela é a única coisa que você deveria estar tentando controlar. Reconhecer a existência dos pensamentos negativos, entender de onde vieram e porque apareceram e então _ com grande capacidade de perdoar e com grande coragem _ mandá-los embora."

 A frase coube direitinho neste começo de ano em que decidi reciclar meu interior e voltar para a terapia. Estou me dando de presente a oportunidade de entender meus pensamentos, saber de onde vêm e conseguir fazer deles algo melhor e mais bonito. 

 A gente reluta muito em entender que somos o início e o fim da maioria de nossos problemas. E é engano acreditar que podemos controlar o tempo, as pessoas que nos rodeiam e as circunstâncias que nos cercam sem modificar a forma como olhamos para o tempo, para as pessoas e para as circunstâncias. A mudança está no pensamento, na escolha daquilo que permitimos que permaneça dentro de nós.

 Acolher o ano novo é reconhecer que nos foi dada mais uma chance. Mais uma chance de tentarmos ser melhores mesmo que isso nos custe muito esforço. Mais uma chance de querermos muito alguma coisa ao ponto de não desistirmos dela ao primeiro obstáculo. Mais uma chance de agradecermos em vez de reclamarmos, e simplesmente aceitarmos a vida como um presente, e não como um fardo. Mais uma chance de reconhecermos que temos sorte, por pior que pareçam os momentos.

 Escolher os próprios pensamentos pode parecer simples, mas não é. A mente se habitua a exigir em vez de agradecer. E teima em navegar por águas turvas, de descontentamento e desilusão. Por isso necessita de esforço. Tentar de novo, todos os dias, é um exercício que deve ser repetido exaustivamente, até chegar ao ponto em que o hábito vira rotina, e a repetição se torna vocação. Ninguém disse que seria fácil, mas pode ser possível se você tentar.

 A realidade depende da forma como interagimos com ela. E agora me veio à mente uma história (real) que meu marido conta. Na época em que morava no sítio e estudava na cidade, um de seus colegas de classe se esforçava para repetir de ano. Parece que repetiu inúmeras vezes porque não queria deixar o colégio, já que isso representava voltar a trabalhar na roça. O que para alguns poderia parecer um fardo (repetir de ano), para ele era uma bênção. Assim são nossos pensamentos. Podem nos conduzir para uma existência leve, sem dívidas, ou podem fazer da realidade uma extenuante repetição de fardos pesados, difíceis de carregar.

 Que 2016 traga mais uma chance e com ela o amadurecimento de nossa capacidade de escolher bem os pensamentos, dando real importância ao que deve criar raízes em nós. Que possamos reconhecer mais uma chance nos dias que ainda não foram escritos, e que aprendamos a colorir nossas folhas em branco da melhor maneira que pudermos. Que haja esperança, porque ela é o combustível para os momentos difíceis. Que haja fé, pois ela nos permite resistir quando falta acolhida em nossa vida. Que não nos falte afeto nem boa companhia, mas que saibamos tolerar nossa solidão com sabedoria. Acima de tudo, que a gente não desista, pois a vida é para quem ousa insistir, mesmo quando a dúvida parece resistir...

 Bem vindo 2016!

  





  

  

Carta de um cego

 O blog está crescendo e passando por mudanças. Para ir aquecendo, hoje publico aqui um texto escrito por um grande amigo, colega de faculdade e escritor. 
 Por Djalma Alt Faria Neto: 

 Nina, 
 Eu ando meio agitado, aqui de mudança (again!) para a casa de minha mãe . Faz tempo que tenho problemas em fazer as malas e voltar pra “casa” – sempre barulhenta, problemática, com os velhos bichos - gatos e cachorros, os de sempre. É estranho, família é uma coisa que a gente passa muito tempo negando até perceber não só que não deve negar como também é bom, consolador. Agora decidi. Não dá mais pra continuar correndo atrás dessa vida utópica. Cansei de ficar procurando, esperando alguma coisa que não existe, nem existiu ou jamais existirá! Minha decepção foi tão grande com a vida profissional, que tenho vontade de sumir, perder o contato com as pessoas, ficar vivendo uma vida toda pra dentro, lendo, escrevendo, ouvindo música – não tenho mais paciência para esses jogos de ego, que eu conscientemente não alimento. Daí então, percebo que viver fugindo não vai curar e sigo em busca de um pouco de luz (em todos os sentidos).
 No momento, estou reduzindo tudo que tenho a no máximo duas malas. Vou ficar provisoriamente aqui. Minha vida tá em compasso de espera - penso sempre que as mulheres grávidas devem sentir algo semelhante antes de botar um filho no mundo. Talvez me mude daqui um mês para cobrir um amigo que saiu de férias no interior de São Paulo, mas não sei ainda se isso é certo e nem o que vai acontecer. Sabe, sempre tentei viver no sentido de não ter muitos laços, não me prender, de ser independente, de poder cair fora na hora que quisesse e, agora aos 29 anos, podendo realmente fazer isso, me sinto meio exilado, meio _ desamparado _ acho que a palavra é essa. Devia ter arrumado outra profissão? Teria sido possível? E qual seria? Veterinário, psicólogo, dentista , chef de cozinha ou astronauta? Não sei.
 Ultimamente estou tentando me convencer de que estou ótimo. É quase um mantra. Fico aqui quieto sem incomodar ninguém, sem dever nada aos outros, sem nada além de eu, eu mesmo e ... e isso nem é tão ruim. Fico repetindo: “que bom que sou capaz de estar vivo sem prejudicar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou corajoso e até me divirto e conheço pessoas maravilhosas no meio dessa eterna-bagunça-profissional-sentimental. Estou ótimo. E vou ficar melhor ainda: "essa é a minha vingança contra o mundo”. Hoje escrevi com o dedo no espelho do banheiro embaçado após o banho: “Eu Amo Você” – pra mim mesmo. Quero que daqui pra frente a vida seja hoje.
 Enquanto te escrevo ouço Kings of Leon cantando “Temple", que neste momento exato acabou de me fazer lembrar o dia em que nos conhecemos. Tenho uma vontade besta de voltar no tempo, às vezes. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido, saca? Aquela vontade de poder viver os encontros adiados, as visitas transferidas, os sonhos frustrados. De qualquer maneira, como me dói a certeza de um não, me dói a sinceridade do silêncio, me dói não saber de que forma chegar a você, sacudi-la e dizer “me olha, me encara, me abraça, me aceita, me leva pra casa!” Você e a dor são coisas e-ter-na-men-te-in-se-pa-rá-veis. Tudo isso passa, eu sei. Ou pelo menos acalma com a idade – Espero que sim.
 Desculpe-me se me afastei. Ando mesmo em silêncio: saído do emprego e aquelas agitações que você bem sabe. Minha cabeça fica péssima: medos, inseguranças, paranóias, saudades. Daí, fico pensando em tudo outra vez, no cansaço, tantos anos, tantas batalhas e sempre esses mesmos problemas e carências. Teu “retorno” na minha vida me fez muito bem. E muito mal. Acho que compreendo tudo que você pensa. São coisas que me digo, também. Mas há uma diferença entre você saber intelectualmente e conseguir passar isso para o seu comportamento. Como disse antes, acho que seja apenas uma questão de tempo. Mas vamos lá, não importa mais o que foi perdido importa apenas o seu sorriso e nada mais. HOJE É TEU ANIVERSÁRIO e eu (ainda) te quero bem, muito bem - meu bem. Quero que você se sinta completamente feliz, saudável, única, madura & equilibrada. Nessa metade de ano foram tantos acontecimentos e  desacontecimentos, desentendimentos, muitas correrias, não deu pra gente se ver nem falar direito. Espero, de todo o coração, que você arrume um cara legal que possa te fazer companhia nos dias chuvosos, no seu caminho de volta pra casa! Por que não?
 Só por hoje vou fingir que-os-problemas-foram-todos-superados-e-tudo-está-muito-legal- e-que-nossa-relação-foi-um-erro-e-que-vamos-ser-apenas-bons-amigos. Parênteses: bons amigos? Nem pensar, já tenho ótimos.  Parênteses dentro do parênteses:  essa memória da gente é espertinha, apaga o amargo, a peneira só deixa passar o doce, né?! Fechar parênteses. Espero que você continue nesse endereço, caso contrário nos perderemos (espero que não para sempre). Espero que você esteja bem e continue bem pelos, pelo menos, próximos 25 anos, apesar dos – digamos – problemas brasileiros: trabalho demais, trabalho mal pago, suado, sofrido, viagens cansativas, contas, contas e contas. Mas eu (ainda) tenho fé. Pedi a Deus que te ensine qualquer coisa que, não sei exatamente como, consiga manter você serena no meio desta falta absoluta de certezas. A você só vou  pedir uma coisinha: nunca se esqueça do quanto você é uma pessoa in-su-por-ta-vel-men-te-a-do-rá-vel. Tudo isso é pura verdade, e eu concluo que, de alguma forma, nossa ligação mental? espiritual? Sexual? Continue sempre muito forte – pelo menos da minha parte. Não se preocupe com não-respostas ou longos silêncios. Sou a pessoa mais indicada para compreender esse tipo de coisa.
 Ouça, não quero nunca me perder da sua pessoa, nem preciso dizer isso porque você sabe. Portanto, mesmo que um dia você cometa a infâmia de desaparecer da minha vida, num outro, de repente a gente se encontra numa esquina, num café, num outro planeta, no meio duma festa ou duma fossa, no meio duma multidão a gente se encontra, tenho certeza.  Aproveite seu dia numa nice e toma um café por mim que o mundo acabou faz tempo.
Love from
Paulo 
PS:  E TENHA UM FELIZ ANIVERSÁRIO! 
PS 2: O pior cego é aquele que não quer enxergar (meu mantra)
PS3: "E tinha razão, você precisa ser livre" (Nenhum de Nós)

                                                                                      DJALMA ALT FARIA NETO